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Economia

Agricultura familiar

Tecnologia eleva renda no sertão

por Gabriel Bonis publicado 04/10/2011 10h42, última modificação 04/10/2011 19h59
Complexo industrial em Vitória da Conquista mostra que organização e infraestrutura podem fortalecer economia local

Em meio a árvores secas, galhos tortos e uma rala vegetação rasteira para pastagem do gado se esconde uma construção incomum ao cenário do semi-árido de Vitória da Conquista, cidade a 509 quilômetros de Salvador. O Complexo Industrial da Cooperativa Mista Agropecuária de Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia (COOPASUB), inaugurado em 26 de setembro, é um exemplo de projeto capaz de viabilizar a agricultura familiar como fonte de geração de renda na zona rural do Brasil.

O setor, apesar de enfrentar problemas constantes, como a falta de apoio técnico aos pequenos agricultores no plantio, manejo correto da terra, comércio da produção ou ausência de infraestrutura, é responsável pelo sustento de 12,3 milhões de pessoas, ou quase 75% da população em atividade no interior do País.

Além disso, a agricultura familiar exerce um papel de destaque na economia nacional, produzindo 70% do feijão, 58% do leite, 30% dos bovinos e 87% da mandioca consumida na cesta básica dos brasileiros, segundo o mais recente Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em 2009, mas com dados de 2006.

Para se fortalecer neste cenário, o complexo industrial da cooperativa da Bahia - terceiro maior produtor nacional de mandioca, enquanto o Brasil é o segundo mundial, de acordo com o IBGE, concentrou a produção do vegetal de 2,4 mil associados de 18 municípios nos arredores de Vitória da Conquista em uma central de 12 milhões de reais.

A cerca de 30 minutos do centro do município de 306 mil habitantes e financiado pela Fundação Banco do Brasil e Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), entre outras instituições, o local vai agregar valor aos produtos, antes artesanais, com embalagens de farinha de mandioca próprias para o comércio, além da produção de fécula. O item, mais caro e sofisticado, pode ser usado em tintas, beneficiamento de papel e, entre outras utilidades, na indústria alimentícia, setor com o qual a organização trabalha.

O empreendimento no bairro de Corta Lote, uma das maiores regiões produtoras de farinha do Brasil, tem capacidade para processar 100 toneladas de mandioca por dia, gerando 25 toneladas de fécula, de acordo com o diretor presidente da cooperativa, Izaltiene Rodrigues Gomes.

Mesmo funcionando há pouco mais de dois meses, conta o agricultor, de 50 anos, os resultados já são superiores ao programado. “Deveríamos estar processando 20 toneladas de mandioca por dia e gerando cinco de fécula, mas estamos fazendo o triplo disso”, diz à CartaCapital.

Os valores movimentados recentemente pela cooperativa também indicam um progresso exponencial no poder de comercialização. Poucos dias antes de fechar o balanço de setembro, o faturamento bruto era de 196 mil reais, com estimativas de atingir 250 mil por mês. “Antes dessa estrutura, a cooperativa faturava cerca de 30 mil reais por mês.”

No entanto, o maior cliente da cooperativa ainda é o Estado, por meio de seus programas de incentivo à agricultura familiar com o apoio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Temos o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que obriga as prefeituras a comprar 30% da alimentação escolar de produtores como os nossos e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).” Desta forma, a COOPASUB já venceu licitações para fornecer farinha de mandioca a cinco prefeituras, entre elas a de Salvador.

Por outro lado, a fécula, que tem um preço variável entre 2,5 a 3 reais o quilo – contra cerca de 1,6 real da farinha de mandioca -, não fica restrita aos programas do governo. Antes, o produto consumido na região, lembra o diretor presidente, vinha do Paraná, Mato Grosso e São Paulo com alto preço de frete. “O transporte custava 210 reais por tonelada, mais o valor de 1.160 mil reais a tonelada. Aqui vendemos a 1.250 e ainda sai mais barato.”

Empregos

O empreendimento, localizado na região que mais produz mandioca dos 13 municípios envolvidos na cooperativa e próximo a uma rodovia para escoar os itens, gerou 34 empregos diretos para os moradores de seu entorno. Entre eles está a irmã da professora primária Tatiane Brito. No dia da inauguração, Brito, de 27 anos, posa para as máquinas fotográficas e celulares de amigas em um dos gramados em torno da fecularia. A fecularia, diga-se, é a maior obra da região e deve melhorar a situação dos pequenos produtores locais. “Ainda assim, minha irmã ganha um salário baixo. Poderia ser maior não é?”, questiona Brito.

Antes de construir o complexo, também dotado de um galpão de estoque, um estudo foi realizado para identificar os principais problemas enfrentados pelos pequenos produtores. Em 13 seminários por municípios da região, agricultores familiares responderam a questionários e indicaram o que era necessário para melhorar a produção, o beneficiamento, a acomodação e a organização do cultivo.

“Pediram a construção de uma unidade central de processamento de mandioca, a mecanização das áreas, assistência técnica e investimento estrutural nas casas de farinha, que não tinham condições higiênicas para produzir”, diz Gomes, o diretor presidente da cooperativa, enquanto seguimos em direção a uma casa de farinha no povoado de Dantilândia.

