Você está aqui: Página Inicial / Economia / O pessimismo da mídia no agronegócio

Economia

Custos e lucros

O pessimismo da mídia no agronegócio

por Rui Daher publicado 23/05/2014 15h14, última modificação 29/05/2014 16h20
Boa parte da inflação reflete aumento das margens de lucro praticado por vários setores, sobretudo os oligopolizados

Embora os assuntos mais afeitos ao agronegócio envolvam economia, política e tecnologia, certos temas dormem em antigas fichas de bibliotecas, que me levam a espaná-las e dar à coluna uma levada de crônica.

Não sei se agrado, mas o agro sempre se queixou da pouca exposição na mídia. O público justificava desinteresse alegando chatice, monotonia. Os do ramo conformavam-se com publicações e emissões de aposto “rural” ou “agrícola”.

O fato vem mudando há pelo menos duas décadas. No planeta, catalisado por impasses entre segurança alimentar, preservação do ambiente vital e comércio exterior; na Federação de Corporações, instigado pela dimensão a que chegaram agropecuária e contradições.

É bom que assim seja. O estágio atual do capitalismo ampliou as preocupações da agropecuária mais até do que nos setores industriais e financeiros, mandatórios na economia mundial e na vida das pessoas.

Foi-se o tempo em que a única resposta que os campesinos (desculpe o termo, senadora Kátia) poderiam dar a seus detratores era: “se não fosse por nós, o que os senhores comeriam?”

Nesta coluna, penso em comentário do leitor, produtor e amigo, Fernando Machado, sobre o descompasso entre preços de comercialização e custos dos fatores na produção agrícola.

Queixas que ouço de muitos atores em diversas culturas. Seria equivocado incluí-las na pecha de “chorões”, por eles recebida de urbanoides. A não ser que o tsunami de pessimismo que cobre o País tenha chegado a eles.

Não me surpreendo, no entanto. Em coluna nesta CartaCapital, lembro ter usado a palavra babau para me referir aonde chegaria a grande agropecuária brasileira caso os preços das commodities caíssem a níveis do século passado e início deste.

Assombro que logo se repetiria nos olhares de William e Patrícia, no Jornal Nacional, da TV Globo, pois sem interferência de excessos de oferta, os alimentos não mais chegariam às mesas brasileiras “abençoados por Deus e bonitos por natureza”.

Pra fora ou pra dentro, são façanhas somente obtidas pelo incremento de produtividade.

E por que tais aumentos de custos não me surpreendem? Vários motivos, nenhum deles a favor da rentabilidade de quem produz no campo.

Podemos começar pelo mais óbvio e comentado, o custo da logística. Fretes de uma frota tardia e incompletamente renovada, modais de transportes inadequados para a dimensão do país, agravada pela rápida expansão da fronteira para plantio, estradas deploráveis.

Enveredar por aí, no entanto, seria chutar o cachorro morto de sempre, o Estado. O jornalista e escritor Nelson Rodrigues veria nisso uma burrice, pois unânime.

Poderá parecer irônico, mas outra causa para o aumento desses custos vem exatamente da ausência do cachorro morto. O viés neoliberal que tomou a globalização promoveu, aqui e alhures, brutal concentração da produção e comercialização de sementes, fertilizantes, agrotóxicos, máquinas e equipamentos.

Em caso de dúvida, vale contar o número de empresas e suas participações nesses mercados. Concentração sem precedentes na história, exacerbada por excelentes centros de inovação tecnológica e massivos aparelhos de divulgação.

Diante de tal prensa, resta pouca defesa ao rural. Corre atrás do rabo para ter produtividade. E mesmo minimizando custo de mão de obra com mecanização, acaba com o rabo preso pelos preços praticados por empresas a um tico de serem oligopólios.

Sim, há também as legislações tributárias, trabalhistas, ambientais, mas aí voltaríamos ao cachorro morto, que de tão chutado, valeria um dia tentar ressuscitá-lo.

Pra terminar, sem passar no sal, mas apimentando o tempero da inflação nos custos agropecuários, incluo fator recente, não exclusivo do segmento, mas percebido em várias empresas: o pessimismo que se espraia das folhas e telas cotidianas para a economia, e daí para as nações corintianas, flamenguistas, até aos minoritários torcedores do Olaria, no Rio, e da Ferroviária de Araraquara, em São Paulo.

Boa parte da inflação reflete aumento das margens de lucro praticado por vários setores, sobretudo os oligopolizados, como proteção diante do desconhecido à frente.

Como os balanços publicados de 2013 e do primeiro trimestre de 2014, período de economia a passo de pangaré, mostram bons resultados, ao mesmo tempo em que cresce a entrada de investimentos diretos, é bem possível que o desconhecido à frente, causa do lamento carpido, esteja relacionado ao resultado da eleição presidencial. Vai que o desconhecido seja mais do que conhecido.

Dito isso, caro Fernando e leitores, se a China não mantiver o apetite, Estados Unidos, Europa e Japão não crescerem um tiquinho a mais ao ano, São Pedro ofertar boa colher pro hemisfério sul e entortá-la no norte, uma nova orientação política não arrasar a produção indiana de açúcar, logo, logo, a potência agropecuária do planeta terá que conversar com o Tesouro Nacional.