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Um "pré-sal" de minério?

por Paulo Yokota — publicado 17/07/2014 03h54, última modificação 17/07/2014 04h03
A Elevação do Rio Grande, no Atlântico, é uma área potencialmente rica em minérios valiosos e estratégicos

Um interessante artigo elaborado por Monica Gugliano foi publicado no suplemento Eu & Fim de Semana do jornal Valor Econômico. Refere-se à solicitação brasileira ao ISA – International Seabed Authority, conhecido em português como ISBA – Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, criado pelas recomendações das Nações Unidas. O objetivo é realizar pesquisas profundas na área chamada Elevação do Rio Grande, que fica além das 200 milhas náuticas que limitam o mar territorial brasileiro, no Atlântico Sul, numa profundidade a partir de cerca de mil metros, relativamente baixa, mas que chega a muito mais em algumas localidades.

As pesquisas iniciais indicam que a área é potencialmente rica em minérios valiosos e estratégicos, e estas expectativas estão fundamentadas em levantamentos feitos numa cooperação nipo-brasileira, com o uso de um submergível japonês que pode chegar a 6.500 metros de profundidade e permite a coleta de amostras. Se ficar comprovado que a área é uma extensão das terras brasileiras, pelas características comuns, e a Elevação do Rio Grande formou-se quando da separação da África da América do Sul, haveria a possibilidade do Brasil conseguir ampliar o seu mar territorial sobre este trecho potencialmente rico que desperta o interesse de diversos países. Se comprovado, isto exigiria investimentos adicionais em capacidade militar para a sua proteção.

Se a pesquisa for autorizada, o Brasil terá 15 anos para avaliar o potencial das reservas desta área de 1,5 quilômetros quadrados que se formou quando da separação dos dois continentes e ocupado hoje pelo Oceano Atlântico. Já foram constatadas as existências de cobalto, níquel, cobre e manganês. E outros metais nos chamados nódulos polimetálicos como zincônio, tântalo, telúrio, tungstênio, nióbio, tório, bismuto, platina, cério, európio, molibdênio, e titio que são estratégicos para as indústrias de alta tecnologia. As expectativas são bastante positivas, sabendo se que estes materiais considerados raros são encontrados em baixos percentuais misturados a outros, sendo necessárias tecnologias para as suas separações.

Também existem indícios promissores que componentes utilizados em fertilizantes indispensáveis para a agricultura brasileira podem ser encontrados em quantidade nesta área.

Em todas as partes do mundo intensificam-se estes tipos de pesquisas, indicando potencialidades dos fundos dos oceanos, mas havendo poucos países capacitados para trabalhos em grandes profundidades. O projeto certamente terá a participação da estatal CPRM - Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, representando o Brasil.

Se estas primeiras indicações forem confirmadas, mesmo que não se chegue ainda às cubagens exatas dos diversos minérios, as expectativas são de se obter descobertas mais relevantes do que o pré-sal com petróleo e gás que já estão sendo explorados.

Os ganhos brasileiros deverão ser na sua qualificação para estes tipos de pesquisas que já estão sendo feitas por alguns países desenvolvidos em mares internacionais, notadamente com o aperfeiçoamento dos seus recursos humanos. Muitos destes minérios são estratégicos para usos em atividades industriais de elevada tecnologia.

Outros minérios, ainda que de uso já comum, podem apresentar perspectivas mais amplas para a economia brasileira, por estarem localizados em regiões próximas das concentrações industriais, podendo resultar mesmo em áreas marítimas, em custos bastante razoáveis e competitivos. Isto é particularmente verdade na produção de fertilizantes, cujas matérias primas continuam sendo importadas pelo Brasil.

Numa primeira fase deverão ser estabelecidos acordos adicionais para absorver tecnologias para estes tipos de trabalho, que certamente demandarão um bom tempo de pesquisa, até que as explorações adequadas sejam definidas. Mas, somente a confirmação das expectativas podem atrair investimentos, inclusive em projetos de parcerias públicas e privadas.

O que parece desejável é que todas estas informações somente estabeleçam decisões de investimentos que vão além das pesquisas após serem confirmadas. Os seus ganhos também não devem ser utilizados antecipadamente, pois todas as condições de mercado ainda podem ser alteradas ao longo dos próximos anos.