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'Só educação salva'

Desigualdade regional em xeque

por Celso Calheiros, de Recife — publicado 22/09/2011 15h23, última modificação 23/09/2011 10h53
Para Alexandre Barros, investimentos industriais oferecem vantagens a quem já tem recursos, o que 'eterniza' desigualdades

Depois de estudar o crescimento econômico por 30 anos e ver sua análise se afastar do pensamento corrente, o professor de macroeconomia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Alexandre Rands Barros resolveu condensar suas ideias em um livro. Barros utiliza as 336 páginas de “Desigualdades regionais no Brasil – natureza, causas, origens e soluções” (Elsevier Campus, 2011) para derrubar, uma a uma, as bases que sustentam o estruturalismo. A corrente econômica, que teve em Celso Furtado sua principal referência, ainda hoje está nas ideias da maioria dos administradores públicos brasileiros, todos ávidos em atrair investimentos industriais para movimentar a economia. Mas é criticada pelo autor: “Ela oferece vantagens a quem já possui recursos, em nome de desigualdades que eterniza”. O único caminho para o combate à desigualdade é a educação, prega esse economista de 48 anos, com doutorado pela Illinois University (EUA), com orientação do professor Werner Baer, que também orientou Alexandre Tombini, presidente do Banco Central.

A receita é simples, sua implantação não é fácil e seus resultados são demorados, estima em “coisa de 50 a 100 anos” para que regiões como o Nordeste modifiquem seus dados relativos. Desde 1960, o PIB per capita do Nordeste equivale a 47% do PIB per capita nacional – hoje é 35,3% do indicador relativo da região Sudeste.  Barros falou a Carta Capital no escritório da sua empresa de consultoria, a Datamétrica, no centro histórico do Recife.

CartaCapital: Seu livro coloca a visão estruturalista de cabeça para baixo. Onde Celso Furtado errou?

Alexandre Rands Barros: O Celso Furtado trabalhou com a hipótese de que algumas regiões têm escassez de capital. Sem capital, essas regiões ficavam para trás, se especializavam na produção e exportação de bens primários, que têm pouco desenvolvimento de produtividade, pouca tecnologia. Por isso, essas regiões tinham baixo crescimento. Os estruturalistas supõem que a mão de obra se ajusta com a chegada do capital. Eles raciocinam que, ao se colocar uma indústria em um local, ela vai qualificar a mão de obra de que necessita. Eu inverto essa lógica. Eu acredito que a formação do capital humano não funciona. O capital e a produção se resolvem, não são necessárias grandes políticas para eles. Agora, o capital humano precisa de grandes atenções. As pessoas precisam de educação. Com uma população educada, os investimentos vêm naturalmente.

CC: A industrialização não é responsável pelo crescimento da região com a oferta de empregos e fazendo a economia girar?

ARB: A economia vai girar e vai reproduzir da mesma lógica por demandas de capital humano que tem hoje. Foi o que aconteceu com a Bahia. Depois da instalação do pólo petroquímico em Camaçari, da refinaria de petróleo e de indústria automobilística, pouco mudou no PIB per capita. A Bahia tinha um PIB per capita que representava, digamos, 52% do Brasil e, depois de um investimento brutal, exorbitante saiu de 52% para 54%. É preciso primeiro melhorar a educação na sociedade. Depois disso, você vai definir as especializações da economia. E exportação de bens primários não impede crescimento. Por exemplo: a Noruega é produtora de bens primários (petróleo e pesca), e se transformou em uma das maiores rendas per capita do mundo. A Austrália é um país especializado em exportar algodão, grãos e pecuária, e é um dos países mais ricos do mundo. O Brasil, a Argentina e o México são países mais industrializados e não ficaram desenvolvidos.

CC: Qual a natureza das nossas desigualdades?

ARB: As desigualdades hoje são explicadas apenas pela educação. A composição da população no Nordeste é diferente do Sudeste em se tratando de educação. Eles têm mais gente educada do que a gente. A natureza das desigualdades não se explica por infra-estrutura ou escala produtiva. É pela educação.

