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Petróleo continua estratégico e explica interesse sobre o pré-sal

por Rogério Lessa — publicado 10/09/2015 12h01, última modificação 10/09/2015 12h02
No Clube de Engenharia do RJ, Felipe Coutinho, da Associação de Engenheiros da Petrobras, discute o papel geopolítico da exploração petrolífera
Marcelo Camargo / Agência Brasil
Petroleiros

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A alta densidade energética do petróleo, que excede a de todas as outras fontes disponíveis, faz com que ele continue a ser uma mercadoria de enorme valor estratégico. E o pré-sal interessa, sim, ao capital monopolista, controlado pelas oligarquias financeiras, bem como as demais reservas distribuídas desigualmente pelo mundo. A conclusão é da palestra “Uma estratégia para o Brasil, um plano para a Petrobrás", proferida pelo presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet), Felipe Coutinho, no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, na terça-feira 8.

Coutinho mostrou o quanto é tênue a linha que separa o valor “real” do barril do petróleo dos interesses daqueles que, em detrimento da renda ou emprego dos trabalhadores e da estabilidade sócio-política dos países periféricos, precisam garantir acesso a recursos naturais estratégicos ao menor preço possível.

“Até aqui as alternativas aos combustíveis fósseis não passaram de modismos e o fraturamento hidráulico para a produção xisto tem evidentes obstáculos econômicos e ambientais, tanto que está proibido no estado de Nova York, nos Estados Unidos, além de vários países europeus”, disse Coutinho. De outra parte, diz ele, novos desenvolvimentos em “áreas de fronteira” são decepcionantes e muito aquém das esperanças levantadas de cinco a dez anos atrás.

Por seu turno, os custos de exploração e produção subiram significativamente neste século e, apesar de os investimentos terem dobrado entre 2000 e 2013, o resultado predominante foi apenas a manutenção da produção em compensação aos campos em declínio. “Esses custos tendem a continuar crescendo”, observou.

“A demanda por combustíveis não cresce nas economias mais maduras, no entanto o consumo de petróleo não cai, pois os países emergentes, principalmente aqueles que compõem o grupo dos BRICS (formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) compensam com seu aumento de consumo de combustíveis fósseis”, ponderou, lembrando que a China tem no carvão a principal matriz energética.

“O petróleo é mercadoria especial, insubstituível, como na produção de alimentos (fertilizantes, mecanização, defensivos agrícolas e transporte). Então, o preço dos alimentos e da energia, entre outros, e a estabilidade política têm relação direta com o valor do petróleo”, prosseguiu o presidente da Aepet. Coutinho observou que os países que já passaram pelo pico da produção de petróleo venham enfrentando problemas políticos, como é o caso do Egito, da Síria, do México, da Indonésia e do Iêmen.  

Neste jogo geopolítico, vale notar que após a quebra do padrão ouro, no início da década de 1970, quando os Estados Unidos, unilateralmente, se desobrigaram a manter reservas em ouro para dar lastro à sua moeda, os chamados “petrodólares” se tornaram fundamentais para que o dólar mantivesse sua hegemonia, garantida por meio de guerras, assassinatos de lideranças políticas e manutenção de monarquias “dóceis” aos norte-americanos nos principais países produtores do Oriente Médio, parte da Opep. “A indexação dólar-petróleo interessa aos Estados Unidos e a manutenção do status do dólar está em contradição com o desenvolvimento dos países emergentes produtores”.

Assim, a Rússia se constitui uma ameaça, por ser a grande produtora de energia. “Se na década de 1980 a corrida armamentista (Guerra nas Estrelas) e a derrubada dos preços do petróleo foram fundamentais para a derrocada da União Soviética, hoje o alvo primordial é a Rússia e outros produtores importantes, como Irã e Venezuela. A repetição da articulação entre EUA e Arábia Saudita, além da recessão econômica, contribuem para a redução dos preços”.

Hoje, no entanto, Coutinho destaca que o capital monopolista está cada vez mais concentrado no setor financeiro e a especulação com papéis e ganância por dividendos se sobressaem à ideia de crescimento da produção. As fusões e aquisições seriam, para o presidente da Aepet, uma evidência desse movimento concentrador, em detrimento dos países exportadores.

Neste contexto, o cerco ao valor excedente produzido pela Petrobras se tornou invisível apenas para aqueles que dele querem se apropriar. Para o presidente da Aepet, o Brasil precisa conquistar autonomia para usar suas grandes reservas para o desenvolvimento socioeconômico, cadenciando a produção em função deste objetivo, e não produzir aceleradamente, contribuindo para a depreciação dos preços, como demanda o imperialismo. 

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