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Mudanças, mas nem tão radicais

por Gerson Freitas Jr — publicado 24/11/2010 10h46, última modificação 24/11/2010 18h46
O governo Dilma terá de fazer ajustes para manter o crescimento
Mudanças, mas nem tão radicais

O governo Dilma terá de fazer ajustes para manter o crescimento. O desafio será derrubar os juros, aumentar a poupança interna e estimular os investimentos. Por Gerson Freitas Jr. Foto: Olga Vlahou

O governo Dilma terá de fazer ajustes para manter o crescimento

A equipe a assumir a condução da política econômica a partir de 1º de janeiro terá de promover mudanças. Se, por um lado, o cenário ainda é de otimismo em relação às perspectivas para o Brasil, por outro, cresce o desconforto com a conjuntura para os próximos anos. Ao que tudo indica, o governo de Dilma Rousseff terá de mostrar habilidade para desmontar as atuais armadilhas se quiser manter a economia em expansão acelerada com estabilidade de preços.

“Esta é uma transição diferente, pois o Brasil está em situação muito confortável. O mais óbvio seria manter tudo como está, mas o cenário externo nos obriga a fazer ajustes por cima. Vamos precisar ousar”, afirma Antônio Corrêa de Lacerda, professor doutor do Instituto de Economia da PUC, em São Paulo.

O grande desafio será cortar substancialmente os juros, atualmente os mais altos do mundo, aumentar a poupança doméstica e estimular os investimentos necessários para sustentar o crescimento da economia nos próximos anos. “Precisamos desentupir o financiamento de longo prazo no Brasil. Se não conseguirmos aumentar a taxa de investimento para 25% do Produto Interno Bruto, estaremos perdidos”, resume David Kupfer, professor doutor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Hoje, o País não investe mais que 18% do PIB.

A presidente eleita assumiu como prioridade reduzir a taxa básica de juros, a Selic (fala-se em 2% ao ano, descontada a inflação) até o fim de seu mandato, em 2014. Trata-se de uma meta ambiciosa: atualmente, os títulos da dívida pública oferecem ao investidor uma remuneração anual de quase 6% em termos reais.

Não bastasse, nos últimos dias, voltaram a crescer as pressões para que o Banco Central volte a subir os juros a partir do ano que vem. Segundo o último boletim Focus, que capta as estimativas do mercado financeiro para a economia, o BC vai elevar o juro básico em 1,25 ponto porcentual em 2011 – dos atuais 10,75% para 12%. Se nada mudar, Dilma terá apenas três anos para cortar os juros pela metade.

Para os analistas do mercado financeiro, a economia brasileira está superaquecida. Após um período de estabilidade entre abril e junho, a economia expandiu-se em 0,69% em setembro – a maior taxa desde março, segundo indicador do Banco Central. “Esperamos uma aceleração da atividade econômica no quarto trimestre. Os primeiros sinais de outubro apontam para expansão elevada da produção industrial e das vendas no comércio varejista”, apontam os economistas do Itaú Unibanco em relatório ao mercado. A expectativa é de que o PIB feche 2010 com um crescimento próximo de 7,5%.

A expansão veio acompanhada de uma maior pressão sobre os preços. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que ficou próximo de zero entre junho e agosto, acelerou-se para 0,45%, em setembro, e 0,75% em outubro. Entre janeiro e outubro, a variação acumulada é de 4,38%. O mercado aposta que o índice terminará o ano em 5,48%, quase um ponto porcentual acima da meta perseguida pelo BC. Para o ano que vem, a expectativa é de uma inflação de 5,05%, também acima da meta de 4,5%.

Os alimentos são os principais responsáveis pelo ressurgimento das pressões inflacionárias, embora não sejam os únicos. Ainda não é possível afirmar que se trata de um aumento sazonal ou estrutural. Diferentemente do que aconteceu nos primeiros meses de 2010, quando o excesso de chuvas no País puxou o preço de alguns itens, desta vez trata-se de um movimento internacional. Nos últimos meses, os preços de várias commodities, como soja, milho, açúcar, algodão e café, registraram elevações expressivas nas bolsas norte-americanas, movimento atrelado à desvalorização do dólar.

