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Morte por Capes

por Thomaz Wood Jr. publicado 26/10/2010 11h14, última modificação 26/10/2010 11h14
Avaliações sobre a pesquisa científica em Administração no Brasil costumam chegar a uma triste conclusão: nossa produção é periférica e metodologicamente fraca

Avaliações sobre a pesquisa científica em Administração no Brasil costumam chegar a uma triste conclusão: nossa produção é periférica e metodologicamente fraca

A afirmação de que a pesquisa científica é essencial para o progresso material e para a melhora das condições de vida de um país é axiomática. As nações desenvolvidas criaram gigantescos aparatos, verdadeiras usinas de ideias, para identificar grandes questões, realizar estudos e gerar conhecimento e patentes. As nações em desenvolvimento correm em busca do tempo perdido.

As ciências contam hoje com sofisticados sistemas de pesquisa, compostos de laboratórios, eventos acadêmicos, agências de financiamento, publicações científicas e um exército bem formado de pesquisadores. O campo da Administração, ciência adolescente entre os pares mais maduros, vem se desenvolvendo rapidamente. Não lhe faltam fenômenos a explicar e questões práticas a resolver. Afinal, o mundo gira, a economia roda e as empresas mudam.

Aos olhos de um visitante estrangeiro, o campo da pesquisa científica em Administração no Brasil é pujante. Os programas de mestrado e doutorado contam-se às dezenas. Os eventos científicos reúnem centenas de convivas. Os periódicos especializados multiplicam-se. Os números são celebrados.

No entanto, o sucesso aparente não resiste a um exame crítico. Avaliações sobre o estado das coisas da pesquisa científica em Administração no Brasil costumam chegar a uma triste conclusão: nossa produção é periférica, pouco informada sobre os desenvolvimentos mais recentes do campo, metodologicamente fraca e traz modesta contribuição, se alguma, para o progresso da ciência e para a prática administrativa. Vejam-se os principais periódicos internacionais da área e lá serão encontrados representantes das mais diversas nacionalidades, mas raramente um brasileiro. E se um nativo houver, será um herói solitário ou um imigrante.

Em um texto veiculado no site Administradores.com, Paulo Prochno, professor da Universidade de Maryland, põe o dedo na ferida. Sob o título “O que há de errado com a área acadêmica de Administração no Brasil”, o pesquisador lista e analisa as patologias locais. Prochno acredita que o País tem alunos e professores com bom potencial, porém, eles frequentemente desperdiçam seu talento. Outras áreas no Brasil destacam-se internacionalmente. Outros países emergentes se destacam internacionalmente. Então, o que impede a área de Administração de ter maior presença internacional?

O primeiro entrave citado por Prochno é o famoso (no meio acadêmico) “jogo dos pontinhos da Capes”, uma patologia que pode ser fatal. O pesquisador refere-se ao sistema de avaliação de programas de pós-graduação mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O sistema, que é na verdade gerido por representantes dos próprios programas de pós-graduação, atribui pontos de acordo com as publicações realizadas pelos professores de cada programa. Para serem bem avaliados, os programas e seus professores precisam atingir certos patamares de pontuação.

Estabelece-se, assim, um sistema pretensamente racional, mas que na prática induz a quantidade em detrimento da qualidade. Preocupados com seus cargos, muitos professores preferem alvos fáceis – publicar em periódicos de segunda linha – a alvos difíceis – publicar em periódicos de primeira linha, que são os que realmente importam. Resultado: multiplicam-se irrelevâncias pseudoeruditas. Pior ainda: está se formando no País uma geração de burocratas da pesquisa, mais preocupados em gerar os “pontinhos” mencionados por Prochno do que em produzir conhecimento de valor. Estamos nutrindo um grupo frágil, cavernícola, incapaz de entender e explicar o mundo real. Nas escolas brasileiras, a sigla Capes, independentemente dos méritos da instituição, converteu-se em um ser mítico, usualmente citado para validar o status quo. Discute-se cada vez mais como conseguir os “pontinhos” e cada vez menos o que pesquisar e como pesquisar.

O debate convocado por Prochno não é novo ou apenas local. A irrelevância da área acadêmica de Administração tem sido alvo de avaliações críticas há bastante tempo e nos mais diversos rincões. A academia brasileira de Administração vem mudando, mas segue rumo e ritmo ditados por interesses próprios, alheia às necessidades do País e ao contexto internacional. A soma de duas doses de boas intenções com três doses de interesse próprio e uma dose de burocracia kafkiana está a perpetuar um sistema ineficaz e caro, que sobrevive iludido por índices fictícios de produtividade. Sistemas autogeridos, como se sabe, podem se tornar extremamente resistentes a mudanças. Resta aos pesquisadores locais a opção de se submeterem à lógica dos pontinhos ou procura-rem saídas pessoais, eventualmente por meio de um aeroporto, como fez o próprio Prochno.