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Economia

Quem teme o crescimento

por Luis Nassif publicado 06/12/2011 10h18, última modificação 06/06/2015 18h57
O final do Plano Cruzado foi traumático. A partir daí, qualquer medida que visasse estimular o consumo era jogada na vala comum do “populismo”

Dia desses mantive uma discussão pelo Twitter com um competente jornalista político, dos poucos que dominam os números e as estatísticas sobre opinião pública.

Dizia ele que as medidas tomadas na semana passada – de estímulo ao consumo – visavam as eleições de 2012. Rebati sustentando que o objetivo de toda política econômica é o desenvolvimento com qualidade de vida. É algo que interessa a todos e, justamente por isso, tem reflexos nas eleições. Essa é a riqueza da democracia: governos que não conseguem produzir crescimento e bem estar são substituídos.

Mas qual a razão dessa resistência contra toda forma de estímulo ao crescimento?

Uma delas tem a ver com a sustentabilidade. Muitas vezes, na ânsia de produzir crescimento a qualquer custo, governos costumam tomar medidas inconsistentes, que acabam resultando em inflação. Na literatura política define-se como populismo medidas que visam trazer bem estar imediato à população, à custa do desarranjo da economia.

O final do Plano Cruzado foi um evento traumático, que marcou a vida do país nas décadas seguintes. A partir daí, qualquer medida que visasse estimular o consumo, qualquer gasto social, qualquer decisão beneficiando o conjunto da população era jogada na vala comum do “populismo”.

Mas nas últimas décadas, a paranoia contra o crescimento teve outras razões. A herança do Cruzado foi apenas o álibi.

Taxas de juros elevadas permitiram a maior transferência de renda da história.

A neura contra crescimento, no fundo, escondia a estratégia de manter os juros permanentemente elevados. Se a economia caía, caía a arrecadação e reduzia o superávit fiscal. A solução proposta: aumentar os juros. Se a economia se aquecia, sustentava-se que havia um PIB potencial a partir do qual não se poderia crescer sem gerar inflação. Solução: aumentar os juros.

Havia diversas maneiras de desaquecer a economia sem recorrer aos juros. Mas o enfoque da confraria da Selic – que ditou os slogans econômicos dos últimos anos – era exclusiva nos juros.

Esses analistas não são contra o crescimento. Se pudesse crescer e manter juros elevados, seriam a favor. São a favor de juros altos. O não-crescimento é apenas uma derivada desse objetivo inicial.

O fantasma da inflação pré-Real manteve manietados dois governos – FHC e Lula. O governo Dilma definiu como meta derrubar os juros, mas o faz lentissimamente, não aproveitando a enorme janela de oportunidade aberta pela crise mundial.

Outro subproduto, herança especialmente dos tempos inflacionários, foi a premissa de que só era virtuosa a medida econômica que penalizava o cidadão. Havia nessa visão um pouco da formação religiosa e muita malícia financista.

A história da “lição de casa” foi brandida sucessivamente por Pedro Malan, Antônio Palocci, Henrique Meirelles

Parte dessa crença se consolidou no Plano Cruzado, conforme foi dito. Mas a inflação produzida por Maílson da Nóbrega, em sua gestão, se deveu exclusivamente à escandalosa medida que permitia conversão de dívida externa em cruzados.

Na medida em que a inflação vai se tornando um fantasma superado, esse discurso se esvaziará e se constatará que crescimento com bem estar deve ser objetivo da política econômica em todos os anos.