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O que o lucro trimestral de bancos americanos não conta

por Brasil Econômico — publicado 21/10/2011 13h09, última modificação 06/06/2015 18h15
As seis maiores instituições americanas somaram resultado 353% maior no trimestre, mas o contexto por trás das cifras é a justificativa do desânimo dos investidores.

*Por Maria Luíza Filgueira, do Brasil Econômico

Os seis principais bancos americanos lucraram no terceiro trimestre do ano US$ 20,15 bilhões, 353% a mais que no mesmo período do ano passado.

O ranking em ativos totais fez o JP Morgan Chase ultrapassar, por alguns bilhões, o Bank of America (BofA) como o maior banco dos Estados Unidos.

Quem encolheu foi o Morgan Stanley, que fechou o trimestre com US$ 795 bilhões em ativos - no mesmo período do ano anterior, detinha US$ 841 bilhões. Ainda assim, é muito maior que qualquer banco brasileiro (o líder Banco do Brasil tem ativos da ordem de US$ 520 bilhões).

A exceção em rentabilidade positiva coube ao Goldman Sachs, que fechou o trimestre em prejuízo.

Os seis bancos somam US$ 9,48 trilhões. Ainda que os resultados tenham se refletido em alguns picos de alta das ações das instituições na Bolsa de Nova York, muitas são negociadas abaixo do valor patrimonial e a perspectiva de economistas e analistas para o desempenho futuro não é se consolida como otimista.

Três frentes principais explicam isso: o lucro aumentou, mas a receita não; ainda há incerteza regulatória; e crise de dívida europeia continua.

"A maioria dos resultados positivos vem de reversão de provisões maiores que os bancos fizeram em várias linhas de crédito. Não foi um período bom em termos de receita, por isso a reação não foi tão entusiasmada", diz Tony Volpon, economista da Nomura Securities, em Nova York.

Ainda no quesito de resultados, ele destaca que a Operação Twist promovida pelo Fed, banco central americano - em que compra títulos de longo prazo e venda de curto prazo - também pressiona.

"A Operação Twist fatiou a curva de juros, puxando-a para baixo, e retirou do banco o que estava dando receita, na diferente de taxa curta paga a depositantes e taxa longa de aplicações em títulos do Tesouro", diz Volpon.

Se o desempenho futuro é incerto, no presente, não basta olhar para a cifra final mas como ela foi obtida, destaca Rubens Sardenberg, economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

"O lucro desses bancos não representa ainda uma expansão saudável em operações de crédito, em resultados recorrentes. E o maior salto na soma vem do BofA, que saiu de um prejuízo bilionário no comparativo com ações pontuais como venda de participação em banco chinês e reavaliação da carteira de derivativos", ressalta Sardenberg.

"Há uma melhora mais forte na provisão, quando se olha o acumulado de nove meses. Os quatro maiores bancos somam cerca de US$ 10 bilhões, quase a metade do mesmo período do ano passado."

Mas a redução já feita também quer dizer menor margem de manobra daqui por diante. Além disso, a briga política nos EUA tem contribuído para a volatilidade. Parte dessa briga é a publicação da Volcker Rule, apanhado de regras em mais de 600 páginas e definições polêmicas.

"Querer fazer com que os bancos parem com operações proprietárias é não reconhecer que se trata de uma forma de geração de receita e de hedge", exemplifica Volpon.

Regulação também é citada por Marcelo Toledo, da equipe econômica do Bradesco. "O desafio é digerir créditos, principalmente imobiliários, pré-crise e conviver com regulação mais forte e atividade de mercado de capitais mais fraca."