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Foi sem querer...

por Thomaz Wood Jr. publicado 06/04/2011 16h33, última modificação 06/04/2011 16h33
O documentário Trabalho Interno denuncia o excesso de irregularidades dos grandes bancos americanos que levou à crise de 2008.

A estreia brasileira do documentário Trabalho Interno, dirigido por Charles Ferguson, nos convida a remoer as tristes memórias da mais recente crise financeira global. O diretor norte-americano mostra, conforme registrou Rosane Pavam na edição de 16 de março de CartaCapital, a ação predatória de “executivos viciados em todo tipo de abuso, (...) criminosamente ricos em razão da especulação sem freio”.

No fim de 2008, a falta de liquidez no sistema bancário norte-americano derrubou o mercado de ações, provocou o colapso de grandes instituições financeiras e levou o governo a ações emergenciais de socorro, para evitar um colapso ainda maior. Ondas de choque varreram o planeta e efeitos colaterais nefastos foram sentidos em todas as altitudes. Passados mais do que dois anos, o prejuízo continua sendo contabilizado.

Embora, como toda grande crise sistêmica, esta também tenha tido múltiplas causas e condicionantes, estabeleceu-se certo consenso de que entre as suas principais raízes estavam a ganância e as práticas fraudulentas de alguns banqueiros, e falhas no sistema de regulamentação da atividade financeira.

Em um artigo publicado no final de 2010 pela revista científica Organization, Owen Hargie e Karyn Stapleton, da Universidade de Ulster, na Irlanda do Norte, e Dennis Tourish, da Universidade de Kent, no Reino Unido, apresentam uma análise dos depoimentos de quatro presidentes de instituições financeiras a um comitê de investigação do Parlamento do Reino Unido. Objetivo: analisar as chamadas “estratégias discursivas” dos banqueiros, diante da catástrofe fartamente documentada.

Os pesquisadores informam que, logo na abertura dos trabalhos, o presidente do comitê solicitou, explicitamente e repetidamente, aos depoentes, a aceitação da responsabilidade pelos trágicos eventos e pelas consequências de suas ações. Fleumáticos, os quatro banqueiros evitaram se desculpar diretamente por suas- ações, recusando-se firmemente a aceitar a responsabilidade pela tragédia. Segundo eles próprios, não haviam feito nada de errado. E comprovaram sua imaculada índole e bom coração ao expressar, inequivocamente, seus sentimentos de pesar e sua solidariedade em relação a todos que sofreram com a crise.

Lord Stevenson, um dos banqueiros, declarou-se profundamente triste com o desenrolar dos acontecimentos. Seus colegas, Mister Andy Hornby, Sir Tom McKillop e Sir Fred Goodwin, expressaram-se de forma similar, reconhecendo as pesadas perdas impingidas a acionistas e cidadãos pagadores de impostos. Deduz-se que não tiveram qualquer relação com os fatores desencadeadores da crise, mas que assim mesmo se sentiram profundamente tristes com a situação. Além disso, situaram-se eles próprios, e seus colegas banqueiros, como vítimas da adversidade. Afinal, todos ficaram à mercê de eventos sobre os quais não tinham qualquer controle.

Arguido diretamente sobre os efeitos da crise sobre o cidadão comum, Sir Goodwin, declarou prontamente que a crise “afetou a todos nós”. Dessa forma, deixou claro que ele e seus colegas não poderiam ser vistos se não como vítimas da situação, como qualquer homem comum, embora, pode-se afirmar, tenham alguns dólares (ou libras) a mais do que o homem comum.

Altos executivos comumente se tornam verdadeiros acrobatas da linguagem, usando com destemor e criatividade estratégias evasivas de comunicação. Seus sentimentos de pesar são sempre expressos no plural, de forma a evitar a aceitação de responsabilidade individual. Tais artimanhas visam livrá-los de responsabilidades e posicioná-los como vítimas dos acontecimentos.

Tais executivos constituem a face pública de suas organizações. Ao assumir postos de maior destaque, eles devem se transformar prontamente em atores, capazes de enfrentar crises e defender, a todo custo,- a boa reputação da empresa. Uma vez no palco, os atores precisam representar um papel. Em certas situações, é preferível parecer um canastrão do que assumir a vilania. No terreno minado de uma grande crise econômica ou de um desastre ecológico, os atores estudam cada movimento e se movem com toda a cautela. Uma declaração desastrada ou simplesmente insensível, feita por um executivo mal preparado, pode abreviar sua carreira e derrubar as ações de sua empresa.

Poderia ser diferente? O que ocorreria se, por um milagre, desaparecessem todas as assessorias de imprensa e sumissem do mapa todos os spin doctors? O que aconteceria se banqueiros e outros executivos perdessem a máscara e passassem a dizer a verdade, nada mais do que a verdade? Provavelmente, nunca descobriremos, mas a hipótese é divertida, não? •