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O Brasil na liquidação

por Rui Daher publicado 10/04/2015 11h25
Panelaços, ratings ameaçados, crise na Petrobras, ajuste fiscal... analistas sérios acham nosso estado longe do terminal, mas poucos notam que exageros fazem do Brasil um país barato de ser comprado
Rodrigo Lôbo/ Fotos Públicas

Veio da África Equatorial e da Índia. Não se sabe quem chegou primeiro, o africano ou o asiático. Mais provável o primeiro. Provam-no as maratonas e corridas de São Silvestre. Pouco exigente, amorenado, vai bem em várias regiões do Brasil.

Do ornamental ao sabor azedo, passa pelos benefícios à saúde. Vitaminas, fibras, compostos orgânicos. Atua como antioxidante e anti-inflamatório. É eficaz para aqueles com dificuldade de fazer o intestino funcionar em privadas alheias.

Pode ser comido ao natural, diante de caretas não apreciadoras, ou na forma de doces, sucos, sorvetes, licores. Não sei se os dez frutos que mergulhei em boa cachaça melhorarão a minha saúde. Certo é que me alegrarão.

Uma árvore de tamarindos pode atingir 25 metros e durar de 80 a 200 anos produzindo. Como foram Manoel de Barros e o Oliveira para a poesia e o cinema, a permanecerem por muitos séculos.

Por que esta Andança Capital? Ao comprar no supermercado uma pequena bandeja do fruto lembrei-me de Afrânio, município pernambucano distante 100 km de Petrolina.

Lá conheci uma plantação de tamarindeiros. Mais precisamente no povoado de Caboclo, região de caatinga, onde há dez anos, em agosto, acontece a Festa do Tamarindo. Cursos, plantios, shows, artesanatos, sempre relatados pelo bendito e azedo fruto.

Mais não digo. Deixo Caboclo aos cuidados dos leitores. Acabam de me lembrar que o Brasil é apenas soja, cana e boi.

No barato

Deu barato no Brasil. Perceberam? Nem sabemos ´baseado´ em quê.

A política, por exemplo. Quarteirões executivos, legislativos e judiciários, largados em esquinas programáticas firmes como geleias, soltam argolas de fumaça, que a legião analista das folhas e telas cotidianas transformará em fatos para consumo popular.

É chato, um saco, incomoda. Poucos percebem que tais exageros ajudam fazer do Brasil um país barato, fácil de ser comprado. E não se iludam: ninguém irá querer as tranqueiras, mas sim os filés.

A moçada sestrosa e valente do “mercado” baba ao lembrar que é nas crises que surgem as melhores oportunidades de investir, comprar, adquirir, fundir, f.... Decretados falidos, abrimos portas e portos aos bons e maus servidores das bacias das almas.

Nesta mesma CartaCapital, economistas e analistas sérios acham nosso estado longe do terminal. Egoísta como sou, tenho puxado a agro brasa para as minhas saborosas sardinhas, divididas com vocês em colunas anteriores.

A deixa para o barato começa com a estilingada do câmbio. De abril de 2013 até hoje, o dólar saiu de uma faixa de R$ 2,00 para R$ 3,20. Valorização de 60% que faz, na moeda norte-americana, nossos ativos valerem bem menos.

Crise, panelaços, ratings ameaçados, Petrobras na berlinda, commodities em queda, ajuste fiscal sobre ombros trabalhadores e aposentados, mais dois anos sem crescimento, inflação indomável. O que acontece? Aceleram a podridão, vira liquidação, e o neófito empresariado nacional tira o time para regiões, digamos, mais Floridas.

Exceção aos viciados em jogos rentistas, sempre a brincar de arbitragem (imaginem com o BC independente, como querem os primeiros-ministros Cunha e Calheiros), os demais, ajudados por cães farejadores nacionais, munidos de balas verdinhas abaterão suculentos filés.

Os carentes de amor irão preferir noivas lindas e enfeitadas. Receberão um book com uma penca de “atrizes e modelos”: milhões de hectares de terras agricultáveis, clima subtropical, expressiva produção e exportação de itens para segurança alimentar, fontes renováveis de energia, diversidade de biomas e de culturas agrícolas, agroindústria avançada, democracia estabilizada, legislação confusa e procrastinadora, folhas e telas cotidianas domesticadas em mãos de poucas famílias ou grupos de comunicações.

Eu poderia ir mais longe, mas deixo a tarefa expansionista para os leitores no “FB Caboclo”.

Querem amostras recentes? Venda de participação acionária de grande empresa nacional do setor de fertilizantes para duas multinacionais, uma marroquina outra canadense; grupo holandês ING amplia financiamento a empresas ligadas à exportação de commodities agrícolas; Banco Mundial, através do IFC, foca na agroindústria brasileira para financiar compras de terras e empresas. Em 20/03/2015, o jornal Valor publicou: “Antes represado, capital chinês já inunda o mundo”.

Em 2014, as aquisições do Império do Meio atingiram 70 bilhões de dólares. Entre elas, terras, imóveis, empresas. Com tamarindos e baratos, lembro e sugiro ouvirem os Racionais Mc’s: “somos o que somos, cores e valores”.

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