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Economia

Análise

O que o Brasil deve aprender com a crise na Zona do Euro?

por Fabio Terra e Pedro Rossi — publicado 29/11/2013 06h32, última modificação 26/06/2015 09h15
O País precisa dar atenção à forma como se insere na cadeia produtiva global, em especial nas áreas de tecnologia mais avançada
Carmen Jespersen / DPA / AFP
Protesto na Alemanha

Trabalhadores da Airbus realizam manifestação na quinta-feira 28 em Bremen, no norte da Alemanha, contra cortes realizados pela empresa

A crise pela qual passa a Zona do Euro é muito mais do que uma tormenta financeira. Sua raiz encontra-se na reestruturação produtiva levada a efeito nos países da União Monetária a partir da adoção da moeda comum. Se, por um lado, ao extinguir as moedas nacionais, o euro eliminou os custos de transação e integrou economicamente o território europeu, por outro lado, essa construção monetária transformou, de forma divergente, as estruturas produtivas europeias, causando disparidades tecnológicas que se materializaram em parques industriais com competitividade bastante discrepante. Assim, o livre comércio combinado com a abolição das moedas nacionais agravou as desigualdades produtivas implicando, nos países do sul europeu, na perda de dinamismo econômico e em elevadas taxas de desemprego.

Neste contexto, o parque industrial alemão, detentor de trajetórias tecnológicas promotoras de ganhos de produtividade, acabou por se tornar o principal fornecedor de bens e serviços para o restante da Zona do Euro. Em contraposição, os demais países do bloco foram deixando de ser produtores e se tornaram importadores de produtos alemães. Um dado que ilustra o argumento é a variação da produção industrial da Alemanha, que teve um crescimento médio de 1,2%, ao ano, entre 2002 e 2013, enquanto que o mesmo dado, para a média da Zona do Euro, aponta um decrescimento da produção industrial de 0,1% ao ano. Assim, não é por demais apontar que o sucesso industrial alemão tem como contraponto o fracasso dos demais países da Zona do Euro.

A queda na produção industrial é uma amostra da renúncia à produção de bens comercializáveis por parte da maioria dos países europeus, representada por um descompasso entre a oferta e a demanda doméstica, que passou a ser atendida por importações. Foi, portanto, um modelo de integração assimétrico, fundado em desequilíbrios regionais. Com base nessas assimetrias produtivas, não é complicado compreender os contratempos financeiros europeus. A persistência desse modelo teve como resultado a criação de dívidas privadas, regadas à poupança externa em diferentes porções de inovações financeiras. Isso foi a “ventilação mecânica” dos países deficitários, que deu fôlego ao consumo das famílias e à expansão de preços de ativos, gerando um clima de euforia com o dinamismo econômico então observado, enquanto acobertava a regressão produtiva e o crescimento dos estoques de dívida em diversos países.

O desfecho dessa história é conhecido de todos, mas frequentemente mal interpretado. A aparentemente robusta dinâmica econômica promovida pela moeda única ludibriou os políticos e economistas que centraram as atenções, sob os auspícios do Tratado de Maastricht, nos limites do endividamento público. Porém, pouca (ou nenhuma) importância eles deram para o endividamento privado e os déficits em transações correntes intra-regionais. A crença era a de que estes problemas seriam resolvidos pelas próprias movimentações das forças de mercado. Com a crise americana, veio à superfície o problema do estoque de dívidas privadas e o seu emaranhado de conexões financeiras. Assim, interrompeu-se um circuito de financiamento que sancionava as assimetrias produtivas.

Diante disso, os Estados Nacionais tentaram amenizar os efeitos econômicos com aportes fiscais que, em parte, estatizaram as dívidas privadas. Daí em diante, a crise passou a ser chamada de “crise das dívidas soberanas europeias”, rótulo que ressalta o efeito da crise no plano fiscal, mas que desvirtua as suas causas. Com a desonrosa exceção da Grécia, nos demais países fortemente afetados pela crise do euro, o setor público não cometeu excessos fiscais, mas pecou pela falta de políticas voltadas ao setor produtivo e por acreditar que a regressão produtiva promovida pelos mercados tratava-se de um curso natural e irrevogável.

Quais as lições para o Brasil? Na verdade, o caso da Zona do Euro é uma amostra reduzida da estrutura produtiva global e de seus desequilíbrios. Assim sendo, a principal lição a ser tirada é a de que o Brasil precisa atentar para sua inserção produtiva global, em particular, nos ramos industriais com maior grau de conteúdo tecnológico. O caso da Zona do Euro deixa claro que aqueles países que não participam como players da corrente de comércio apenas conseguem dinamismo econômico de forma artificial.

Portanto, reposicionando o que acontece na Europa para o nível global, não é difícil entender o desafio enfrentado pelo Brasil. Óbvio ressaltar que a moeda comum é um problema que não enfrentamos. Nos compete, entretanto, vencer outros obstáculos, como as recorrentes pressões para apreciação cambial, os custos de transação muito mais elevados do que os de nossos competidores além do atraso tecnológico, salvo alguns setores específicos. Para ilustrar o tamanho do desafio, o economista Dani Rodrik, em um recente estudo comparativo, mostrou que entre dez setores de alta tecnologia, a China tinha maior produtividade do que os Estados Unidos em sete.

Logo, as lições para o Brasil colocam-se em (i) ampliar os investimentos e, principalmente, (ii) melhorar o conteúdo dos investimentos realizados. Para isso, as políticas governamentais de estímulo à indústria e à ciência e tecnologia bem como os recentes programas de melhoria da infraestrutura nacional precisam ser condensados, mais bem coordenados e intensificados. Há espaço fiscal para que tais políticas sejam implementadas e, no médio e longo prazos, o sucesso delas permitirá crescimento econômico sustentável com automática melhoria da arrecadação de recursos e aumento da capacidade produtivas do país, fator auxiliar ao combate da inflação. Nesse particular, é ocioso comentar os benefícios para as transações correntes do país. Enfim, não podemos assistir impávidos à colossal reestruturação produtiva global processada nos últimos trinta anos. Que a crise dos países do sul europeu sirva de exemplo.

*Fabio Terra é professor da Universidade Federal de Uberlândia e Diretor da AKB e Pedro Rossi é professor da UNICAMP.

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