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Economia

Guerra cambial

O câmbio e as roletas

por Delfim Netto publicado 26/09/2011 17h48, última modificação 26/09/2011 18h07
No mundo das redes, a velocidade da comunicação e o uso de algoritmos transformaram potencialmente o mercado financeiro numa arma de destruição em massa que pode ser manipulada pelos proprietários do mercado

Quando o ministro Guido Mantega alertou para as consequências da ausência de controles nos mercados financeiros, ampliando o risco do que ele chamou de guerra cambial, notáveis banqueiros europeus desdenharam da sua preocupação. Um banqueiro suíço de menor expressão ainda encontrou espaço na mídia para dizer agressivamente que ele “tinha ficado maluco”. Pois não foi preciso esperar muito para os mesmos banqueiros estremecerem diante de uma série de ataques (logo!) ao franco-suíço, em meio a um tombo superior a 2 bilhões de dólares em nebulosas transações cambiais, num único banco.

Mesmo sabendo que ninguém tem instrumentos para exercer controle eficaz sobre o câmbio, o aviso do nosso ministro se justifica plenamente: a moeda deixou de ser unidade de conta para se transformar em mercadoria, transacionada em mais de 4 mil fundos, em operações que em 24 horas somam 2 trilhões de dólares (mais da metade de um PIB brasileiro), processadas em milésimos de segundos. São verdadeiras roletas com programas instalados em computadores garimpando diferenças até a terceira casa decimal. Não vejo como organizar essa jogatina. E não consigo identificar em nossa história, fora dos períodos de conflagração mundial, uma situação tão complicada quanto esta, com tantos países envolvidos.

As consequências dramáticas de tais movimentos estão crescendo, na medida em que aumenta a velocidade das comunicações. Um simples rumor se propaga a todos os mercados do mundo em um milésimo de segundo e não permite o efetivo conhecimento do assunto, o que pode transformá-lo em realidade. No mundo das redes, a velocidade da comunicação e o uso de algoritmos, cuja resposta é quase instantânea, transformaram potencialmente o mercado financeiro numa arma de destruição em massa que pode ser manipulada pelos proprietários do mercado (os bancos de investimento, as financeiras, os fundos de toda espécie, as agências de risco, as bolsas mal reguladas etc.).
Não se trata de um problema moral que possa ser corrigido por um “imperativo categórico” autoimposto pelos próprios agentes financeiros. Como esses não são anjos e as vantagens monetárias (preliminares do poder econômico) são enormes, o desvio sempre valerá a pena. O comportamento de tais agentes está inscrito no seu DNA à espera de uma oportunidade para se manifestar. Quando encontra um espaço desregulado, a tendência natural do setor financeiro é submeter ao seu controle o setor real da economia, ao qual deveria servir, e apropriar-se do poder político. O recente cabo de guerra nos EUA entre o Executivo- e o Legislativo para a regulação financeira mostrou quem detém, efetivamente, o poder no Congresso.

A existência de um setor financeiro sofisticado e hígido é condição necessária (mas não suficiente) para a construção de um processo de desenvolvimento eficiente, que permita a maior mobilização possível dos recursos naturais e humanos disponíveis. A crise de 2007/2009 (e o que ainda está ocorrendo em 2011) mostra que o colapso do sistema financeiro leva à destruição instantânea do circuito econômico: uma dúvida de confiança produz uma descontinuidade do crédito interbancário e leva ao encolhimento do crédito para produtores e consumidores. Todos os agentes procuram salvar-se aumentando sua liquidez: os bancos liquidam seus estoques para fazer caixa e os consumidores cortam suas compras, com medo do desemprego. Quando todos estão líquidos, morrem afogados na sua própria liquidez, porque interromperam o circuito econômico!

É por isso que, nos momentos de crise, os governos não podem deixar quebrar o sistema financeiro. Isso não significa, entretanto, que devam poupar os agentes da destruição que se infiltram, como células cancerosas, no tecido do organismo de cuja higidez depende todo o processo de funcionamento econômico da sociedade, em particular as oportunidades de emprego. Agora mesmo, estamos assistindo como fundos agressivos (que, na melhor das hipóteses, produzem apenas transferência de renda) continuam destruindo empresas que produzem bens e serviços e criam emprego. Apertado pelas circunstâncias, um deles desovou às pressas a participação acionária que tinha numa empresa. Literalmente, destruiu quase um terço do seu capital com graves consequência para seu futuro e depois... quebrou.

A pergunta que os bancos centrais em todo o mundo deviam estar se fazendo é: por que precisamos dessas 4 mil roletas?