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Economia

Opinião

Os efeitos do capital especulativo sobre o agronegócio

por Rui Daher publicado 19/11/2015 18h55, última modificação 22/11/2015 08h26
A mudança de eixo dentro do capitalismo resultará em crescentes estagnações industriais e mercantis em nome do lucro especulativo
Carlos Alberto/ Imprensa MG
Agricultor

Qualquer possibilidade de mudança terá de vir de baixo para cima, com iniciativas criativas contra a especulação

Na última coluna, deixei singela pergunta: “Como um país vai do queridinho do planeta e uma estrutura podre?" 

Sim, porque, entre 2003 e 2013, o PIB nominal, em moeda corrente (aqui não preciso repetir William e Renata, “a soma de todos ...”), triplicou para 5,2 trilhões de reais, o que, se minha cabeça-de-planilha (grato Nassif) não estiver errada, significou crescimento real da economia a uma taxa de 4,1%.

Período em que saímos do 15º para o 7º lugar no ranking das economias mundiais, apesar de, entre 2008 e 2009, o planeta ter passado pela pior crise econômica desde a década de 1930.

Atingimos, ainda, o maior índice de empregos formais da história “deste País”, aumento da renda do trabalho, e foram criados programas sociais capazes de tirar da extrema pobreza mais de 30 milhões de sobreviventes da secular desigualdade.

Como não bastasse, as sandálias Havaianas, a cachaça, Gisele Bündchen e Neymar Júnior, chegaram perto de patrimônios da humanidade.

Tudo enquanto as nações hegemônicas passavam por dificuldades tenebrosas, e torciam para que certos “caras” continuassem fazendo um bom trabalho aqui, ali na China, e acolá, em Índia, Rússia e África do Sul.

Tombaram Irlanda, Finlândia, Espanha, Itália, Portugal, Grécia. Arrefeceram EUA, França, Reino Unido, Japão.

A economia nos obrigava (ainda obriga) a fazer crescer a agropecuária para que, em 2050, o Papa Francisco e o Zé Graziano, da FAO – que Deus os tenha – não se revirarem em seus túmulos.

Ouço dizerem que, em causa dos dois últimos anos, só voltaremos a estar bem em 2031 ... alguma planilha, sem dúvida. Não especificam o parâmetro? Voltar a 2011, quando fomos a 6ª economia mundial, ou a 2002 quando em 13º? Da crise do encilhamento, em 1824, aquele baita desfalque no erário, não poderão estar falando, certo?

Não sei se perceberam, mas não mudei de ideia. Voltei, sim, ao assunto da coluna anterior.

Quando contrapus às excelências do capitalismo em suas fases mercantil e industrial, como preconizadas por Delfim Netto, pois impeditivas dos “abusos” originais na natureza do homem, foi porque o professor sabe muito mais do que eu e frequentemente critica os brutais malefícios da atual etapa rentista.

Da mesma forma, estudiosos do mesmo calibre do professor, expõem essa tendência e alertem para suas consequências.

Agora mesmo, no Brasil, aguento convívios torturantes. Crise e pessimismo fundamentando argumentações feudais. Saliva-se austeridade e cospe-se desemprego e redução de salários. Qualquer atividade produtiva é desconsiderada pelo “custo do dinheiro”, na verdade “preço do dinheiro”, pois vendido por quem tem e comprado por quem produz e trabalha.

O programa Bolsa Família serve a acomodar vagabundos. Cotas universitárias destroem o mérito daqueles que, geração após geração, puderam, embora plenos de recursos, se instalarem nas melhores universidades públicas. Corruptos são eles, nós nunca o fomos, ou se uma “coisinha aqui outra ali fazíamos”, não se compara com o de hoje. Aliás, finalmente, conhecidos por inédita investigação.

O governo aparelhou o Estado com uma massa de funcionários públicos protegidos por leis trabalhistas ultrapassadas e draconianas contra as empresas. Lembra-me os barnabés das comédias da Atlântida.

O País desce a ladeira, mas sentadinho em frente ao notebook, jogando aqui e ali, sabendo escolher a sorte, ganha-se na Bolsa em três dias o que renderiam investimentos em produção, comércio ou serviços não financeiros.

Como dizia Ivan Lessa, “a cada 15 anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos”. Basta lembrar que, no governo FHC, a dívida pública foi de 15% para 50% do PIB. Juros altos para “combater” a inflação servem a isso.    

Caso é o seguinte: como disse o filósofo Paulo Arantes, a continuar assim, o capitalismo morrerá de overdose.

É cada vez menor o poder dos Estados diante do capital financeiro. A concentração do poder econômico não mais se dá pela concentração produtiva, mas pela formação de oligopólios que comandam, pelas finanças, quase toda a atividade produtiva. Pouco lhes importam capacidades ociosas, se sustentadas nas aplicações financeiras, o que inibe investimentos na economia real e restringe a concorrência.

Não esperem de quem se beneficia desse ciclo transformação para capitalismo menos selvagem. Compram-se e vendem-se, uns aos outros, em fúria hostil. Exploram novas regiões para transformar pobreza em pobreza.

Qualquer possibilidade de mudança terá de vir de baixo para cima. Não mais como “revoluções proletárias”, que os arsenais e as intenções contrárias são os piores possíveis, mas como iniciativas criativas, inovadoras, capazes de criar poder de barganha contra a Força.

Elas existem no Brasil? Aos milhares. Acompanhem-nas. Em nosso curral, alguém assistiu ao Globo Rural, do último domingo, e soube como é possível criar assentamentos bem organizados e proporcionar vida digna a colonos, sertanejos e campesinos?

Conhecem os insumos naturais, orgânicos e biológicos, fabricados por empresas de portes pequeno e médio, ganhando credibilidade e crescendo em taxa cinco vezes maior do que os agroquímicos?  

Sabem de empresas inovadoras, voltadas ao microcrédito, que usando os meios mais modernos de tecnologia da informação, a partir de know-how de outros países (Índia, Israel, etc.) fazem movimentar pequenos comércio e indústria.

Se não partirmos daí, seremos eternamente subalternos ao fator crise e à solução redução de salários para contrabalançar a queda dos lucros. Cai a demanda agregada? Cai, mas, e daí se o impulso do capital financeiro permite lucro especulativo?

A mudança de eixo dentro do capitalismo resultará em crescentes estagnações industriais e mercantis. Não, professor Delfim Netto, ressuscitado, Marx não ficaria assim tão feliz.

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