Cercada por plantações de mandioca e à beira de um morro, a bucólica casa é uma das 25 credenciadas pela COOPASUB, cada uma delas com capacidade de industrializar, em média, 30 sacos de farinha por dia. Contudo, somente na região de Vitória da Conquista e arredores há mais de mil estabelecimentos semelhantes.

No local, funcionam sistemas simples e baratos que aumentam a margem de lucro dos produtores e ajudam a preservar o meio ambiente. O diretor presidente da cooperativa se apressa para mostrar um exemplo. Caminha com cuidado pelo terreno árido e deserto da região e aponta para dois fornos embutidos nas paredes da lateral esquerda do estabelecimento. Um deles recebe lenha no nível do chão e o outro possui uma grelha a cerca de 40 centímetros do solo, sobre a qual a madeira é queimada. “No segundo forno, há uma economia de 50% no gasto de lenha, que, por sinal, é toda certificada, não vem de áreas de desmatamento.”

Na casa simples, dividida em um cômodo para armazenamento e outro onde fica um processador de mandioca, um forno para a queima do produto e uma espécie de peneirador mecânico, a farinha está literalmente no ar.

No quintal, outro sistema ecologicamente correto coleta a água residual da extração da fécula. O líquido desce por um cano, rumo a três caixas d´água em um buraco no chão. Nelas, os resíduos orgânicos decantam e, conforme a água vai sendo purificada, passa ao próximo recipiente. Na terceira fase, já pode ser eliminada sem causar danos à natureza.

O processo de economia e maximização dos lucros ainda inclui a produção, no complexo industrial da cooperativa, que tem parceria com universidades públicas da região e com a Embrapa, de ração animal moendo a casca da mandioca.

Além disso, os agricultores associados recebem manivas (mudas) melhoradas do vegetal, com a capacidade de produzir mais, gastando menos água e espaço, por exemplo. Há ainda a orientação do plantio correto, feito em curva de nível, sem queimadas e mantendo a distância certa de uma planta para a outra.

Renda

Um levantamento feito pela cooperativa mostrou que antes dos investimentos, os agricultores familiares da região recebiam menos de um salário mínimo, contra registros de até 1,5 mil reais por mês após o funcionamento do complexo.

Com uma maior capacidade de negociar, a cooperativa garante um mercado para a venda da produção de mandioca, antes a cargo do atravessador. “Antes a gente tinha que se desfazer das sobras”, diz o agricultor Eliseu Soares Moreira, de 40 anos, que saiu de Condeúba, a 40 quilômetros de Vitória da Conquista, apenas para conhecer a fecularia.

Após o início das atividades do complexo industrial, afirma Soares Moreira, houve um aumento de 50% nos rendimentos da renda com a mandioca. “É bom ter um comércio que ajude a gerar dinheiro, porque é difícil achar emprego nessa região, aqui o trabalho é na sua terra.”

Segundo Soares Moreira, o preço da tonelada do vegetal passou de 80 para 220 reais, uma diferença que pode ser investida nas despesas pessoais e de manutenção da terra. “A maior parte da renda vem da criação de gado, porque não dá para viver apenas da mandioca.”

Porém, os agricultores familiares locais acreditam na expansão do cultivo do item na região. Produtor de mandioca desde os dez anos de idade, Jacy Flores, agora aos 66 anos e vencedor do prêmio estadual de mandiocultura de 2011, é um dos mais eufóricos defensores do avanço do vegetal. “Antes não tinha com quem negociar, agora com a fecularia pode ser que falte mandioca.”

Enquanto mostra alguns detalhes do funcionamento da casa de farinha da Associação de Moradores e Pequenos Produtores de Mandioca de Dantilândia, ele afirma que o local produz 150 sacas de farinha por semana, o que poderia ser dobrado não fosse a falta de espaço.

Seguindo as previsões de Flores, os agricultores locais mostram-se animados em investir na mandioca, embora, dados da Embrapa mostrem que esse movimento não é exclusivo do semi-árido baiano. Em 2011, o cultivo do vegetal alcançou 19 mil quilômetros quadrados, área um pouco menor que o estado de Sergipe, 5,1% maior que no último ano. A safra deve atingir 27,1 milhões de toneladas, uma alta de 9,2%.

Cenir Xavier, de 62 anos, produz farinha apenas para o consumo em Poções, mas está aumentando sua plantação. “Os colegas já estão tendo um lucro maior, mas ainda sem uma noção de quanto mudou exatamente”, diz, apontando que eles recebem um adiantamento de 50% da cooperativa quando negociam o produto e recebem a outra metade ao entregá-lo.

No entanto, por não morar perto da central precisa pagar um frete de 1,5 real por quilômetro para transportar a produção no caminhão da cooperativa, o que o obriga a juntar o máximo de toneladas para enviar.

Segundo Gomes, os agricultores associados podem enviar ao complexo a mandioca in natura ou levá-la às casas de farinha para vender o subproduto depois.

Com um maior poder de comercialização e barganha, a cooperativa poderia sufocar a produção dos agricultores não associados, mas o diretor presidente diz o contrário. “Não há concorrência, na verdade, acredito que vai levar a um aumento dos preços deles", declara, citando um exemplo anterior. “Quando começamos a comercializar a banana, o preço subiu de 0,10 centavos para 1 real o quilo e caixa foi de 5 para 50 reais. Com isso, os outros produtores que vendiam mais barato começaram a aumentar os preços.”

* O repórter viajou a convite da Fundação Banco do Brasil.