CC: Quais as origens dessas desigualdades?

ARB: As características do processo de colonização do Brasil. O Nordeste foi colonizado primeiro, no século XVII, com a atividade agrícola. Nossa colonização teve como base os índios e os africanos, todos escravizados e com pouca formação. A colonização do Sudeste foi mais intensa no século XVIII, com a mineração, uma atividade que atraiu europeus, povo com mais formação. O Sudeste também teve escravos, mas a proporção foi menor. O entorno da mineração ajudou a criar as cidades. Com a chegada da família real portuguesa, com mais de 15 mil pessoas com formação, o Sudeste começa a prosperar de forma desigual.

CC: A forma como fomos colonizados gerou as desigualdades?

ARB: Discordo de Gilberto Freyre quando ele classifica o português como bom colonizador. Gilberto Freyre é quase um tarado ao considerar o português bom colonizador porque mantinha relações com a escrava negra. O português manteve seus colonizados na ignorância, não tinha uma política social. Melhor fez o inglês, que não se misturava, mas oferecia ao escravo o direito à educação.

CC: Por que as desigualdades vêm se perpetuando?

ARB: É uma questão de herança. As desigualdades em educação em duas famílias tendem a se reproduzir. As famílias que têm mais educação vão tender a ter mais educação sempre. As famílias com baixa escolaridade vão tender a se manter assim.

CC: Os custos para se investir em educação de forma mais intensiva não são elevados?

ARB: O problema não está nos recursos. Quando se monta o orçamento, o que se faz? Aloca-se dinheiro para subsidiar empresários, somas para se reduzir as taxas de juros do Banco do Nordeste. Como nada muda, a explicação é que os recursos foram insuficientes. Advogo que a única política que dá certo é o investimento em educação. Vamos ver quanto se gasta em política de combate à desigualdade regional e vamos transferir para educação. Seguramente o resultado será melhor do que dar dinheiro para empresário.

CC: Se é tão direto, por que essa ideia não foi aplicada?

ARB: Se um político chega para mim e pergunta pela solução para o Nordeste e eu falo o óbvio, educar a população, ele vai pensar que não tenho nada a dizer. Se eu vier com um plano macabro, que não tem chance de dar resultado, aí o cara presta atenção.

CC: Como explicar o desenvolvimento da China, um país industrial?

ARB: A China não é exemplo de desenvolvimento relativo. O PIB per capita da China é menor do que o PIB per capita do Brasil. Não vamos confundir o absoluto com o relativo. A China é um país que oferece boas perspectivas para sua população, mas a maioria tem um padrão de vida muito baixo. Agora, a China também tem muita gente educada. Eles criaram enclaves de pessoas educadas, nas grandes cidades. Nos EUA, vi departamentos e mais completamente totalmente dominados por chineses. A China faz em educação o que ninguém faz.

CC: Então a nossa política de aumentar o número de estudantes com bolsas de estudos no exterior é tímida, em comparação com a política da China?

ARB: Sempre tivemos uma política tímida, mas a ideia do governo brasileiro é sair de 25 mil estudantes estudando no exterior para 75 mil é muito boa. Se a presidenta Dilma Rousseff conseguir fazer isso, ela vai dar uma grande contribuição para o desenvolvimento brasileiro.

CC: O investimento em educação tem de ser assimétrico para se combater a desigualdade?

ARB: O Nordeste hoje investe, por aluno em escola pública, muito menos do que o Sudeste. Dessa forma vamos aumentar as desigualdades. Temos que investir mais. Os orçamentos em educação dos estados deveriam ser complementados até atingir os mesmos patamares dos gastos em São Paulo. E também deveria ser criada uma série de sistemas de incentivos que associem benefícios a desempenho dos professores, das escolas e dos alunos, como forma de acelerar o processo de convergência do crescimento.