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Dilma, o PT e o campo

por Rui Daher publicado 07/08/2015 10h49
Cadê a capa das principais revistas semanais relatando que, na safra 2014/15, os bancos emprestaram para custeio cerca de R$ 20 bilhões para apenas 5 mil contratantes?
Roberto Stuckert Filho/PR (02/06/2015)
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A presidenta Dilma Rousseff durante lançamento de programa de financiamento, no Planalto

Passei a semana inteira em Andanças Capitais junto a produtores agrícolas. Visitei cafezais, criações de vacas leiteiras e um alambique de cachaça, com melaço e rapadura.

Uma gente esquisita para urbanoides que desconhecem trabalhos felizes. Chinelo de dedo ou botina, boné com um pano na nuca para não queimar com o sol, que os faz parecer da Legião Estrangeira. Nada, brasileiros, campesinos, caboclos, sertanejos, sem se queixar de suas realizações, e confessando que muita coisa melhorou.

Citam feitos aquisitivos para a lavoura, escolas para os filhos, postos de saúde com médicos, programas de financiamento da agricultura familiar.

Quando ganham um ar de gravidade e preocupação, o visitante nota em seus olhos os reflexos dos de William e Renata, no Jornal Nacional, da TV Globo, este Repórter Esso plastificado, que todos assistem e onde se informam. Do magnata maior até a senhora paneleira.

É quando lançam a primeira queixa. De suas bocas saem dois nomes mencionados com evidente temor: Dilma e PT. “E essa crise agora”?

Nunca duvidei que Dilma seria o rito de passagem para a volta ao poder de quem nunca deixou de tê-lo. Na democracia ou na ditadura. Ao ganhar com pequena margem a reeleição, contra adversário dos mais fraquinhos, avivou os contras. Destruída Dilma, o risco Lula 2018 estaria afastado.

Nada de complexar o pensamento, como tenho visto aqui e acolá. A análise pode ser rasa. Até mesmo o Pires, personagem de rara profundidade, poderia fazê-la.

Erros na condução da política econômica? Sim. Corrupção desabrida? Sem dúvida, embora não inédita e nunca investigada. Ficou fácil o conluio Legislativo, Judiciário e mídia para fazer da Lava Jato o motivo para brecar os planos econômicos federais e reviver o ódio atávico das elites ao PT. Pronto, a brecha há 12 anos e meio esperada.

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Kátia Abreu, ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (foto: Elza Fiúza/ Agência Brasil)
Por onde andei? Pertinho: estados de São Paulo e Minas Gerais. São José do Rio Pardo, Guaxupé, Nova Horizonte e seu distrito, Petúnia, São Sebastião da Grama, Mogi-Guaçu, Campinas, Piracicaba, Piedade.

Conversei sobre agricultura, tecnologia, como reduzir os custos tirando menos dinheiro do bolso para entregar às multinacionais, que através de comissões fazem os técnicos das cooperativas indicar o de sempre.

Dou exemplo: na cultura cafeeira, tratamentos com insumos que custam R$ 900 por hectare e resultam na mesma ou maior produtividade são ignorados por outros quatro vezes mais caros indicados pela tradição. Se, lá na frente, o preço do café cair em Nova York, estão danados e sem ponto de retorno. Vendem algum bem para pagar ou dão o cano.

Pensam que o sojicultor ousa, mesmo com os grãos em queda? Poucos. Os demais citarão, preocupados e desmotivados, a Dilma, o PT, a corrupção alheia, enfim, fenômenos brasileiros, jabuticabas de fina espécie, iniciados em 2003.

Uai – ah, esta influência mineira que já aprendeu a respeitar a minha diabetes e não me serve mais café-melaço quando visito suas casas – e o agronegócio no Brasil?

Escrevi Brasil? Enganei-me. Há muitos anos me refiro à esta pátria de chuteiras despedaçadas como uma Federação de Corporações, construída sobre um acordo secular de elites, ora servido pelas Forças Armadas ora pelos poderes Legislativo e Judiciário com as folhas e telas cotidianas. Quando não de todos juntos.

Querem exemplos de corporativismo?

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) quer terceirizar parte do serviço de inspeção agropecuária. Quem mexe com o assunto sabe da demora, ineficiência, do quadro de pessoal reduzido, trabalhando a passos paquidérmicos.

O sindicato dos fiscais resolveu entrar na Justiça Federal com uma ação contra a União para anular as normas de simplificação que atendiam pequenas agroindústrias e agricultores familiares. Esta notícia não chegou ao público pelos lábios de William e Renata, sempre focados em Dirceu sem sua Marília.

Mais um?

Grandes produtores de grãos e empresas assim constituídas, vocalizados por consultores econométricos, temem que o limite de R$ 1,2 milhão do financiamento em taxas de crédito rural e o saldo a taxas de mercado, os inviabilize.

Perguntei a quatro gerentes de banco em agências do interior, dois públicos e dois privados. Confirmaram que assim será, mas aduziram que a procura é enorme e mesmo as taxas livres são infinitamente menores do que as pagas pelos demais setores da economia.

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Cerimônia do Plano Safra da Agricultura Familiar (foto: Roberto Stuckert Filho de 22/06/2015)

Incorporemo-nos, pois. Basta ver a aceleração na compra de terras nas novas fronteiras agrícolas agora que os ativos imobilizados caíram de preço.

Seguindo. Cadê a capa das principais revistas semanais relatando que, na safra 2014/15, os bancos emprestaram para custeio cerca de R$ 20 bilhões para apenas 5 mil contratantes? Segundo o IBGE, temos mais de 5 milhões de propriedades agropecuárias na Federação de Corporações.

Em 30 de julho, a Folha de São Paulo saiu com um caderno especial “O Brasil que dá certo: agronegócio”. Pouco mais tarde, o Valor Setorial, animava a festa na capa da revista “Mais eficiência: tecnologia ajuda campo a enfrentar incertezas do mercado”. Ambos com potentes anunciantes.

Se é assim, por que destruir um país em lutas pelo Poder, como se faz agora? Sangrentas ou não, batalhas assim já levaram à ruina muitas nações. Reconstruções, ainda mais na fase atual do capitalismo, são quase impossíveis.

Dileto amigo, oposicionista e historicamente contra o PT, escreve o seguinte trecho para um deputado de seu partido:

“Acho certo dar um corretivo na Dilma, mas em mim e em todo povo brasileiro eu não acho certo nem justo. Não tenho nada a ver com a situação moral desse tal Cunha e colegas seus aí do Congresso que, achando que vão ganhar tempo, quebrarão o Brasil (...) Uma coisa é tirar Dilma, outra é nos liquidar para conseguir isso”.

Acrescento: nem precisam ou devem tirar Dilma. Arrumem um bom candidato, desenhem um plano de governo decente para horizontes diversos, aguardem debatendo ideias, e vençam a próxima eleição.

Como se faz nas democracias estáveis e desenvolvidas.        

 

*Rui Daher é colunista de CartaCapital e criador da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.