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Qual é o plano de exportações do Brasil?

por Redação — publicado 05/06/2015 08h40, última modificação 05/06/2015 08h45
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Navio no porto de Paranaguá: País precisa de um projeto para conquistar mercados

Apesar de frequentar o grupo dos 20 países concentradores de 80% da produção industrial, o Brasil mantém uma participação pífia no comércio internacional. No início da década de 1980, o País tinha 1,2% do mercado, sua melhor marca histórica, com exportações de 25 bilhões de dólares, mesmo patamar da China naquele ano. Estamos no mesmo ponto relativo (vendas de 225 bilhões), enquanto os chineses abocanham 10% das transações internacionais e embolsam anualmente mais de 2 trilhões de dólares.

Como aumentar a inserção internacional do País? A saída, concordaram os debatedores reunidos no painel sobre o tema no 3º Fórum CartaCapital, está na adoção de um projeto de longo prazo, no fortalecimento da indústria e na criação de uma política de inovação tecnológica.

Segundo Ciro Gomes, ex-ministro da Integração Nacional e atual presidente da Ferrovia Transnordestina, projeto conduzido pela Companhia Siderúrgica Nacional, é preciso construir, antes de tudo, um projeto de desenvolvimento de longo prazo, calcado em câmbio e inovação. “No Ceará, qualquer bodega tem um projeto, mas o Brasil não. Assim estamos navegando da mão para a boca. O câmbio é uma variável que não se tem ideia para onde ele vai, nós o mantivemos parado em um patamar para acelerar o consumismo. Em outras vezes, o manipulamos para evitar alta de preços. Que política cambial é essa?”

O ex-ministro, que disse expressar suas ideias próprias e não aquelas da CSN, apostaria em uma política industrial centrada na inovação. “Isso é essencial. Em agricultura, somos líderes mundiais em diversos produtos, mas não temos clusters de fabricação de implementos agrícolas e temos de importar defensivos. Cerca de 40% dos custos da agricultura, a mais competitiva do mundo, são de bens importados.” Sem um projeto de desenvolvimento industrial e tecnológico, afirmou, o Brasil pode ser engolido por seus parceiros comerciais, à frente a China, que promete investir 50 bilhões de dólares no País.

A relação entre China e Brasil traz oportunidades, mas deve ser analisada com cuidado. Em 1993, a corrente de comércio entre as duas nações somou 2 bilhões de dólares. No ano passado, chegou a 83 bilhões. A nova potência econômica consolidou-se como nosso principal parceiro comercial, mas essa relação não mudou nossa pauta de exportação excessivamente baseada em produtos primários. Ao contrário, só aprofundou a nossa dependência de commodities. “Quando começamos a vender para os chineses há duas décadas, a China era sinônimo de diversificação da nossa pauta exportadora, hoje ela adquiriu outro peso. Não podemos criar uma grande dependência dela”, afirmou o embaixador Celso Amorim, ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores.

Os acordos assinados com a China, avalia Amorim, entre eles o que libera a venda de carnes para o país asiático, devem ser analisados com cuidado. “Ela está dando o mercado de carnes, mas o que ela está tirando?”

Gomes foi além. “A China tem uma indústria de alta complexidade, e nós temos a matéria-prima. Eles buscam ampliar suas cadeias e nós vamos participar vendendo matérias-primas?” O hoje executivo realçou que o Brasil precisa criar um projeto de desenvolvimento com base no consumidor do futuro, preocupado em adquirir um produto com base em três perguntas: quanto custa? Quem se aproveita dele? É sustentável?

Para afastar o risco de o Brasil desenvolver uma relação colonial com outros países, Amorim reforçou a necessidade de o governo investir em pesquisa e desenvolvimento. “É preciso saber como entraremos na cadeia de valor de um produto e da importância do que se produz para essa cadeia. É mais importante exportar minério para eletroeletrônicos ou desenvolver softwares? Isso entra na questão de educação e de ciência e tecnologia no governo.” Hoje, mais de 50% da balança brasileira corresponde à exportação de produtos primários, alimentos e minérios em especial.

Há uma ideia presente no Brasil de que a política de ciência e tecnologia no mundo é conduzida pelo setor privado, ressalta Amorim, mas o exemplo mais visível é o dos Estados Unidos, que atuam em sentido contrário. “As empresas americanas inovam, mas metade da pesquisa e desenvolvimento é financiada pelo Pentágono, pelo governo americano. Temos de estimular a inovação pelo Estado, temos grande potencial para avançar nesse quesito.”

Outro desafio é ampliar o universo de companhias atuantes no comércio exterior. Atualmente, apenas cem empresas respondem por dois terços das exportações. Do universo de 16 milhões de micro, pequenas, médias e grandes empresas, somente 20 mil vendem seus produtos para o exterior. “Temos de aproveitar as oportunidades”, destacou o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, David Barioni Neto. O Brasil é a sétima economia mundial, mas está na 28ª posição entre os exportadores. Há uma presença crescente do setor de serviços na pauta, com as franquias vendendo no exterior seu modelo de negócios. “A indústria, que já respondeu por 50% do PIB, perdeu participação.”