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Desafio da Petrobras agora é aumentar a transparência

por Deutsche Welle publicado 23/04/2015 10h24, última modificação 23/04/2015 17h56
Balanço auditado indica R$ 6,2 bilhões em desvios por corrupção e prejuízo de mais de 21 bilhões
Agência Petrobras
Petrobras

Demonstração contábil de 2014 apresentada pela presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, nesta quarta-feira 22

Por Karina Gomes

A divulgação atrasada do balanço contábil da Petrobras nesta quarta-feira 22 foi um bom sinal para o mercado, mas a recuperação da empresa não depende apenas de boa contabilidade. Segundo analistas financeiros ouvidos pela DW Brasil, o principal desafio agora é manter a transparência nas operações de investimento.

O documento, que tem o aval da auditoria PricewaterhouseCoopers (PwC), mostra que a estatal teve um prejuízo de 21,6 bilhões de reais no ano de 2014, a primeira perda anual desde 1991. O resultado é praticamente inverso ao de 2013, quando a Petrobras registrou lucro de 23,6 bilhões de reais.

O escândalo de corrupção revelado pela operação Lava Jato resultou no desvio de 6,2 bilhões de reais no período entre 2004 e 2012. O cálculo foi baseado nas investigações do Ministério Público Federal, principalmente nos depoimentos em delação premiada de executivos que participaram do esquema.

Ver os números finalmente no papel tem um resultado positivo, avalia Miguel Daoud, diretor da Global Financial Advisor. "A Petrobras deu uma satisfação ao mercado. O valor do desvio pode ser maior", especula, "mas a divulgação desses números já é um bom sinal."

Além de corrupção, problemas de planejamento e baixa no preço internacional do petróleo, as perdas da empresa foram puxadas pela desvalorização dos ativos, calculada em 44 bilhões de reais.

"Fomos conservadores nos números ligados à corrupção para dar ênfase à recuperação de todos os desvios praticados no passado", afirmou o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, durante a divulgação dos resultados na sede da companhia, no Rio de Janeiro.

O prejuízo é 50% menor do que o divulgado no balanço não auditado de janeiro, que culminou na demissão da ex-presidente da estatal Graça Foster. Em novembro, o dinhero desviado em propina havia sido lançado indevidamente como investimento, o que levou a auditoria a se recusar a aprovar o balanço.

Diante dos resultados divulgados nesta quarta-feira, a Petrobras anunciou que não vai pagar dividendos – a parte dos lucros que é distribuída aos acionistas – este ano.

"Num primeiro momento, isso é negativo, porque a empresa gerou um prejuízo contábil e não vai pagar os dividendos", avalia o analista Flávio Conde, da Gradual Investimentos. "Alguns acionistas vão se assustar com os valores e vender as ações rapidamente", prevê.

Por outro lado, a reavaliação dos ativos tem um lado positivo, observa Conde: a empresa limpa um passado de grandes projetos de eficiência duvidosa, gastos desnecessários e corrupção e, "com tudo esclarecido", deve voltar a ter lucros.

"Muitos investidores de médio prazo devem pensar que o pior já passou e que a empresa vai voltar a andar na linha com projetos mais rentáveis, menos investimentos e redução de dívidas", afirma.

A decisão de não pagar os dividendos foi tomada para preservar o caixa da companhia, que fechou 2014 com 68,9 bilhões de reais. Também foram cancelados os investimentos nas refinarias do Comperj, no Rio de Janeiro, e Abreu e Lima, em Pernambuco, embora a empresa não descarte retomar esses investimentos no futuro.

De acordo com o relatório, a dívida líquida da Petrobras passou de 282 bilhões de reais. O endividamento total da companhia foi de 351 bilhões de reais, 31% a mais do que no ano anterior.

Para Daoud, a Petrobras cumpriu a obrigação que tinha com seus acionistas de divulgar o balanço auditado. Mesmo assim, a situação não muda muito na prática.

"A companhia tem um alto nível de endividamento e não tem selo de bom pagador. Muitas ações correm na justiça", afirma. "O recado para os investidores é que a Petrobras ainda tem problemas e que o balanço não soluciona todas as questões."

Com a divulgação do balanço, porém, o risco de antecipação das dívidas, principalmente de credores dos Estados Unidos, fica afastado. Bendine destacou que processos judiciais contra a companhia nos EUA estão em estágio inicial e que a Petrobras tentará reaver todos os valores desviados por pessoas físicas e empresas.

Para o especialista, a empresa ainda tem uma série de oportunidades para alavancar lucros, mas precisa de investimentos. "O investimento só virá se a Petrobras conseguir ter mais transparência e trazer de volta a confiança e a credibilidade", ressalta.

Um dia antes da divulgação do balanço, a agência de avaliação de risco Moody’s afirmou que os "efeitos da saga da Petrobras devem perdurar" prevendo um "declínio da atividade em toda a cadeia de suprimento de óleo e gás."

Durante a apresentação do balanço contábil ao lado dos demais membros do conselho de administração da estatal, Aldemir Bendine disse que o balanço auditado é um "passo fundamental" para a recuperação da imagem da Petrobras.

O presidente da companhia destacou a criação da diretoria de governança e afirmou que ela está revendo o plano de negócios. "Os dados são resultado de um intenso esforço. O balanço foi ratificado pela auditoria externa sem nenhuma ressalva", afirmou.

O analista Flávio Conde considera que o posicionamento da nova diretoria aumenta a credibilidade da Petrobras. "Eles foram bem realistas e estão mudando procedimentos que devem diminuir as chances de novos desvios."

"A Petrobras foi vítima. Temos um sentimento de vergonha", declarou Bendine. Apesar dos números de 2014, ele enumerou motivos para acreditar na recuperação da companhia. Entre eles, destacou que a empresa tem um índice de sucesso em exploração de petróleo acima da média mundial. "Um em cada três barris de petróleo descobertos no mundo nos últimos dez anos foram da Petrobras."

Deutsche Welle