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Análise / Paulo Yokota

Quem vigia os dados oficiais?

por Paulo Yokota — publicado 28/04/2014 04h26
Por mais que o IBGE se esforce para fornecer informações mais seguras, dificilmente a realidade está adequadamente estimada pelas metodologias utilizadas

Inspirado em um estudo recente sobre a contribuição das políticas regionais para o crescimento geral da China, resolvi analisar os dados estatísticos usados atualmente no Brasil. Naquele país asiático, no seu impressionante crescimento das últimas décadas, muitas áreas utilizadas pelos produtores rurais com pouca eficiência foram transformadas em áreas urbanas, sendo aproveitadas para as instalações de indústrias e serviços, ao lado de muitos empreendimentos imobiliários para acomodarem as novas populações.

Foram considerados investimentos das autoridades locais que aumentaram o capital nacional na contabilidade federal. Muitos analistas chineses dão pouca credibilidade a estas e outras estatísticas de um país que conta com muito mais de um bilhão de habitantes - lá as cifras são todas astronômicas.

Verificando o que aconteceu no Brasil no mesmo período constata-se que houve uma expansão da economia brasileira por novas regiões, transformando áreas de exploração extensivas em áreas de atividades econômicas intensivas. Onde eram cerrados que acomodavam uma pecuária de baixa eficiência ou florestas de atividades extrativas foram criadas novas regiões de agropecuária eficiente que vieram impulsionando a economia brasileira, ainda que com o desespero de muitos conservacionistas.

Há tempos, quando um pequeno avião saia de Brasília em direção a oeste ou norte, notavam-se algumas fazendas isoladas, onde hoje se observa um verdadeiro tapete de umas ao lado das outras, com explorações utilizando as melhores tecnologias rurais. Formaram-se redes de novas cidades, traçaram-se rodovias, sempre insuficientes para o escoamento da produção, que cresce de forma eficiente. O Brasil real ampliou-se chegando à Amazônia e ocupando parte substancial de um Centro-Oeste e Nordeste, antes considerados problemáticos, como o estado do Piauí, tido como o mais pobre da Federação.

Como estes dados estariam incorporados como poupanças e investimentos, incluídos nas contas nacionais como capital nacional? Pelo que se sabe da metodologia aplicada nestes ganhos de capital só são considerados e tributados levemente quando se efetuam as vendas destas novas propriedades rurais. Dificilmente as operações de vendas são realizadas pelos seus valores reais, pois predominam transferências efetuadas em cifras menores para evitar as pesadas tributações. Tudo leva a supor que as poupanças efetuadas, os investimentos que representam e a acumulação do capital nacional tendem a estar fortemente subestimados diante das metodologias inspiradas nas orientações das Nações Unidas. Na realidade, como se estima o aumento do rebanho nacional, o valor das áreas que se transformaram deveria ser considerado adequadamente, pois se tornaram capitais que permitem uma produção adicional com maior eficiência.

Por mais que o IBGE se esforce para fornecer informações mais seguras, dificilmente estas mudanças estariam adequadamente estimadas pelas metodologias utilizadas. Quando ainda jovem pesquisador, procurava conhecer as metodologias dos dados estatísticos elaborados pelos municípios, depois somados para os estados, para se chegar aos dados nacionais. Como a atividade estatística não contribuía muito para beneficiar as autoridades destas unidades, nem sempre estes serviços estavam adequadamente equipados e suas abrangentes informações eram precárias. Sempre se acreditava que eventuais erros nos grandes números eram compensados, quando a hipótese mais razoável é que tendiam a apresentar um viés, principalmente em função da existência da sonegação.

Os dados das contas nacionais dependem fortemente dos parâmetros estimados pelos Censos. Os demográficos são a cada década, e seus custos são enormes, para entidades que lutam com restrições em seus orçamentos. Os econômicos deveriam ser a cada cinco anos e existem os mais frequentes que são baseados em pesquisas parciais considerando os domicílios. Por mais que se esforcem os funcionários do IBGE, deve-se admitir que existam limitações, principalmente de pessoal qualificado em número desejado.

No exemplo dos poucos casos citados, os dados devem ser utilizados com as devidas reservas. Muitas informações precárias estão sendo vistas como de boa qualidade, ainda que não reflitam o que esteja acontecendo no Brasil. Mas parece que nem sempre devamos considerar que expressem as verdades absolutas que muitas vezes desejamos. É de se supor que estejam subestimados.

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