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Os desafios do setor sucroenergético

por Rui Daher publicado 15/11/2013 13h32
O fato de a Petrobrás administrar o preço da gasolina fez a relação pender para o combustível fóssil e cair a produção nacional de etanol
Datinho1 / Flickr / Creative Commons
Cana

O fato de a Petrobrás administrar o preço da gasolina fez a relação pender para o combustível fóssil e cair a produção nacional de etanol

Tá enrolado. E quando assim é, evita-se tocar no assunto. Estivesse numa semana de mais preguiça, falaria de soja, mesmo milho, previsões que são uma baba, e não opinaria sobre o setor sucroenergético.

Quando sai dos canaviais, passa pelos açúcares, e chega aos vários alcoóis – um deles muito saboroso – generaliza-se como etanol. E por onde passa tem encontrado perrengues. Encontrões que lembram lutas de sumô, tal o peso dos contendores.

Clima adverso, mudanças operacionais da mecanização, leis ambientais, milho norte-americano, a Índia e, como sempre, desencontros com o governo.

O fato não é inédito. Voltar ao passado poderá entediá-los, mas, vá lá, só um pouquinho.

Embora o uso do álcool, como aditivo à gasolina, date de 1931, somente tomou dimensão, a partir de 1975, no governo Geisel, com o Programa Nacional do Álcool (PROALCOOL), idealizado por cabeças privilegiadas que nos viam ferrados sem enfrentar a escassez de petróleo e seus preços.

Na baita crise, o plano nos ajudou e teve um viço de dez anos. A produção de álcool saiu de 600 milhões de litros, no biênio 1975/76, para 12,3 bilhões, em 1986/87. 35% ao ano, sô! As montadoras produziram milhões de uns carrinhos que de manhã custavam a pegar.

Commodity terrível, a partir daí, a cotação do barril de petróleo começou a cair e chegou a 30 dólares, em 1996. O governo começou a coçar a cabeça e, três anos depois, parou de subsidiar o etanol. Fernando Henrique Cardoso, presidente, havia se convencido de um mundo neoliberal que fazia tudo sozinho. Inclusive, nos quebrar.

As montadoras voltaram a produzir veículos movidos à gasolina, e a engenhosa construção começou a ruir.

Vigorando, manteve-se apenas a inclusão da mistura do álcool anidro à gasolina.

A partir de 2003, as montadoras começaram a produzir veículos flex, que serviam a dois reis combustíveis.

Chamado, um professor de aritmética ensinou continha básica: dê preferência ao etanol sempre que ele custar no posto até 70% do preço da gasolina.

Reis ficaram os consumidores, a maioria com flex nas rodas. Com isso a demanda por etanol, em 2008, equiparou-se à de gasolina, e sua produção saltou de 12,6 BB de litros, em 2002, para 28,2 em 2010.

Mudou a matriz energética brasileira. Bagaço de cana em bioeletricidade. Nível de rendimento de seis a oito vezes melhor que o milho de Ohio.

No período, muito se investiu na produção primária: “o estado de São Paulo transformou-se num imenso canavial” (...) “o Brasil volta ao tempo de colônia, um país monocultor de cana”, apavoravam-nos as folhas e telas cotidianas, aquelas que gostam, não gostam, ou não sabem, mas falam.

Bem, o estado de São Paulo, segundo levantamento do IBGE, continua a produzir com expressão mais de 30 culturas agrícolas, nem nasceu Gilberto Freyre algum que escrevesse obra-prima como ‘Casa Grande e Senzala’.

Muitas usinas foram construídas. As projeções justificavam 300 novas para atender a demanda. Gigantes do setor se internacionalizaram. Competitivos, lutamos pela queda na sobretaxa norte-americana que, limitados pela produção de milho, veio em 2011.

Tudo e todos na maior animação.

De repente, não mais do que de repente, à breca. Um nome surgiu na tela dos suculentos representantes do setor sucroenergético: Petrobras.

O fato de a estatal administrar o preço da gasolina fez a relação pender para o combustível fóssil e cair a produção nacional de etanol.

Esse, pelo menos, o motivo dado por dez entre dez executivos do setor, ajudados pelo fato de o Brasil, hoje, importar etanol.

Penso que a política energética de uma nação precisa do dedo do governo. Não, porém, para estragar.

Penso que as empresas do setor erraram a mão algumas vezes, como logo após a crise de 2008, quando os preços do açúcar se tornaram muito mais compensadores.

Também, quando interromperam investimentos, preferindo a concentração industrial e a compra de terras, um óbvio em franca evolução nas últimas décadas.

Mas, verificar que enquanto, em dez anos, o preço do barril do petróleo evoluiu mais de quatro vezes, e o preço da gasolina nos postos subiu apenas 32%, é querer muito perfilho da energética gramínea, não?

Otimista, informo que logo tudo vai melhorar. Aliás, pra já. Todos estão se mexendo.

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