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Análise

E o BC tinha razão

por André Siqueira — publicado 16/11/2011 16h41, última modificação 06/06/2015 18h15
O alívio aos empréstimos bancários é sinal de que a queda na taxa de juro não só era necessária como pode ter chegado tarde

Não há tarefa mais inglória, no manejo da política econômica, do que adotar medidas que vão contra as tendências naturais do mercado. Só que alguém tem de fazer esse “serviço sujo”, que tanto incomoda os pregadores da economia sem rédeas. Menos de um ano depois de apertar as regras para a concessão de crédito, o Banco Central anuncia o afrouxamento das exigências de capital aos bancos que realizarem empréstimos de prazo não muito longo. O desmonte das chamadas medidas macroprudenciais vem na sequência de uma inversão na trajetória da taxa básica de juro, que passou diretamente da alta para a queda. E a verdade é que, em que pesem as críticas ao “radicalismo” na nova orientação do BC, talvez essa reação tenha sido tardia para evitar a forte desaceleração no crescimento do PIB.

Parece um passado distante, mas foi no início deste ano que a inflação voltou a ganhar as manchetes dos jornais. A mídia não via, ou fingia não ver, que a alta dos preços era um fenômeno mundial, e ofereceu palco ao coro de analistas que, faça chuva ou faça sol, apela à panaceia da elevação do juro para conter a economia. Passou batido também o alerta de que os índices acumulados em 12 meses começariam a ceder, por um efeito um efeito meramente estatístico, a partir do terceiro trimestre.

Sob a forte pressão, o BC iniciou, ainda em janeiro, um ciclo de aperto dos juros. Até julho, a taxa Selic subiu 1,75 pontos percentuais, de 10,75% (em dezembro de 2010) para 12,50% ao ano. Mantivemos, com louvor, nossas posições no ranking de juros mais altos do planeta, mesmo em meio ao agravamento da crise nas economias periféricas da Zona do Euro. Tal anomalia deu impulso à enxurrada de dólares para o País, levando o real a uma valorização sem precedentes.

Iniciativas do governo ajudaram, sem dúvida, a evitar um desequilíbrio cambial ainda maior. Mas, como não é possível enxergar um futuro hipotético (assim como é difícil saber se um paciente estaria mais doente se não utilizasse um remédio paliativo), as medidas viraram alvo dos ataques de quem deixou de ganhar dinheiro fácil ao apostar na valorização do real.

O mesmo dilema fez parte da história das medidas macroprudenciais. Ao restringir prazos de empréstimos e exigir mais cautela dos bancos, ainda em dezembro do ano passado, o BC colocou água no chope da festa do crédito. Embora tenham, de fato, desacelerado o ritmo das concessões, as regras foram acusadas de engessar o mercado e de serem pouco efetivas. Os analistas chegaram ao cúmulo (e fontes do BC confirmam isso) de elevar suas previsões de inflação porque não conseguiam inserir em suas planilhas o efeito das medidas.

A estratégia foi desenhada para uma economia que, até então, seguia em franco aquecimento. Como atuavam no sentido contrário ao do ciclo econômico (ou contra-cíclico, no jargão), sofriam toda a sorte de críticas. Mas estavam lá, e agora o BC tem de correr para desarmá-las. Quando os ventos viram, como já viraram, as iniciativas se tornam pró-cíclicas, o que significa que passam a ter uma força muito maior, porque seguem na direção da correnteza.

Levou algum tempo para os indicadores econômicos tornarem inequívoco o desaquecimento da atividade produtiva. A desvalorização do real, que aconteceu quando o mercado percebeu que a situação europeia era insustentável e a crise iria bater feio, fez estragos nos balanços das grandes companhias brasileiras. A inflação, embora os arautos do fim do mundo continuem a considerar elevada demais, segue em linha com a dos demais países que adotam o regime de metas: um levantamento do Bradesco, divulgado pelo Valor Econômico, aponta estouro da meta em 23 das 27 economias que seguem esse sistema.

Deprimir ainda mais uma economia já debilitada não vai, definitivamente, resolver o problema dos preços. Resta torcer para que, mais uma vez, o BC tenha conseguido se antecipar aos fatos, sem ouvir demais as “vozes do mercado”, de modo soltar o laço a tempo.