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São Francisco: Queiroz Galvão, uvas e mangas

por Rui Daher publicado 06/06/2014 11h43, última modificação 08/06/2014 15h31
O estágio de desenvolvimento que a fruticultura do Vale do São Francisco atingiu é plenamente reconhecido. Por Rui Daher
Imprensa/ GEPR
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Na fazenda Timbaúba, em Petrolina, são cultivadas uvas e mangas

Dentre as várias atividades desenvolvidas pelo Grupo Queiroz Galvão, de Pernambuco, fundado na década de 1950, e mais conhecido por atuar na área de construção, estão os alimentos, principalmente a fruticultura irrigada destinada à exportação. Na fazenda Timbaúba, em Petrolina, são cultivadas uvas e mangas. Uma nova área está sendo destinada à produção de cocos.

Seus padrões de produção são, como se gosta de dizer no sul-maravilha, “de primeiro mundo” que, alerto, já ser lá. Conquistas de produtividade e qualidade abertas às mais complexas e pontuais inovações tecnológicas.

Visitei-os nesta semana. Assim como respirei o pó do semiárido nordestino, em fazendas menores, tocadas por produtores individuais, como as dos bem-humorados brasileiros José Hernandes, Marcelo e Almir, em um dos Núcleos Nilo Coelho.

Muita diferença? Apenas de cenário. Conhecimentos, uso de tecnologia, vontade de trabalhar e de ganhar dinheiro, são os mesmos.

Se na Timbaúba, você encontrará estrutura empresarial, com escritórios e laboratórios modernos, técnicos bem preparados, e ruas asfaltadas até chegar às lavouras, em roças outras, se desacostumado, poderá supor desleixo e lembrar-se do local do embate entre Corisco e Antônio das Mortes, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964).

Uma semelhança, no entanto, há com o filme de Glauber Rocha (1939-1981). Esses Coriscos também não se entregaram. Ainda que sem “parabelo na mão”, como cantou Sérgio Ricardo, eles pelearam e venceram usando os canais de irrigação.

O estágio de desenvolvimento que a fruticultura do Vale do São Francisco atingiu é plenamente reconhecido. Excelência constatada pelos inúmeros estrangeiros que vêm conhecer a produção da região e a agregação de benefícios econômicos e sociais que se irradiou pela região.

Lá, Ronaldo “Fenômeno de Tonteira” Nazário não teria do que se envergonhar.

A história começa com a CODEVASF, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, empresa pública ligada ao Ministério da Integração Nacional.

Pensada e criada como Comissão ainda na década de 1940, com objetivo de aproveitar os recursos hidrográficos da região, foi se transformando em atos sucessivos do governo até cobrir área de mais de um milhão de quilômetros quadrados, atravessando estados banhados pelo Velho Chico, e os rios Parnaíba, Mearim e Itapecuru, no Maranhão e Piauí.

Um traçado que por si só explica para onde avança a fronteira agrícola brasileira.

Houve forte componente social nesse projeto, que ainda pode ser verificado quando se compara os núcleos produtores de Petrolina, no Pernambuco, com o incipiente Projeto Salitre, na outra margem do rio, em Juazeiro, Bahia.

Propiciou-se produzir e ocupar a população no trabalho. Tanto que, na composição de seus custos, os insumos respondem por cerca de 40% e a mão de obra por 60%. Os fazendeiros se queixam, mas sabem que isso é bom.

O dono, patrão, gerente, a família, seja lá qual for a característica da propriedade, emprega em média três campesinos (mais uma vez, desculpem-me os ruralistas) para lidar em cada hectare de uva, durante o ano todo.

Muitas são as operações até o empacotamento. Desde os pinicados, raleios e repasses de raleios, quando os cachos ainda estão no estágio de pequenas inflorescências, até as aplicações semanais de insumos, condução em podas, colheitas seletivas.

Em média, tiram 50 toneladas de uvas por hectare, em duas safras anuais.

Nem tudo é maravilha, claro. O acesso aos financiamentos do crédito rural é mais burocratizado, mais difícil de obter em relação às culturas de grãos, por exemplo, mais bem vistas pelas instituições bancárias.

No momento, esse não é o maior problema, mas sim o preço de comercialização. Um desânimo que os faz importar muxoxos vindos da capital a estragar a festa do interior.

Sabem vocês quanto os produtores estão recebendo pelo quilo daquelas uvas deliciosas, sem manchas, sem sementes, que você paga R$ 15,00 nos supermercados que frequentam?

Dividam por dez e, agora, deliciem-se tentando descobrir com quem se importam as folhas, telas cotidianas e os olhares assombrados de William e Patrícia, no Jornal Nacional da TV Globo.

Não irei deixar livre a cara de quem, há poucos meses, anunciou a hecatombe da inflação dos alimentos.

O jornal Valor Econômico, de 05 e 06/06/14, respectivamente, informa: “Índice Ceagesp caiu 3,3% no mês de maio” e “Índice da FAO aponta queda de preços de alimentos no mundo”.

Pois é.