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Análise

Recuperação ou estagnação da indústria brasileira?

por Mauro Borges Lemos — publicado 18/08/2013 15h23, última modificação 26/09/2013 11h42
Há indicações de que o crescimento anual do setor será significativo. Por Mauro Borges Lemos
Marcello Casal Jr/ABr

Desde a erupção da crise econômica mundial de 2008, a indústria brasileira vive uma situação de estagnação. O excepcional crescimento de 10,1% da indústria de transformação em 2010 reverteu a queda de 8,7% em 2009, mas à expansão de apenas 0,1% em 2011 seguiu-se uma retração de 2,5% em 2012. Será que o ano de 2013 está configurando uma tendência consistente de recuperação ou a indústria vai continuar estagnada?

Para além da percepção dos críticos, baseada, em grande medida, em avaliações subjetivas pouco embasadas empiricamente, analisamos o movimento dos dados de produção física da indústria de transformação para concluir se é possível caracterizá-lo como uma tendência. No mês em que a política industrial do governo federal − Plano Brasil Maior (PBM) − completa dois anos, este exercício é muito oportuno.

O governo Dilma vem empreendendo um esforço gigantesco visando a recuperação industrial: cerca de R$ 95 bilhões em desonerações ficais entre 2012 e 2013 (sem contabilizar a redução do IPI para consumo de bens), ampliação do Programa de Sustentação do Investimento (PSI/BNDES) a juros reais negativos e previsão de incentivos de mais de R$ 32 bilhões à inovação com o lançamento do Inova-Empresa (FINEP-BNDES). Isso num contexto em que a Selic atingiu seus níveis mais baixos desde o Plano Real, em torno de 2% reais. A despeito das críticas à política industrial pela focalização no “modelo falido” de incentivo ao consumo das famílias (a reiterada crítica à redução de IPI de automóveis e eletrodomésticos), seu foco efetivo foi a redução dos custos dos fatores de produção trabalho e capital visando a recuperação da competitividade.

Tendo como pano de fundo o conjunto de medidas pró-competitividade, utilizamos o método da média móvel trimestral sem ajuste sazonal, semelhante ao que Francisco Lopes usou para o PIB IBC-Br (Valor Econômico 17/07/13), que capta melhor a tendência da série: neutraliza as oscilações mensais e evita os erros estatísticos de qualquer metodologia de “ajuste sazonal”. O período base é o quarto trimestre do “ano dourado” de 2010. A partir daí foi construída uma série de crescimento da produção física da indústria de transformação, que tem também a vantagem de eliminar a contaminação das oscilações de preços relativos.

Em 12 meses (junho13/junho12), Lopes observou um crescimento anual do PIB de 3,9%. No nosso exercício, o crescimento da média móvel trimestral da indústria de transformação no mesmo período alcançou 4,96%. Para efeito de comparação, o crescimento da indústria no período imediatamente anterior (junho12/junho11) foi de -4,69%. Chegamos então a duas conclusões: a taxa corrente de crescimento da produção industrial está robusta; o crescimento da indústria de transformação, depois da estagnação de 30 meses iniciada em 2011, já ultrapassou a expansão do PIB (IBC-Br) em 27%.

O que há de peculiar em 2013? Em primeiro lugar, observou-se uma forte expansão da indústria de transformação a partir de março. Desde então, o crescimento acumulado foi de 11,83%. Em segundo lugar, essa tendência parece consistente, não apenas porque o incremento industrial da média móvel ocorreu em todos os quatro meses, mas também porque a indústria de bens de capital apresenta uma recuperação ainda mais intensa, com crescimento de 21,12% entre março e junho de 2013.

Será que essa tendência será mantida no segundo semestre? Quais seriam as novidades na conjuntura econômica que poderiam sustentar esse ritmo de recuperação?

A primeira novidade é a mudança no patamar do câmbio. Considerando o patamar médio de R$ 2,17 referente a junho de 2013, o custo do trabalho em dólar reduz-se em 7% em relação a dezembro de 2010 e 12,4% em relação a janeiro de 2013. No caso de setores tradables em direta concorrência com produtos importados, essa redução de custo é muito mais relevante do que as estimativas mais pessimistas de repasse da valorização do dólar para os preços dos insumos industriais. O gráfico a seguir ilustra essa nova dinâmica: a “boca do jacaré” entre custos salariais em dólares e a produção industrial se fechou. Isso significa que o decréscimo sistemático do valor dos salários em dólar está contribuindo para o crescimento da produção industrial.

A segunda novidade é a perspectiva de uma forte onda de investimentos em 2014, viabilizada pelo início do processo de concessões de infraestrutura de transporte e pelos leilões do setor de petróleo e gás. Para ilustrar esses movimentos, vejamos o desempenho do principal componente do investimento: o crescimento da média móvel trimestral da produção de bens de capital alcançou 15,27% no primeiro semestre de 2013, chegando a 17,85% nos últimos 12 meses. Assim, mesmo na hipótese absurda de estagnação da produção de bens de capital no patamar de junho, registraríamos um crescimento anual de 15,27% em 2013.

Ao lado desses elementos, é preciso considerar a maturação do conjunto de medidas de políticas industrial e inovação adotadas a partir de 2011. Tratam-se de poderosos instrumentos de estímulo à competitividade, que reforçam as expectativas positivas sobre o desempenho da indústria brasileira e funcionam como eixos de sustentação da retomada prevista para 2014.

*Mauro Borges Lemos, professor titular da UFMG e presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI)

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