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Análise / Rui Daher

O futuro da agricultura familiar

por Rui Daher publicado 28/02/2014 11h10, última modificação 28/02/2014 11h15
Como evitar a fome que irá grassar no planeta se não produzirmos o suficiente, com pouca expansão de área, e sem machucar os biomas e o ar que respiramos?
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Agricultura familiar

Como evitar a fome que irá grassar no planeta se não produzirmos o suficiente, com pouca expansão de área, e sem machucar os biomas e o ar que respiramos?

Os leitores devem estar conscientes da preocupação mundial, expressa em simpósios, folhas e telas cotidianas, a respeito da segurança alimentar.

Como evitar a fome que irá grassar no planeta se não produzirmos o suficiente, com pouca expansão de área, e sem machucar os biomas e o ar que respiramos?

Se a data marcada para a catástrofe for o ano de 2050, aí então saiam de baixo. As projeções dos analistas podem cair sobre suas cabeças como viadutos.

Alguém, no entanto, já se perguntou de quais alimentos estamos falando? Ou nossos olhares, como os de USDA, FAO e, caseiramente, IBGE e CONAB, estão voltados apenas para grãos, carnes, açúcar, suco – se for de laranja – e café, itens que embalam as principais commodities agrícolas nas bolsas mundiais.

Aqui, na Federação de Corporações Brasil, de grande população, como ficará a saladinha em nosso quilo de cada dia? Como os adeptos do veganismo pouparão os animais de sacrifícios? Frutinhas raras ou exóticas serão fartas? O que fará uma mulher grávida diante de vontade irresistível de comer pitangas? E você, amigo de copo, que pensou deixar cambucis amenizando o travo de cachaça mal escolhida?

Se a tecnologia não der ajuda – robôs, sínteses industriais, transgenias - graçolas assim terão que ser esquecidas. Não as minhas, mas a de alimentação nutritiva e prazerosa no futuro.

Sim, você sempre poderá ter um canteiro de chicória ou um pé de araçá em seu quintal. Pouco mais do que isso, porém. Hoje em dia, a agropecuária empresarial baseia-se em volumetria, viabilizada por demanda que lhe permite escala.

Investimentos em terras, maquinário, tecnologias nutricionais e fitossanitárias, remuneração de mão de obra, capacidade de armazenagem, para trazerem retorno e se tornarem mais ou menos resistentes a choques de oferta e preços, precisam de volume e competitividade.

Assim manda o sistema capitalista e faz o processo de concentração se espalhar globalmente. Quando estanca em algum país, é porque mantido através de subsídios governamentais.

Mas isso é o feijão com arroz de que conhecemos o prato. No Brasil, mesmo se traduzido em baião de dois.

O que me interessa aqui é dizer que a fila anda, e aqueles imigrantes ou descendentes que fizeram a vida agachando-se em canteiros de verduras e legumes, recolhendo ovos caídos de poleiros sujos de titica de galinha, ou protegendo pêssegos com envelopes de papel, estão em acelerada extinção.

Alguém aí penalizado? Não fiquem. Vale até mesmo regozijo. Queriam o quê? Novas gerações abrindo mão de suas aquisições educacionais, culturais e urbanoides? Niseis, sanseis e oriundis mantendo os mesmos hábitos de seus ancestrais?

Gosto de conversar com gente da pequena agricultura. Lamentam ver minguar “o negócio da família”. Mesmo assim pensam em mel. Falam da volta das abelhas quando interrompidos os tratamentos com agrotóxicos. Afinal, não precisam colher 100 sacas de soja ou 12 mil quilos de milho por hectare.

Cai o número de produtores rurais dedicados aos plantios nos chamados cinturões verdes ou mesmo fora deles, em pequenas propriedades economicamente inviáveis. O que a expansão urbana e a especulação imobiliária não fizeram, a sucessão na família está a fazer.

Andanças me contam isso. Repasso-as. Visitem as regiões de Mogi das Cruzes, Atibaia, Itapetininga, Pilar do Sul, Jundiaí, no estado de São Paulo. Não será diferente em campos mais distantes.

Uns poucos anciãos, ajudados por cunhados, sobrinhos e subempregados, que ainda não saíram para centros urbanos ou se ajeitaram em outras atividades, insistem na recolta de almeirões, rúculas e cheiros-verdes.

Não serão muitos nem eternos.

Acharam que eu terminaria aqui? De forma desesperançada? Coisa nenhuma. É assunto pra muito lero. Merece ser menos perfunctório (baita termo, hein?).

Não caberia ao governo e iniciativa privada organizarem um projeto que integrasse agricultura familiar, assentamentos, e o MST, Movimento dos Trabalhadores sem Terra, recuperando o papel que o último teve em 30 anos de história?

Na próxima.

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