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Economia

EUA e a crise

‘Temos de superar a paralisia política e o medo da inflação’

por Clara Roman — publicado 09/09/2011 17h47, última modificação 11/09/2011 15h38
Especialista da Unicamp compara a crise econômica dos EUA com a situação brasileira: Obama está de 'mãos atadas'

Pouco antes de o presidente Barack Obama anunciar pacote de 447 bilhões de dólares para geração de empregos, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner, alinhou seu discurso e defendeu o incentivo ao crescimento. Em artigo no Financial Times, Geithner afirma que suplantar a crise tem muito mais a ver com superar a paralisia política e o medo da inflação do que com realidades econômicas.

Para Maryse Farhi, professora e pesquisadora de economia da Unicamp, Obama e Geithner reforçam esse discurso em uma tentativa de superar as barreiras na Câmara dos Deputados, de maioria republicana e de oposição ao governo. “Obama não consegue fazer o que ele quer politicamente,” diz ela. “Geithner está tentando dar um gás no discurso do Obama”, afirma. Assim como na Europa, os Estados Unidos embarcaram em uma política ortodoxa de contenção e que impulsionará ainda mais os países desenvolvidos para uma nova recessão.

Em 2008, incentivos fiscais e estímulo ao consumo foram as principais ferramentas do o então presidente Lula para que “o tsunami” da crise, no Brasil, chegasse como uma “marola”. Segundo Farhi, Lula enxergou corretamente o momento político. “Ele estava com o “ás” na mão e jogou certo,” diz ela. Para Obama, no entanto, o entorno é bem menos favorável.

Enquanto no Brasil e outros países em desenvolvimento há muita corda para soltar, nos Estados Unidos, todo o espaço já foi utilizado. Há poucas jogadas restantes. “Estamos muito mais confortáveis, a gente tem espaço”, diz a pesquisadora. Uma possibilidade que ainda restou é fazer um gasto fiscal judicioso para quem distribui renda.

. Mas, Farhi aponta, Obama lançou as medidas tarde demais. Isso porque, nas últimas eleições para Câmara, o presidente democrata perdeu a maioria.

Agora, será muito difícil que esse projeto – ou qualquer outro que vise investimento estatal contundente – seja aprovado. “O estado americano está de mão atadas”. Depois de aportar um montante enorme para salvar Wall Street em 2008, o governo americano teve um período de incentivo ao consumo datado e que se encerrou no meio de 2009. Depois parou, acreditando que a crise seria superada. Em pouco tempo, a economia retornou à estagnação, que se estende até hoje. A dívida pública do país se elevou na era Bush, com os gastos militares. E hoje, a situação se mantém muito mais por causa das baixas na arrecadação do que por elevação dos gastos.

Quanto à ortodoxia generalizada nos países desenvolvidos, Farhi vê um problema político. “Quando todo mundo aperta, a economia vira um caco”, diz ela.  Até mesmo a Alemanha, a esperança para o bloco europeu, anunciou ajuste fiscal. “A gente achava que tinha aprendido com a Grande Depressão. Estou desconfiada que não porque estão fazendo tudo igual”, comenta.

Agora, é tarde demais para voltar atrás. Mesmo assim, a diretora do FMI Christine Lagarde afirmou que os países devem agir na tentativa de combater a recessão. “Os países deverão agir agora – e agir audaciosamente – para orientar as suas economias através desta nova fase perigosa da recuperação”, disse Lagarde, em um discurso na quinta-feira 8 em Londres.

Farhi alerta que, apesar de uma posição muito mais confortável, as economias em desenvolvimento não puxarão sozinhas o crescimento da economia. É necessário que os países desenvolvidos ajam politicamente para salvar a situação. “Ou elas se ajeitam ou vamos passar por um período complicado”, diz ela.