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Economia

Entrevista - Jorge Samek

"Futuras gerações vão cobrar por reservatórios"

por Paloma Rodrigues — publicado 03/04/2014 15h18, última modificação 04/04/2014 11h56
O presidente de Itaipu rebate críticas ao modelo energético e diz que o País não pode contar apenas com energia solar ou pequenas hidrelétricas como alternativas
Itaipu Binacional

Em Foz do Iguaçu*


Responsável por quase um quinto da energia consumida no Brasil, Itaipu Binacional completa 40 anos como um modelo de aproveitamento para o País. Em 2013, a usina superou sua própria previsão e produziu 98.630.035 megawatts-hora (MWh). O diretor brasileiro da empresa binacional, Jorge Samek, conversou com a CartaCapital sobre o desempenho da usina e comentou as críticas recebidas pelo governo Dilma Rousseff devido à crise no setor energético. "O governo optou por reduzir a tarifa. O que não se esperava era essa seca, que gerou o pior cenário possível: em vez de cair, os preços subiram. Isso foi lido no mercado como uma intervenção do Estado com o sentido de prejudicar as empresas de obter o lucro", analisa.

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

CartaCapital: Como o sr. acompanha as críticas ao governo Dilma em relação ao desempenho do setor elétrico?

Jorge Samek: Temos uma mulher na gestão que conhece o setor elétrico. Ela tem sido muito criticada, mas, veja, ela aprovou uma medida provisória que retirou o lucro em cima das depreciações. O que acontece em muitas usinas do País? Você precisa de 30% de capital próprio para começar a construir, o resto é financiamento. Quando você vai vender a sua energia, depois da usina construída, você deprecia esses empréstimos. Uma parcela grande das usinas brasileiras terminou de pagar seus empréstimos em 2009. O que fazer então? As opções seriam: reduzir a tarifa, manter o preço e utilizar os recursos para outros investimentos ou usar o meio termo. O governante de plantão é quem escolhe e ela escolheu reduzir a tarifa. O que não se esperava era essa seca, que gerou o pior cenário possível: em vez de cair, os preços subiram. Isso foi lido no mercado como uma intervenção do Estado com o sentido de prejudicar as empresas de obter o lucro. Mas, pelo amor de Deus, como eu vou cobrar por uma coisa que todo mundo já pagou? O que posso colocar nas novas tarifas é a modernização das usinas e isso é a Aneel quem tem de regular.

CC: O senhor avalia que a ação da presidenta Dilma foi positiva, então?

JS: Tinha que se tomar. E isso foi anunciado ainda quando Dilma era ministra: “olha, vai vencer a concessão, vai ter novo regramento, o preço da tarifa vai cair” e o pessoal pagou para ver. Nós já estamos adequando nosso quadro e, em 2023, quando os empréstimos forem depreciados, a empresa estará preparadíssima para sumir com quase 60% do seu orçamento.

CC: A maioria das hidrelétricas não conta mais com o sistema de reservatórios. Isso não torna o País muito dependente das chuvas? É esse o modelo adequado?

JS: Essa é uma discussão muito complexa. Não tem mais locais no Brasil para grandes reservatórios. É muita gente dando palpite, mas falando do que não conhece. A região norte do Brasil é a região da expansão, utilizamos pouco mais de um terço do seu potencial. Só que lá não tem rios de caixa como temos aqui, por exemplo. Fazer grandes reservatórios em área rasa, como foi feito em Balbina, não é o caminho mais adequado. Aqui, nós temos 120 metros de queda. A 400 quilômetros daqui, tem uma hidrelétrica da Argentina e do Paraguai que tem mais água que Itaipu, mas com apenas 28 metros de queda. Essa usina produziu 20% da produção de Itaipu no ano passado. Agora, onde tiver lugar que possa ser feito reservatório, não tenho nenhuma dúvida de que deve ser feito. Se não fizermos, as futuras gerações vão nos cobrar isso.

CC: Agora, existe a discussão socioambiental em torno da questão dos reservatórios.

JS: É isso. Nós já tivemos algumas usinas que estão diminuindo seu tamanho e sua potência, fruto da diminuição do seu reservatório. A própria usina de Belo Monte tinha um reservatório três vezes maior do que o aprovado na licença ambiental. Eu acho que falta ampliar essa discussão no Brasil, que está muito contaminada a procedimentos externos, que não conhecem a realidade do País. Vamos a alguns números: todas as usinas hidrelétricas junto com todas as empresas de saneamento representam 0,4% do território brasileiro. Quando nós pegamos os lagos naturais, esse número sobe para 1,1%. E o mais estarrecedor: Belo Monte está sendo construída em Altamira, no Pará, o maior município do Brasil e maior do que o estado do Paraná. Já se comprovou que as aldeias indígenas ficarão acima da construção, 100 quilômetros para cima. Na construção de Itaipu, os argumentos foram os mesmos.

CC: Na época, houve pressão similar?