Os economistas do Banco Central sabem que não se combate a alta das commodities com juros mais altos. Mesmo assim, este foi o remédio aplicado nas últimas vezes em que o problema se manifestou. “A estratégia é sempre impedir que o movimento contamine os outros setores da economia”, justifica Ricardo Denadai, economista do Santander Asset Managment. Se o Comitê de Política Monetária (Copom) mantiver seu modus operandi, é grande a possibilidade de que os juros, em vez de cair, voltem mesmo a subir no ano que vem.

Juros elevados não apenas desestimulam o investimento como tendem a fortalecer ainda mais o real em relação às moedas estrangeiras. Trata-se de um nó que o próximo governo terá de desatar. O câmbio valorizado ajudou a segurar a inflação nos últimos anos, mas comprometeu a competitividade das exportações de bens manufaturados e fez disparar as importações. Em 2010, o País deverá fechar o ano com um déficit de aproximadamente 50 bilhões de dólares nas transações correntes com o exterior.

Em 2005, a indústria de transformação mantinha um superávit externo de 31,9 bilhões de dólares. Apenas cinco anos depois, a situação inverteu-se. A expectativa é de que o setor feche o ano com um rombo de 30,5 bilhões de dólares. Para muitos economistas, é um claro sinal de que o Brasil passa por um processo de “desindustrialização” e “reprimarização” da pauta de exportações. “Este é o grande risco de se manter a política atual”, afirma Lacerda. Segundo o acadêmico, o próximo governo terá de aumentar o leque e a sofisticação dos instrumentos destinados a conter a alta do real. Ele sustenta, contudo, que apenas uma redução nas taxas de juro abrirá espaço para que o real se desvalorize e aumente a competitividade da indústria no Brasil.

Mas como derrubar os juros, permitindo que o real se desvalorize, sem provocar inflação? “Este é o grande quebra-cabeça, a armadilha em que estamos presos”, afirma Kupfer. Para o economista, o BC perdeu uma chance única de mudar o equilíbrio entre juro e câmbio durante a recessão de 2009. “A gente poderia ter mudado o patamar dos juros e do câmbio sem comprometer a inflação, o que nos daria gordura para queimar na guerra cambial. Mas por um receio de desestabilização ou excesso de conservadorismo o Banco Central não aproveitou a oportunidade. Logo subiu os juros e permitiu que o câmbio se apreciasse.”

Para os economistas ortodoxos, o Brasil apenas desmonta a armadilha se reduzir os gastos públicos, desaquecendo a demanda e abrindo espaço para que os juros cedam. “É o único modo de segurar a inflação sem apelar para a âncora cambial, que não me parece o melhor caminho”, afirma Denadai. Contudo, mesmo os defensores da medida reconhecem que o espaço para cortes no custeio – e, consequentemente, seu impacto sobre a demanda – é limitado. “Não me parece que haja grandes desperdícios no Estado brasileiro”, afirma Samuel de Abreu Pessoa, chefe do Centro de Crescimento Econômico do Ibre. Segundo ele, apenas reformas institucionais poderiam abrir caminho para a uma redução expressiva dos gastos públicos.

De todo modo, é quase consensual a aposta de que o governo vai fazer um ajuste fiscal moderado nos próximos anos. A expectativa é que o governo volte a trabalhar com um superávit primário (a economia realizada para se pagar os juros da dívida) próximo de 3,5% nos próximos anos. Segundo analistas, é uma economia mais do que suficiente para se alcançar o objetivo de diminuir a dívida pública dos atuais 40% para 30% do PIB até 2014. “O próximo governo não vai cortar gastos de modo significativo, mas também não vai aumentar. O ciclo de expansão fiscal parece ter chegado ao limite”, afirma Kupfer, que não acredita no recrudescimento das pressões inflacionárias nos próximos dois anos.

Lacerda sustenta que a melhor maneira de se realizar um ajuste fiscal no Brasil é reduzir os juros, que custaram ao Brasil mais de 180 bilhões de reais nos últimos 12 meses. Ele observa que o déficit público brasileiro, perto de 2%, é baixo em relação à média mundial. “O custo de financiamento da dívida representa 5,5% do PIB. Se reduzirmos em 20% esse custo, o déficit nominal brasileiro cai pela metade.” O economista afirma, porém, que a decisão de cortar os juros depende de uma mudança na atuação do BC. “Não se pode tratar novos problemas com velhos paradigmas. O Banco Central não pode balizar sua expectativa de inflação para o ano com base em movimentos de curto prazo. Além disso, é preciso desindexar a economia, pois a indexação é incompatível com o modelo de metas de inflação.”