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O que é normal no capitalismo?

por Rui Daher publicado 20/12/2013 11h01
Reduzir a força de trabalho no campo é normal. Levar as pessoas à fome, não

A coluna se antecipa ao dia de Natal. Uma imagem consagrada como agrária. O que tínhamos naquele tempo. Homens e mulheres semeando e pastoreando terras para a sobrevivência e reprodução da humanidade.

“E o que temos para hoje”? Pouco mais. A placa na porta do boteco oferece felicidade com feijão, arroz, guisado, ovo frito.

Neste terceiro milênio, o Brasil se acredita em tom maior. O fulano do iate de cinco milhões de dólares, o sicrano com bilhões de seguidores nas redes sociais, os magotes brindando com champanhe Cristal nas festas de fim de ano.

Ao mesmo tempo, crescemos e voltamos a acreditar em Papai Noel.

De minha parte, penso num senhor negro de carapinhas brancas, terno cinza amarfanhado, gravata preta, que espera o ônibus vir célere pela faixa exclusiva. Lê um livro. Um olho nas letras pequenas outro nos destinos que se vão anunciando.

Curioso, me aproximo. Estão lá um homem de quem não sei o nome e Manoel de Barros. Dar-se-ão bem.

E vocês aí? Pensando que hoje iremos de lirismo agro? Coisa ou zorra nenhuma! Sigo logo para a aridez que afasta comentários e passa longe das folhas e telas cotidianas, ensandecidas, preparando o morticínio sufragista de 2014 ou perscrutando os atributos que justificam o salário de Sabrina Sato.

Sugiro um livro: Dinâmicas de classe da mudança agrária (Editora UNESP, 2011), de Henry Bernstein, professor na Universidade de Londres. Será usado nesta e na próxima coluna.

Já comentei considerar estéreis discussões que condenem os rumos tomados pela agropecuária brasileira e seu atual estágio como agronegócio. É uma formação autóctone, escrita pela história de nossa formação econômica.

Não que isso me satisfaça. Não que ache justos seus resultados. Não que nada se possa fazer para melhorá-los. Mas “é o que temos”, e assim vamo-nos dando bem na macroeconomia e em relação a mazelas mais penosas.

Bernstein constata: “a pobreza global continua a ser, significativamente, um fenômeno rural; os pobres rurais constituem três quartos dos pobres do mundo”. Enquadra isso como “questão multidimensional” (econômica, política, social, cultural, sexual, ambiental, etc.) e mostra a globalização neoliberal acelerando a troca da pobreza rural pela urbana.

O quadro é evolucionário. Em 12 mil anos, a maioria dos habitantes do planeta trabalhou cultivando a terra. Em 1750, início da 1ª etapa da industrialização, sustentava 770 milhões de pessoas.

A partir daí, a relevância passou ao uso de tecnologia, e sua pauperização aumentou. Na contramão mesmo da finalidade básica de seu trabalho: alimentar-se.

Em 1950, a população mundial já estava em 2,5 bilhões; em 2008, em mais de seis bilhões. Momento em que a população urbana se equipararia à rural e passaria a superá-la.

É normal no capitalismo a industrialização reduzir a força de trabalho no campo. Fatídico, pois, que a maioria da população agrária do planeta esteja no Terceiro Mundo ou no Hemisfério Sul. Segundo a ONU, 97% nos países em desenvolvimento.

O que não é normal é o capitalismo, em suas formas e etapas, levar esses remanescentes à fome.

Tudo isso traz um quê de insensibilidade, desconhecimento, busca de privilégios, quando no Brasil se criminaliza movimentos sociais pela terra, programas voltados à agricultura familiar, assistencialismos como Bolsa Família, merrecas que serviram para amenizar a fome de 50 milhões de pessoas.

Recentemente, em sua coluna na Folha de S. Paulo, a senadora (PMDB-TO) e presidente da CNA, Kátia Abreu, criticou o uso, em livros escolares, do termo campesino. Concebia-o marxista.

Pois saiba, nobre senhora, que em muitas regiões do País, “é o que temos para o momento”, em base a relações de sociedades pré-capitalistas. Aí bobeou, ou não quis aproximar sua lupa, a competente equipe que a assessora.

Se a industrialização trouxe produtividade através de ferramentas tecnológicas e fez criar produção e excedentes comerciais, desperdiçados e mal distribuídos, em muitas comunidades agrárias, como diz Bernstein, “a energia da força muscular humana” ainda vige.

Até mesmo os adoradores do ciclope do agronegócio já devem ter visto isso acontecer por meio de homens, mulheres e jegues.

Volto ao assunto. Feliz Natal a todos.

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