JS: Veja, não é só isso. Na discussão da nossa Constituição, os engenheiros ficaram de fora. O Brasil fez Itaipu, fez Tucuruí e ficou 30 anos sem fazer uma grande obra. Só se voltou a pensar em novos investimentos quando São Pedro aprontou, como fez em 2001, e surgiu o medo do racionamento. E foi assim que se fez a Constituinte de 1988, já muito amadurecida pelos novos conceitos que surgiram na Europa de questões climáticas, mesma época em que surgiu o Partido Verde. Nesse procedimento, aumentou demais a régua. Em outras palavras: todos os países do primeiro mundo já tinham feito suas obras de infraestrutura no século passado. Claro que não podemos deixar de ter um ordenamento e uma orientação forte para fazer as obras de forma correta, mas levantaram a régua muito rapidamente. E nós, que temos uma divida social do tamanho de um bonde, com 13 milhões de pessoas que estavam sem luz em pleno século 21? O que vamos fazer? Energia solar? Tá bom, e o preço? Você não pode depender de energias intermitentes, elas têm que se somar a energia firme e energia firme ou é água, ou carvão ou gás ou urânio.

CC: Nesse sentido, é possível apontar avanços?

JS: Avançou muito. Nós fizemos um investimento muito grande na integração que vai partir das usinas no Rio Madeira. Em 10 anos, nós quase dobramos nossa capacidade de geração. E em 13 anos nós vamos ter que dobrar tudo o que nós temos hoje. Temos Angra 3, muita energia eólica – que vai dar um pulo de 1% para 8% em dez anos.

CC: Segundo a Associação Brasileira de Centrais Hidroelétricas, já foram apresentados mais de 600 projetos de usinas desse porte para a Aneel, mas não foram para frente. Por que isso aconteceu?

JS: Mais uma desinformação. O que ocorreu é que o preço, quando foi para o leilão, fez as PCHs ficarem caras. Com essa demanda por energia, um monte de PCHs entrará no próximo leilão.

CC: O senhor acha que a demanda vai impulsionar essas obras?

JS: Não tenha dúvidas. Elas não conseguiam baixar de 180 reais o megawatt, sendo que a eólica chegou a vender a 99 reais o megawatt. Não tem generosidade do povo brasileiro que faça isso acontecer. Eu tenho de fazer isso em doses que o consumidor possa suportar.

CC: Elas são o futuro da gestão energética para o Brasil?

JS: Sim, mas não só elas. Temos essa nova proposta das usinas-plataforma, que é um espetáculo. A primeira vai ser leiloada agora, que é dentro do complexo dos Tapajós. Você só vai fazer a usina e ficará operando remotamente, indo visitá-la para manutenção por meio de aviões.

CC: Mas essas usinas-plataforma não teriam um custo muito maior?

JS: Para fazer uma usina, eu vou precisar, por exemplo, de 5 mil operários. Nessa época eles vão morar lá, mas em moradias projetadas para durar cinco anos. Não é como em Itaipu, que foram feitas moradias boas que existem até hoje. Elas poderão ser produzidas em todo o norte do Brasil e aproveitarão potenciais hidráulicos de locais remotos.

CC: Haveria menos impactos?

JS: Não tem impacto nenhum, porque no entorno não vai ter cidade, não vai ter nada, pode virar um parque.

CC: O sr. comentou que hoje Itaipu seria impossível de ser construída. Como a empresa lidou com os impactos da construção?

JS: Eu nasci nessa cidade. A cidade tinha 5 mil habitantes. Quando a construção começou, passou para 30 e, em quatro anos, para 120 mil. Quando eu saía para a faculdade e voltava de férias, a cidade era outra. Os impactos foram diminuídos e houve investimentos na infraestrutura da cidade. Quem fez as maiores vilas, avenidas, pontes e obras da cidade foi a empresa Itaipu. E o segundo ponto se chama royalties. Mais de 60% da receita da prefeitura de Foz do Iguaçu vem de Itaipu. As cidades aqui brigam para ter hidrelétricas, porque trazem desenvolvimento para a cidade. O parque tecnológico, a universidade, toda a inteligência necessária para se construir uma hidrelétrica veio para cá.

CC: No ano passado, Itaipu registrou recorde de operação. Como isso foi possível?

JS: O primeiro é ter a economia aquecida. Tanto o Brasil quanto o Paraguai estão com a economia aquecida e necessitando de energia. Tivemos vários momentos em que tivemos energia sobrando, porque não tínhamos consumo. Segundo, você precisa ter água, e nós estamos localizados no melhor lugar do mundo para ter uma hidrelétrica, porque recebemos água de 45 usinas. E, terceiro, é preciso que as máquinas estejam permanentemente disponíveis quando o operador nacional do sistema solicita energia. Isso é modernização e manutenção. Nós atuamos em 20 unidades e operamos geralmente 18. No ano passado, tivemos um aproveitamento de 99% de toda a energia produzida, isso é fruto da manutenção constante.

 

*A repórter Paloma Rodrigues viajou a convite do seminário da Itaipu Binacional

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