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Ousadia, a única saída

por Sergio Lirio publicado 15/08/2013 13h00
Para João Sicsú, ex-diretor do Ipea, é possível o Brasil alcançar o patamar de nação desenvolvida na próxima década. Mas é preciso mudar a concepção do Estado
Reprodução
capa sicsú

Livro foi lançado neste mês pela Geração Editorial

Acabar de chegar às livrarias Dez anos que abalaram o Brasil (Geração Editorial, 132 páginas, 24,90 reais), novo livro de João Sicsú, professor da UFRJ, ex-diretor do Ipea e colunista do site de CartaCapital. Recheada de gráficos e indicadores, a obra serve para recolocar na perspectiva histórica os avanços da economia nacional na última década. Sicsú não tortura os números para provar uma tese, como costuma fazer a pletora de seus colegas empenhados em negar as mudanças vividas pelo País. Eles os expõe de forma clara, o que basta para derrubar certa lenga-lenga reinante nos meios de comunicação. Na entrevista a seguir, Sicsú fala também do futuro: da nova pauta dos trabalhadores e das respostas possíveis do poder público. "Temos dez anos para alcançar o desenvolvimento. Mas é preciso reformatar a organização do Estado".

CartaCapital - O senhor afirma que as esquerdas tem tido sucesso nas urnas, mas foram derrotadas no debate das ideias. Por que isso acontece? Qual a saída?

João Sicsú - Uma saída é a concorrência. As esquerdas e os setores progressistas têm de inventar e organizar meios de comunicação de grande porte. Meios capazes de concorrer com a grande mídia conservadora e manipuladora de informação. Não basta ocupar a internet e as redes sociais. É preciso também disputar com os veículos tradicionais que têm muita penetração e capilaridade, principalmente a tevê e o rádio. E muito importante ainda: o governo federal não pode colocar verbas de publicidade em veículos que se movem contra os interesses nacionais e sociais do povo brasileiro. Os canais da TV Globo receberam do governo no ano passado mais de meio bilhão de reais. Eu não quero o dinheiro do meu imposto na Globo.

CC - O senhor concorda com a tese de que o ciclo do lulismo, baseado na inclusão social e expansão do crédito, está esgotado?

JS - Não é exatamente isso. O ciclo do lulismo não deve ser abandonado, mas deve ser atualizado. O Bolsa-família, por exemplo, deve ser ampliado. É preciso apertar a tecla F5 no projeto aplicado durante o governo Lula. O país deve continuar crescendo, gerando empregos e ofertando crédito. Isso é o básico e deve ser mantido. O governo Dilma está mais “lento” porque tentou fazer mais do mesmo. Só isso. Descrevo no livro, concluído antes das manifestações de junho, que os trabalhadores têm uma nova pauta: saneamento, educação, transportes, segurança pública, coleta de lixo, iluminação etc. É preciso perceber que um novo projeto deve buscar transformar o trabalhador consumidor em indivíduo cidadão.

CC - Em seu livro, o senhor nega o termo nova classe média. Por quê?

JS - No período de 2003 a 2012, não apareceu uma nova classe média.  Houve uma ampliação da classe trabalhadora. Pertence à classe média aquele que não é o dono da fábrica nem trabalha na produção. Pertence à classe média o administrador, a psicóloga, o professor, o médico... O que foi ampliado no Brasil foi uma massa de trabalhadores rudes. Quase 90% dos trabalhadores brasileiros ganham até três salários. São pedreiros, manicures, motoboys, porteiros. Isto não é classe média. Aliás, esses trabalhadores são o resultado do principal avanço do governo Lula, a redução do desemprego de mais de 12% para menos de 6%. Houve outros vários avanços, mas esse foi o principal.

CC - A que se deve o pessimismo atual no Brasil?

JS - Uma parte do pessimismo faz parte do jogo político-eleitoral. Os veículos de comunicação das famílias jogam na oposição. São usinas de notícias negativas. Por exemplo, seus colunistas se contorcem para transformar a notícia da redução de inflação em notícia negativa. Eles têm muita influência nas altas classes médias e entre os ricos. Outra parte do pessimismo vem da dificuldade dos governos que não conseguem atender a pauta das famílias de trabalhadores que precisam de transporte eficiente, saúde gratuita de qualidade, ruas asfaltadas. É possível reverter este quadro, mas não será fácil

CC - O senhor vê riscos do retorno ao poder de um projeto neoliberal, nos moldes dos anos 1990?

JS - Nos moldes dos anos 1990 exatamente? Não. Acho que o projeto na esfera econômica seria igual. Mas penso que viria, se for o caso, de uma forma política muito mais sofisticada porque estaria totalmente associado com os grandes veículos de comunicação das famílias. Seria um projeto que buscaria o convencimento, a interdição do debate e a anulação política da oposição. Contudo, penso que os partidos de oposição e seus candidatos são fracos demais, suas chances eleitorais, ainda que turbinadas pela mídia oposicionista, não empolgam nem seus apoiadores.

CC - Por que não conseguimos atingir de forma mais constante os níveis de crescimento do PIB de outros países emergentes?

JS - Primeiro, estamos num ciclo internacional de crescimento mais lento. Isto influencia a economia brasileira e explica parte do nosso modesto desempenho. A outra parte do nosso desempenho é explicada pelos erros da nossa política econômica. No início de 2011, a economia brasileira estava crescendo num ritmo elevado. Era preciso desacelerar para um nível em torno de 4,5% a 5%. Mas o governo elevou juros e reduziu gastos de forma grosseira. O resultado foi que entramos num patamar medíocre de crescimento. Não há economia que cresça de forma significativa sofrendo pressões externas e internas.

CC - Como o Brasil poderá se tornar um país desenvolvido antes de se tornar uma nação envelhecida?

JS - Temos dez anos para alcançar o desenvolvimento. É possível. As bases foram lançadas no período 2003-2012. A inflação está controlada, o desemprego é baixo e o nosso mercado doméstico de consumo dobrou de tamanho. Isso tudo é básico. Agora, temos até 2022 para transformar as cidades, principalmente as grandes regiões metropolitanas, em espaços  agradáveis para todos. É necessário reformatar a organização do Estado para podermos atender isto a que chamo de nova pauta da classe trabalhadora. Não penso em um Estado tecnocrático, mas sim em reorganizar o Estado de acordo com as necessidades específicas e não por áreas, tal como educação, saúde, segurança, mas sim em secretarias ou ministérios da escola de tempo integral, da habitação popular, do metrô de superfície – mas isto é uma grande discussão. Uma certeza: será necessária muita ousadia. Nada de mais do mesmo.

CC - Como transformar a inclusão pelo consumo em cidadania?

JS - Primeiro de tudo, temos de manter o baixo desemprego e o viés de alta dos rendimentos dos trabalhadores. Além disso, temos de ser ousados. É preciso ter coragem para estabelecer o passe livre no transporte público. É preciso ter coragem e retirar os estímulos ao uso do automóvel. É preciso ocupar as ruas com metrô de superfície ou VLTs. É preciso impedir que o dinheiro público da saúde seja sugado pelo sistema privado e multinacionais que atuam na área. É preciso multiplicar por dez o salário dos professores do ensino médio e fundamental das escolas públicas. É preciso tomar medidas para que a informação e a opinião sejam amplas, diversificadas... será preciso dar espaços de mídia a todos e para tudo. A mesmice burocratiza o desenvolvimento, transformando-o em uma discussão orçamentária. O desenvolvimento será fruto de ousadia e de coragem política e não de planilhas orçamentárias equilibradas.

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