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Opinião

E se a agricultura tiver uma surpresa negativa?

por Rui Daher publicado 18/10/2016 05h05
Nos últimos anos, fatores externos têm sido positivos para o setor, mas é preciso pensar nas alternativas
ANPr
Soja

Produção de soja no Paraná: e se vierem notícias ruins?

De forma ufanista, qual narradores globais de jogos da seleção brasileira, analistas desfraldam e agitam bandeiras do já quase e logo celeiro de alimentos do planeta.

Será?

Visto assim do alto e no decorrer da última década tudo faz crer que sim. Indo um pouco atrás no tempo, colocando a lupa sobre os motivos dos ciclos de quebradeira, e em perspectiva nas transformações da economia mundial a partir da crise global de 2008, devemos pisar em ovos, até pelo fato de que suas cascas são ricas e baratas fontes de cálcio solúvel para as plantas.

Houvessem mais divulgação e consciência, menos preconceito e convenção, alguma condescendência em nome do geral e não de interesses pessoais por parte dos agricultores, eles pisariam não apenas em ovos, mas nas demais tecnologias nacionais acessíveis por menor custo, maior produtividade e baixos danos ambientais.

Segundo estatísticas do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, com dados levantados pelos IBGE e Conab, entre 2007 e 2015, o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira, considerados 20 itens, sendo os seis principais soja, bovinos, frangos, cana, milho e leite, cresceu quase 200 bilhões de reais, de 347 bilhões para 531 bilhões. Uma taxa anual de 4,8%. Para 2016, é prevista queda de 2,5% em relação ao ano anterior, por adversidades climáticas regionais.

É um desempenho significativo, sobretudo pelo fato de, contrariamente ao que se previa em 2014, logo depois de uma colheita excepcional nos EUA, o complexo soja continuou se valorizando e registrará neste ano aumento de 14% sobre 2014.

Não sou de agourar, até porque minha sobrevivência depende dos bons resultados da agropecuária brasileira, mas não há como negar certas tendências de médio e longo prazos, pouco abordadas no agro, que me remetem à sequência de recordes batidos pela indústria automobilística e pela construção civil, hoje em clássicos perrengues.

Converso muito com grandes produtores de soja, sobretudo por serem pessoas bem informadas. Dentro da agricultura, talvez, quem mais analise variedades de sementes, épocas certas de plantio, tecnologias inovadoras, mecanização avançada, além de se cercarem de especialistas com um olho em Chicago e outro no câmbio. Em geral, conseguem a certeza de uma safra.

E os anos à frente, o futuro? Até que nível e por quanto tempo aguentariam seguidos excessos de oferta ou quedas no consumo, e consequentes baixas nas cotações? Ou um câmbio represado?

“Chi lo sa”, respondem se descendentes de italianos; “wer weiβ”, se de alemães. Sabe-se lá, digo eu.

Mesmo quando obtêm altos índices de produtividade e não sofrem efeitos climáticos adversos, os fatores preços de comercialização e câmbio estão fora do controle dos produtores. São essenciais. Podem trazer surpresas positivas ou negativas. Felizmente, nos últimos anos, têm prevalecido as primeiras.

Pergunto a um grande amigo e produtor pioneiro:

- Se “o soja”, que nessas regiões costumamos masculinizar a oleaginosa, cair para os níveis que vigoraram entre 2004 e 2006, o que acontece com a produção brasileira?

- Vai tudo pro saco. E não me refiro ao de 60 quilos.

É o que tenho alertado quando peço que olhem para as rápidas mudanças entre as relações de negócios na atual etapa do capitalismo. É coisa para fora da econometria e dá um tranco na área das ciências sociais. Não leiam apenas os mesmos “caras”, analistas do mercado financeiro. Menos ainda os comentaristas da Globo News. Uns acreditam em planilhas, os segundos em política.

Não se sintam à vontade diante dos retrocessos na globalização, pois é assunto de vocês. Trarão protecionismo e barreiras comerciais pesadas. Não esperem insumos mais baratos diante da brutal concentração entre os principais fabricantes mundiais. Eles invejam a produtividade que vocês atingiram e se preocupam mais com os lucros deles do que com os seus. Se pensam, como no passado, encostarem suas dívidas ao longo da Grande Muralha do Tesouro Nacional, tirem o cavalo da chuva. Um 241 que mais parece 171 condenou-nos a 20 anos de recessão.

Agora, se as folhas e telas cotidianas do convencional disserem que o ânimo da economia está melhorando, acreditem. Afinal não foi assim que negamos a democracia?

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