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Petróleo em baixa deve afetar investimentos da Petrobras

por Deutsche Welle publicado 26/11/2014 10h40, última modificação 26/11/2014 10h41
Alto endividamento e Operação Lava Jato dificultam captação de recursos no exterior
Geraldo Falcão / Agência Petrobras

O barril do petróleo atingiu seu menor preço em quatro anos em meados de novembro e continua abaixo de 80 dólares. Com a commodity mais barata e a expectativa da manutenção do valor nos próximos meses, a Petrobras e outras petrolíferas aguardam com ansiedade a reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), marcada para esta quinta-feira 27, em Viena, na Áustria.

A longo prazo, o baixo valor no mercado internacional pode colocar em risco o plano de investimentos da Petrobras e demais petrolíferas, que realizaram planejamentos ambiciosos apostando num barril mais caro. Em seu Plano de Negócios e Gestão (PNG) 2014-2018, a estatal brasileira previa o barril a 105 dólares em 2014; 100 dólares até 2017; e 95 dólares em 2018. A meta era investir 220,6 bilhões de dólares no período.

Números atuais mostram um cenário diferente, e se a baixa no preço do barril se mantiver, o investimento no desenvolvimento dos campos do pré-sal deve se tornar uma incógnita, avalia Gilberto Braga, professor de finanças do Ibmec/RJ. Quando as descobertas do pré-sal foram anunciadas, os preços internacionais do barril estavam acima de 120 dólares, e valia a pena o investimento pesado nestes campos.

"Mas com o valor a 80 dólares/barril, em função da vazão de produção e dos pesados investimentos exigidos, há dúvidas se alguns poços se manterão economicamente viáveis para a empresa", diz Braga. "Não se tem muita transparência sobre os reais custos de exploração, mas é fato que alguns poços não serão mais rentáveis, e isso certamente afetará o plano de investimentos da estatal."

Numa perspectiva de curto prazo, o preço mais baixo do petróleo e derivados alivia as contas da Petrobras e a balança comercial do país, já que a empresa comprava o produto por um valor no exterior e o vendia mais barato no Brasil, explica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Segundo o especialista, no nível de preço atual, a defasagem do valor dos combustíveis está próxima de zero. Mas numa perspectiva de médio prazo, as consequências podem ser negativas para a empresa.

"Um preço menor do barril de petróleo vai significar mais um desafio para a Petrobras, uma vez que a empresa já tem um elevado comprometimento de despesas com o investimento para explorar as reservas adquiridas", opina Pires. "Este desafio se torna ainda mais grave se considerarmos o elevado endividamento da companhia, que já atingiu 241 bilhões de reais."

Por meio de nota, a Petrobras informou que o Plano de Negócios e Gestão (PNG) da empresa está em revisão e ainda não há previsão de divulgação. Segundo a estatal, para cada processo de planejamento é realizada uma atualização das premissas com as melhores informações disponíveis no momento.

"Na época da divulgação do PNG 2014-2018, as projeções da Petrobras se encontravam no viés mais conservador das previsões", diz a nota.

Mesmo com o petróleo em queda, a estatal aumentou os combustíveis nas refinarias desde 7 de novembro: a gasolina teve alta de 3%, e o diesel, de 5%. Apesar de estar na contramão do mercado internacional, de acordo com analistas, a medida foi correta para recompor as perdas acumuladas e reforçar o caixa da empresa, a fim de colocar em prática seus investimentos. Durante o ano eleitoral, os preços dos combustíveis ditados pela estatal se mantiveram congelados.

A decisão de aumentar os preços este mês não foi meramente econômica. Por conta da Operação Lava Jato, a empresa adiou, no dia 13 de novembro, a divulgação do balanço do terceiro trimestre e, como resultado, vai ter mais dificuldades para captar recursos no exterior e financiar os investimentos, opina o economista Maurício Canêdo Pinheiro, do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE)/Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"Todo aumento de receita é muito bem-vindo, já que o custo de captação de recursos ficou maior e, com esses escândalos, não é uma boa ideia captar recursos de terceiros e fazer dívidas. A estatal vai ter que contar com receita própria e com o BNDES", afirma Pinheiro.