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O mal do paternalismo

por Alfredo Assumpção publicado 17/05/2014 06h07
Os gestores empresariais não podem fazer seus subordinados usarem "fraldas corporativas"

Como presidente de um grupo de empresas de executive search, sou constantemente questionado sobre a melhor forma de gerir uma companhia. No nosso trabalho temos como obrigação avaliar todas as variáveis internas e externas, que influenciam a vida empresarial de nossos clientes (sempre empresa), antes de prestarmos a consultoria. Mas, independentemente do segmento e do tipo de empresa, aconselho o mesmo para todos: Não seja paternalista!

O paternalismo pode ser encontrado em qualquer tipo de empresa, não importa seu tamanho. Basta ter um líder que, na preocupação de fazer com que tudo aconteça da forma mais correta possível, acompanha o passo a passo do liderado, impedindo que a pessoa erre. A pessoa, como nunca erra, porque tem um paizão do lado cuidando para que não erre, desacostuma-se a aprender com erros e acaba ficando inutilizada para resolver todos seus demais problemas corriqueiros durante a vida. No dia que sair da tutela deste chefe protetor se sentirá perdida.

Usualmente, acontece, também, quando os funcionários se aproximam física e psicologicamente dos seus gestores e pares. Assim eles podem trocar todos os tipos de angústias financeiras, profissionais, e os gestores tendem a ajudá-los como se fossem pais superprotetores. Isso vai desde um pedido de adiantamento de salário para pagar contas, até passar a mão na cabeça quando cometem erros, às vezes, desonestos. O erro humano é aceito quando é honesto. E é assim que as pessoas aprendem. Errando e tendo alguém os corrigindo depois. Os gestores paternalistas acreditam que ao impedir o erro estarão, dessa forma,  contribuindo com a formação daquele profissional, mas o que estão fazendo é os privando de adquirirem o que chamo de cicatrizes e calos corporativos. Algo que escolas não ensinam. Aprende-se no dia-a-dia através de exposição no trabalho.

Esse sistema, além de infrutífero, é prejudicial à empresa. Quanto mais no alto da estrutura organizacional estiver este líder e/ou quanto mais influente ele for, mas ele afetará negativamente os demais líderes da instituição. Os pares olham esse comportamento e tendem a repeti-lo, então forma-se um time de liderados de eternas fraldas corporativas, aqueles recém-chegados à empresa que precisam evoluir pelas fases: (1) Fraldas Corporativas; (2) Infância Corporativa; (3) Adolescência Corporativa; (4) Maturidade Corporativa. É nesta quarta fase que a pessoa poderá render na plenitude. E, para tanto, é importante que adquira independência. Só a adquire, no entanto, se tiver um líder que a estimule a cuidar de si mesmo, estando apenas equidistante, pronto para intervir, se necessário for, para corrigir os erros, naturais em qualquer ser humano.

A função de um bom líder é desenvolver seus times mirando em lucro para as empresas. Ele tem que acreditar em seus subordinados. Tem que confiar que todos os passos estão sendo seguidos, sem centralizar as funções. Precisa dizer o que quer e cobrar por isso. Ninguém sabe com certeza o poder de realização que tem, e o líder precisa fazer com que esse poder se aflore. Só assim são feitas pessoas crescidas e não bebês. E são essas pessoas que empurram as companhias em direção ao sucesso.

Os gestores precisam soltar os profissionais abaixo deles para que gastem a sola do sapato. São como crianças que precisam aprender a andar, andando no quintal. Caindo e se machucando, ralando o joelho. Precisam correr esse risco, deixar as pessoas serem pilotos, e não robôs. Só assim terão um time maduro e pronto para os substituírem, dando seguimento ao progresso das empresas. Aí está uma empresa feita para durar!

Os subordinados também têm um papel importante nesse sistema. Eles devem fazer autoavaliações constantemente, e examinarem os comportamentos de seus gestores e de todos os outros da empresa. Se estiverem sendo tratados de forma paternalista, devem alertar seus líderes, chamando sua atenção. É o melhor caminho para se tornar piloto e deixar de ser robô. Se assim não fizer, por melhor que seja este paizão hoje, o tal caridoso, cuidadoso, carinhoso, será estragado como profissional. Fica o alerta para chefes e subordinados. O chefe deve evitar o paternalismo para criar times de vencedores e o subordinado tem que tentar corrigir o chefe paternalista, porque, em algum momento no futuro ninguém estará lá para carregar no colo este subordinado que nunca se libertou das fraldas corporativas. Será um eterno bebê chorão. Melhor corrigir esse mal pela raiz.