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Julgamento das pessoas e interesses dos grupos

por Paulo Yokota — publicado 16/09/2014 09h10, última modificação 17/09/2014 09h19
É preciso aprender lidar com os grupos de interesse

Constatando as recentes e rápidas mudanças das posições de muitos agentes sobre as atuais preferências eleitorais, mesmo admitindo-se que prevaleça uma aspiração coletiva no Brasil por aperfeiçoamentos políticos, torna-se importante efetuar algumas reflexões sobre as possíveis causas que estariam determinando tais comportamentos. Na famosa London School of Economics há décadas ministram-se conhecimentos de antropologia organizacional que parecem úteis para que estas análises sejam organizadas, tanto nas empresas como nas atividades públicas.

Todos parecem saber que a antropologia ajudou sempre a constatar as culturas que acabam se consolidando desde os povos primitivos até aos grupos que se formam naturalmente em qualquer organização atual, sejam pequenas ou gigantescas. Os seres humanos costumam se agregar inclusive pelos interesses recíprocos de sobrevivência, ou até para obterem o que aspiram em comum.

A adequada compreensão destas realidades grupais comportamentais pode ajudar nos processos de fusão e incorporação de empresas, muito em voga no atual mundo globalizado. As diferentes culturas existentes nos diversos grupos das entidades que deverão aprender a atuar em conjunto ou no mínimo se suportarem, e na medida em que sejam sistematizadas adequadamente, podem facilitar neste processo de aglomeração. São comuns os casos em que eles não se misturam como água e óleo, não gerando as eficiências que eram esperadas.

Quando se trata de grandes organizações como as empresas estatais de um país mesmo que emergente, há que se admitir que existam grupos de interesses consolidados ao longo das suas histórias. Os mais hierarquizados nestas instituições, naturalmente, promovem as ascensões dos mais jovens que os auxiliam, na medida em que não se tornem seus concorrentes. É comum que estes grupos cheguem a se digladiar entre si na luta pelo poder em toda a organização.

Lamentavelmente, os interesses dos seus componentes que são considerados prioritários nem sempre coincidem com os nacionais ou coletivos, havendo até casos extremos que não sejam totalmente legítimos. Na medida em que estas situações não estejam submetidas às mudanças de tempos em tempos, tende-se a perpetuar situações não desejáveis, como muitos exemplos que vêm se constatando na China ou na Índia, como no Brasil.

Tendo em vista a permanência dos funcionários e de muitos dirigentes serem superior em tempo aos mandatos governamentais seus poderes tendem a se solidificar e até serem utilizados politicamente, tornando-se instrumentos partidários em alguns casos. Mas, também se observa que sucessores, para se consolidarem como poder, acabam negando até os que os indicaram.

Ainda que as metodologias utilizadas para a seleção de recursos humanos para estas organizações estejam se aperfeiçoando, existem também técnicas tradicionais que costumam ser úteis. Há pessoas treinadas para conhecerem as aspirações e a personalidade das pessoas, ainda que elas estejam bem disfarçadas. No Japão, por exemplo, muitas incompreensões ocorrem com as funções das gueixas por parte de estrangeiros pouco informados.

Elas são especialistas no rápido conhecimento dos seres humanos e do que os movem. Quando se encontra uma personalidade com quem se deseja negociar, muitos promovem jantares informais, quando conversam sobre assuntos que parecem banais, com a presença de gueixas. É comum nos dias seguintes pedir-se o diagnóstico delas, e muitas vezes se recebe o alerta sobre cuidados adicionais necessários, ou sinais positivos para prosseguir no aprofundamento dos contatos.

Muitos destes conhecimentos são acumulados por algumas pessoas com experiências variadas ao longo do tempo. Mas, há que se admitir também existir pessoas que contam com especial dom para estas percepções, enquanto outras acabam ficando conhecidas como dedos podres, pelas sucessivas escolhas inadequadas.

Seria interessante que fossem desenvolvidos mecanismos de checagem e balanços, que minimizassem as distorções em qualquer organização. Mas, como os seres humanos não costumam serem anjos, lamentavelmente, acaba se criando privilégios até nos setores nos quais a estabilidade é consagrada, para evitarem pressões político-partidárias.

Desde a Revolução Francesa vieram sendo consagradas as independências dos poderes Judiciários, Legislativos e Executivos, e foram sendo acrescentadas outras como do Ministério Público e de algumas agências reguladoras em diversos países. No entanto, no processo de aprendizado e aperfeiçoamento constantes, sempre acabam ocorrendo algumas distorções que exigem correções, como nos casos de domínio das agências pelos que deveriam ser controlados.