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Uma nova reformulação na China?

por Janaína Silveira — publicado 04/10/2013 05h38, última modificação 26/06/2015 09h14
A abertura da Zona de Livre Comércio de Xangai pode ser tão importante quanto a abertura realizada por Deng Xiaoping na década de 1970
AFP
Zona de Livre Comércio de Xangai

Convidados acompanham a cerimônia de abertura da Zona de Livre Comércio de Xangai, em 29 de setembro. Uma nova revolução econômica?

De Pequim

É numa área de pouco menos de 29 quilômetros quadrados que a China experimentará as reformas econômicas que, acredita, manterão a robustez do seu crescimento. A aposta é no setor de serviços e na atração de investimento estrangeiro, e para isso foi criada a Zona de Livre Comércio de Xangai, aberta no domingo 29, um dia antes dos 64 anos da fundação da República Popular – que também lê-se como a chegada do Partido Comunista ao poder.

As empresas instaladas na nova zona poderão atuar com a livre conversibilidade da moeda chinesa, o yuan, e a flutuação das taxas de juros segundo o mercado – hoje elas estão sob o jugo do Banco Popular (o Banco Central chinês). É o início do caminho para que Xangai rivalize com Hong Kong, o principal centro financeiro asiático e para onde os próprios chineses correm quando querem arrecadar fundos globais e onde o yuan encontrou terreno para transações offshore.

Se o modelo funcionar em Xangai, pode se espalhar país afora, e daí a aposta de que o atual movimento seja tão importante quanto a política de reforma e abertura adotada por Deng Xiaoping no final da década de 1970.

Há 40 anos, a China dava os primeiros passos rumo à industrialização, apostando em uma produção de baixa complexidade garantida pela então mão de obra não especializada, barata e abundante. O projeto piloto apadrinhado por Deng começou na Zona Econômica Especial de Shenzhen e se alastrou pelo país. O resultado está aí, a China ostenta hoje o título de segunda economia mundial.

Nestas quatro décadas não foi só o status do país que mudou. Os trabalhadores ainda são um contingente considerável. Mas essa é uma das únicas características comuns àqueles que serviram de motor para catapultar a então nação de camponeses à categoria de fábrica mundial. Hoje eles têm salários mais altos – de pelo menos 250 dólares em cidades como Pequim, Xangai e Shenzhen –, mais de 94% dos adultos são alfabetizados (dados da UNESCO para 2011) e 30% dos estudantes chegam ao Ensino Superior.

O que isso quer dizer? Um batalhão de novos consumidores – que precisam também de trabalho. Desde a sacudida provocada pela crise norte-americana e europeia de 2008, a China percebeu que seu modelo exportador estava com os dias contados. Jogou todas as fichas no investimento em infraestrutura como forma de fazer a máquina girar. Mas sabia que precisava mais. Não é exatamente novidade que o foco é aumentar o consumo interno. Mas para o plano dar certo, faltava algum alicerce a fim de suportar o 1 bilhão de chineses que devem fixar residência nas cidades até 2030. Daí a importância desta nova zona livre e o foco no setor de serviços.

O padrinho é o atual primeiro-ministro, Li Keqiang. "A China está num momento crucial de reestruturação e modernização da economia, e enfrenta diversas dificuldades e desafios. Mas os superaremos para aprofundar as reformas, a fim de garantir crescimento econômico sólido, sustentável e de longo prazo, além de progresso social" afirmou Li durante recepção junto à cúpula do poder chinês no dia 1º de outubro, o aniversário de 64 anos e o dia seguinte ao lançamento do novo modelo.

Pioneiros

A nova região já concentra 36 empresas, entre as quais multinacionais como a Microsoft e a Porsche. Do setor financeiro são 11, mas apenas dois bancos estrangeiros, o Citibank e o DBS. Quatro dos principais bancos chineses abriram filiais por ali – e acredita-se que queiram reforçar a carteira de clientes internacionais.

Quem se adiantou espera apropriar-se das vantagens do novo modelo. São 18 setores preferenciais – subdivididos em mais de mil negócios diferentes. Entre estes estão serviços em saúde e educação, além de tecnologia e logística. Agora, o que os especialistas comemoraram mesmo foi o lançamento de uma lista de negócios proibidos dentro da zona, divulgada dois dias depois da abertura do projeto. Estrangeiros não podem atuar como agência de notícias, provedor de internet, entre outras áreas. O alívio é porque a regra torna-se clara, o que nem é sempre o caso na intricada burocracia chinesa. O engessado sistema chinês, é, aliás, um dos pontos fracos para os críticos da nova região.

Em um comunicado, o economista do Merrill Lynch na China Ting Lu disse que “a importância da nova região certamente suplantará a de outras já implantadas na China”, mas acrescentou que ainda falta muito para ser um verdadeiro competidor para Hong Kong ou um gerador de mudanças para todo o país. Segundo o economista, faltam à China reformas legais e administrativas antes de que ela modernize ou liberalize seus sistemas financeiro e econômico.

Quem vê com olhos positivos acredita que o passo é tão importante quanto o de Deng ou quanto a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. Pelo menos essa é a opinião da pesquisadora do Centro China para Intercâmbios Econômicos Internacionais, Zhang Monan, que também acredita que a região possa atrair centros internacionais de pesquisa e desenvolvimento, derrubando mitos de que a China produz apenas cópias. E será um centro de atração e retenção de talentos.

E o Brasil?

Os brasileiros ainda precisam descobrir a China. Mas quem está aqui já prepara-se para discutir oportunidades de negócios. Na próxima semana, o grupo sob o Foro Brasil China, um think tank que reúne os principais executivos de empresas brasileiras com negócios na China terá encontro sobre o tema.

Talvez o tempo de decantação entre o início da operação da zona de livre comércio e o encontro dos brasileiros seja mesmo importante. Antes de ser efetivamente lançada, houve uma profusão de boatos, inclusive o de que os organismos instalados sob os domínios dos quase 29 quilômetros quadrados teriam acesso livre à internet, acessando sites como Facebook e Twitter, ambos proibidos na China. A história revelou-se infundada. Também se passaram dois dias até que o governo divulgasse os negócios aos quais os estrangeiros não teriam acesso, ainda que dentro da Zona de Livre Comércio.