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Fiesp selvagem

por Celso Marcondes — publicado 16/01/2009 17h15, última modificação 23/08/2010 17h17
Capitalismo selvagem é triste. Há alguns meses as montadoras comemoravam recordes de produção e o alcance de marcas inéditas. Fábricas trabalhando em três turnos, 24 horas por dia. Férias suspensas, finais de semana a todo vapor. Crédito a perder de vista, muito dinheiro entrando, filas de espera para retirar carros e caminhões, avenidas cada vez mais entupidas.

Capitalismo selvagem é triste. Há alguns meses as montadoras comemoravam recordes de produção e o alcance de marcas inéditas. Fábricas trabalhando em três turnos, 24 horas por dia. Férias suspensas, finais de semana a todo vapor. Crédito a perder de vista, muito dinheiro entrando, filas de espera para retirar carros e caminhões, avenidas cada vez mais entupidas.

Daí o drama de Wall Street começou a bater por aqui. Choros, apelos, caminhadas à Brasília. O governo cedeu, o IPI sumiu. Resultado: dezembro feliz, promoções, muitas promoções, mercado quente.

Chegou janeiro. Quente e chuvoso na capital paulista. Voltou o chororô. Desta vez, de toda a indústria paulista. Mal chegamos ao meio do mês, muito empresário ainda nas suas casas de praia. Mas a FIESP já veio à luta. Seu Conselho Superior Estratégico, reunindo 33 dirigentes das maiores empresas do País, já unificou o discurso e colocou a boca no clarinete. Querem liberdade para cortar jornada de trabalho e, naturalmente, salários. Sem dar nenhuma garantia de emprego.

Além dos empresários da indústria automobilística, fazem coro aqueles da Vale, da Embraer, da Ambev, da Siemens, da Votorantim, da Telefonica, da Unipar, dos Moinhos Pacífico, do Grupo Martins (pesquisando, descubro que é um grupo atacadista peso-pesado). Todos querem o direito de pagar menos.
Não lembro tal unidade do tempo das vacas gordas para pagar mais. Há um ano, tudo estava bem.

Gozado, que para mim também. Mas meu pai me ensinou a não gastar tudo quando as coisas vão bem. Uma parte do salário foi para a poupança, outro para fundos. Outra, pequena, cresceu e desabou na Bolsa logo depois. A partir de setembro comecei a botar o pé no freio, ir mais devagar com as despesas e a não me aventurar profissionalmente.

Resisti aos apelos do presidente Lula e não gastei muito nas festas natalinas. Coisa de quem ruma em direção à terceira idade e não nasceu em berço de ouro, nem de prata. Paguei todos meus impostos em dia, ainda hoje morri com o IPVA da minha viatura. Não despedi a senhora que trabalha em casa, paguei seu décimo - terceiro e mantive suas férias, uma sonhada visita ao interior da Bahia para visitar a mãe. Leio os jornais todos os dias, trabalho numa revista semanal, cercado de economistas respeitados.

Sei que a crise é brava lá fora e que já deu as caras aqui dentro. O momento é de cautela, mas apesar do Meirelles preferir honrar seus compromissos com meia-dúzia de banqueiros, em detrimento de todos os demais brasileiros, apesar dele e dos seus juros estratosféricos, não entro em desespero. Não dou ouvidos para boatos alarmantes, parei de ler e ouvir os colegas ávidos por sangue.

Para ser franco e direto: a crise ainda não bateu lá em casa. Mas conheço gente que já foi atingida ou tem razões para ter mais medo do futuro. Conheço também gente que, como eu, continua tranquila. Outro dia vi os dados de uma pesquisa internacional que colocava os brasileiros entre os mais otimistas do mundo diante da crise. A pesquisa também mostrava que, aqui, os mais otimistas eram os mais pobres. Quanto mais rico, mais preocupado. Aparentemente estranho, não é? Quem mais tem, mais esquenta. Quem menos tem, menos perde o sono. Alguém poderia dizer que são mais desinformados ou os que não têm nada a perder, mas outro alguém poderia dizer que os mais preocupados são mais gananciosos.

A grita da Fiesp parece dar razão a este último. Como entender tamanha e tão rápida união para ganhar o direito de reduzir salários? Todos os setores que se reuniram na Avenida Paulista estão igualmente abalados pela tal da crise? Aviões e bebidas? Cimento e telefonia? Siderurgia e alimentos? Todos querendo cortar a fonte de renda de milhares de trabalhadores e sem dar garantia de emprego?

Quando, incauto, pergunto para onde foi o dinheiro ganho nos tempos de fartura, me explicam que não devo confundir os cofres das empresas com o cofrão do Tio Patinhas. Dinheiro que entrou a rodo no passado recente, não estaria mais no cofre, nem na poupança, para segurar a onda agora. Este dinheiro teria ido para as matrizes no exterior, para investimentos outros – parte perdido nas jogatinas na Bolsa -, para pagar os pró-labores e as participações nos lucros dos executivos e para lugares mais secretos. De qualquer modo, para pagar os empregados nos momentos de menor produção, eles dizem que não dá. Mal chegaram do réveillon no resort, querem carta branca para demitir. Todos eles. Reuniram-se, proclamaram sua decisão, foram almoçar no Massimo ou no Fasano. A conta será paga por suas empresas.

Eles vão botar o pé no acelerador das demissões, consideram-se todos “afetados pela crise”. Igualmente. Pode cair o Meirelles, podem cair os juros na próxima reunião do Copom. A engrenagem já está em movimento. Feroz. Paulo Skaff nunca falou tão duro (e nunca pareceu tanto em comerciais e noticiários na TV). O solitário ministro Lupi que se cuide. As centrais sindicais que se armem. Desta vez, o ano no Brasil não começou depois do Carnaval.