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Economia

Mercado em guerra

Kindle Fire: o tablet que sabe seu próximo passo

por The Observer — publicado 04/10/2011 10h40, última modificação 04/10/2011 19h59
O anúncio feito por Jeff Bezos do ataque da Amazon ao mercado de tablets tem um detalhe a mais

Por John Naughton

Na quarta-feira 28 começou a guerra dos tablets. Até então, toda a conversa sobre o "mercado de tablets" era enganosa: essencialmente, tratava-se do mercado do iPad.

Depois de lançar em abril de 2010 um equipamento para o qual a maioria das pessoas achava que não houvesse um nicho definível, a Apple vendeu mais de 30 milhões desses produtos de consumo absurdamente caros, nos quais teria uma margem de lucros de 40%.

Havia outros tablets, a maioria dos quais ruim, com uma notável exceção - o Samsung Galaxy Tab. Mas até a última quarta-feira nada havia surgido que parecesse capaz de prejudicar a licença da Apple para imprimir dinheiro.
O desafiante surgiu de uma fonte esperada: a Amazon. Na quarta-feira, Jeff Bezos, o carismático fundador da empresa, revelou o Kindle Fire, sua primeira incursão no mercado de tablets.


Neste momento, os leitores não técnicos, segurando seus amados Kindles, poderão objetar que a Amazon está no mercado de tablets desde o lançamento do Kindle, em 2007. Mas o Kindle não é realmente um computador tablet no sentido que interessa - é um aplicativo de informação que cumpre bem uma função: receber e exibir livros eletrônicos, ou ebooks.

O Fire é diferente. Ele tem uma tela de toque colorida e pode passar vídeos, por exemplo. Mais importante, ele pode rodar aplicativos, tem um sistema operacional propriamente dito (uma versão customizada do Android da Google) e capacidade de rede sem fio. E vem com seu próprio navegador da web personalizado, chamado Silk (falarei mais sobre ele adiante). Ah, e custa US$ 199, menos da metade de um iPad2 básico, o que afinal poderá ser a coisa mais importante sobre ele.

O Fire só chegará às lojas nos Estados Unidos em 19 de novembro, e por isso teremos de esperar que os abutres tecnológicos que desmontam novos brinquedos façam seu serviço antes de conhecermos realmente seus prós e contras.

Mas meu palpite é que a Amazon o venderá com prejuízo, assim como fez com o primeiro Kindle. E isso salienta a diferença entre ela e a Apple. A Amazon ganha dinheiro com conteúdo - venda de livros, música, vídeos - e usa o Kindle como uma maneira de permitir a "compra suave" desse conteúdo. A Apple, em comparação, ganha a maior parte de seu dinheiro vendendo belos aparelhos com margens de lucro ultrajantes. Ela também vende conteúdo - lembre da loja iTunes -, mas as margens deste são significativamente menores que a do hardware.

É por isso que a guerra dos tablets apenas começou. A Amazon é praticamente a única que pode disputar os lucros da Apple. Ela tem vastas quantidades de conteúdo imediatamente disponíveis em sua "nuvem" na Internet, e um sistema de compras e entregas pelo menos tão ágil quanto o da Apple. Se acontecer de o tablet Fire ser realmente tão bom quanto a Amazon espera, e incentivar as pessoas a consumir conteúdo digital, então ela poderá continuar a vendê-lo abaixo do custo, desafiando a Apple a reduzir o preço do iPad e assim corroer seus lucros.

A perspectiva da futura batalha entre essas duas gigantes tecnológicas levou alguns analistas entusiásticos a declarar que, seja qual for a empresa vitoriosa, "o consumidor será o vencedor". Ah, é? A realidade é que tanto a Apple quanto a Amazon visam a mesma coisa: atrelar o consumidor ao seu sistema. A Apple fez isso através da iTunes e da App Store, o que garante que nada funcione em um equipamento Apple se não for aprovado pela companhia. A abordagem da Amazon é ligeiramente mais sutil. O Fire vem com apenas 8GB de memória, o que significa que a maior parte do conteúdo que seus usuários vão acessar virá da Cloud da Amazon. Nesse sentido, o Fire é o dispositivo em rede definitivo.

Mas existe outro detalhe. O Fire também vem com um navegador muito enxuto, que carrega as páginas mais depressa do que browsers rodando em PCs velozes. Tempos de carregamento de 100 milissegundos (ms) teriam sido reduzidos para 5 ms. Isto é obtido porque o processamento não é feito pelo Fire, mas pelas máquinas virtuais remotas que rodam na nuvem EC2 da Amazon, e por um armazenamento (caching) inteligente que captura previamente os links.

Segundo Jason Calacanis, um conhecido empresário da Internet, "isto significa que se você estiver no NYTimes.com eles têm em sua nuvem, e possivelmente já no seu equipamento, as próximas cinco páginas em que você vai clicar. Eles sabem disso porque as últimas cinco pessoas que acessaram a homepage do NYTimes.com abriram aquelas páginas.
"Esse tipo de serviço de caching tem uma tonelada de implicações para a privacidade, pois agora eles estão entre você e seu site pornô favorito... quero dizer, site de ativismo político! Não apenas eles têm todo o histórico das páginas que as pessoas estão abrindo, como têm as páginas em si."

A expressão "é fogo" está prestes a adquirir um significado totalmente novo com o Fire.

*Leia mais em http://www.guardian.co.uk/