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Fome de lucro

por André Barrocal publicado 01/08/2013 14h07, última modificação 02/08/2013 09h53
O volume de crédito atinge níveis recordes. Mas o juro cobrado dos clientes continua responsável pela boa vida do sistema financeiro e um entrave ao desenvolvimento
Flickr / Benjamin Thompson
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Itaú, Bradesco e Santander já ganharam juntas 15 bilhões de reais, valor 50% acima do recente corte de gastos anunciado pelo governo

A temporada de divulgação dos balanços das empresas relativos ao primeiro semestre começou e mais uma vez os lucros bancários chamam a atenção. As três maiores instituições privadas - Itaú, Bradesco e Santander - já ganharam juntas 15 bilhões de reais, valor 50% acima do recente corte de gastos anunciado pelo governo. O volume de crédito no País atinge níveis recordes, de 55% do PIB, e explica parte dos lucros. Mas o juro cobrado dos clientes continua o grande responsável pela boa vida do sistema financeiro – e um entrave ao desenvolvimento econômico brasileiro.

A taxa média exigida das pessoas físicas está em 24% ao ano e a das empresas, em 14%, segundo dados divulgados na semana passada pelo Banco Central (BC). As cifras resultam de uma pesquisa ampla feita mensalmente com todas as instituições financeiras atuantes no País. Mas este poder do BC de monitorar todo o sistema mascara a gula dos grandes bancos. Um outro levantamento mensal com foco em instituições maiores e tradicionais - ou seja, naquelas com as quais trabalha a maioria das pessoas e empresas comuns - mostra uma situação bem pior.

Em junho, o juro médio cobrado das pessoas estava em 89% ao ano e o das empresas, em 44%, de acordo com a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). “No Brasil, a pessoa compra um produto pagando quase o dobro do preço que ele custa. Nos países emergentes, essa taxa é de 10% ao ano”, diz o economista Amir Khair, colunista de veículos de comunicação e secretário de finanças da prefeitura de São Paulo nos anos 90.

O quadro era ainda mais favorável ao bancos até 2010. No início de 2011, o governo decidiu forçar uma certa redução no patamar de ganhos do setor botando as instituições públicas para competir cobrando taxas menores. Até então, o juro médio medido pela Anefac estava na casa de 120% anuais para pessoas comuns e de 60% para as empresas. Por conta dessa intervenção estatal, em junho passado, os bancos públicos respondiam por mais da metade do crédito do País, o que não acontecia desde a privatização de instituições estaduais na década de 90.

Um estudo anual do BC sobre o setor bancário também é revelador da fome de lucro escondida nos juros. Quando se decompõe a taxa para saber qual destino o banco emprestador dá ao que o cliente paga de volta, vê-se que o item “margem de lucro” é campeão. Pelo último estudo, de dezembro de 2012, 40% da taxa virava lucro limpo. Os impostos comiam 25% da taxa, a precaução contra calote ficava com 22% e o resto ia para encargos menores.

Apesar de ter ocorrido certa recalibragem no nível de juro, o ainda alto patamar atrapalha o Brasil, segundo Khair. Sobretudo depois de dois anos de crescimento pífio e da perspectiva de um 2013 igual. O consumo popular, diz, foi o motor do PIB nos últimos anos, mas está com poder de fogo limitado pelo juro alto. Se as pessoas pagassem taxas menores, comprometeriam uma parte menor da renda e poderiam gastar mais. “O endividamento das famílias é alto porque o juro é alto”, afirma. “O empresário que investe quer ter a perspectiva de que o produto dele será consumido.”

Ao defender o apoio ao consumo, o economista se coloca na contramão da maioria dos colegas ouvidos pela mídia e até de integrantes do governo, para quem o investimento deveria agora ser a locomotiva.

Em entrevista recente a CartaCapital, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o governo busca um meio termo. Daí estar incentivando, por exemplo, o investimento privado em obras de infraestrutura por meio de um pacote de transferência de bens públicos a empresas. “Apostar no investimento é um conto de fadas. O governo tem muita dificuldade para realizar investimentos, é um processo muito burocratizado. E o investimento das empresas também não é rapido”, diz Khair.

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