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Economia

Paulo Daniel: Por que as taxas de juros são altas no Brasil?

por Paulo Daniel — publicado 20/08/2010 09h01, última modificação 11/11/2010 12h30
Tornou-se uma obsessão calcular o quanto a economia pode crescer sem que isso cause inflação

A partir dos anos 70, a economia brasileira sofreu uma série de crises macroeconômicas que restringiram as análises econômicas ao curto prazo, inviabilizando a reflexão sobre crescimento e desenvolvimento.

Após o fracasso de vários planos de combate à inflação, o Plano Real lançou as bases para um processo gradual de estabilização dos preços. No início de 1999, foi estabelecido o sistema de metas inflacionárias. A partir de então, a discussão sobre um PIB ideal tem monopolizado o debate sobre o crescimento da economia.

Tornou-se uma obsessão calcular o quanto a economia pode crescer sem que isso cause inflação.

As taxas de crescimento do PIB brasileiro, apesar de crescentes, ainda são insuficientes: estão muito distantes da expansão registrada por países como a China e a Índia. As taxas de crescimento poderiam ser maiores se o nível de demanda agregada fosse mais alto.

Isso não ocorre porque a condução da macroeconomia não favorece a aceleração do crescimento econômico: as políticas monetária, fiscal e cambial não estão sendo utilizadas de forma a potencializar o aumento da demanda agregada da economia.

A política monetária ao manter um nível elevado da taxa de juros afeta negativamente o potencial de crescimento da economia brasileira de duas formas principais.

Por um lado, o pagamento dos juros sobre a dívida pública líquida acaba pressionando as contas públicas; por outro, em um contexto de inexistência de controle de capitais, a manutenção das taxas de juros elevadas leva a uma apreciação cambial que é nociva à competitividade dos produtos brasileiros.

Desde 1999, o Banco Central brasileiro tem justificado formalmente que a manutenção de taxas de juros elevadas tem sido o controle da demanda e, por conseqüência, o combate à inflação. Supostamente, adota-se um sistema de metas inflacionárias no qual a taxa de juros é determinada com o objetivo de controlar a demanda agregada e, via contenção dessa, combater a inflação.

Entretanto, o conceito de inflação de demanda em termos keynesianos é estrito: essa só se verifica no caso de a economia estar funcionando a plena capacidade, ou seja, quando de fato o ajuste da oferta ao aumento da demanda só pode se dar via aumento de preços e não de quantidades. Essas condições não se verificam no caso brasileiro: a inflação no Brasil não é explicada por pressões de demanda.

A inflação no Brasil está associada a pressão de custos e não de demanda. Sendo assim, na prática as taxas de juros são mantidas em elevados patamares para conter os custos e, dessa forma, controlar a inflação. Entretanto, a ação dos juros sobre os custos não é direta. O canal de transmissão é a taxa de câmbio: a taxa de juros é utilizada para influenciar diretamente a evolução da taxa de câmbio nominal.

As alterações da taxa de câmbio, por sua vez, têm um impacto forte direto e indireto sobre todos os preços da economia. Isso leva a redução dos custos e, conseqüentemente, a uma contenção da inflação. Na ausência de controles de capitais, o alto diferencial entre as taxas de juros internas e externas atrai um montante elevado de recursos em moeda forte que causam a apreciação do real em relação ao dólar. Dessa forma, a taxa de câmbio é o principal canal de transmissão da política monetária para a inflação. Portanto, os juros são mantidos elevados justamente para apreciar a taxa de câmbio, ou seja, a verdadeira “âncora” da inflação é o câmbio via os seus efeitos sobre os custos da economia.

Neste sentido, além de outros gargalos econômicos que o próximo governo enfrentará talvez o mais importante, seja pelo menos, discutir o tripé política cambial, política fiscal e política monetária.

Dessa maneira, a continuar com o câmbio valorizado, a tendência é que a economia brasileira inicie um processo de desindustrialização, redução do investimento privado e queda na geração de empregos, com o objetivo maior de manter a inflação no centro da meta.

Continuará valendo a pena tamanho esforço?