Você está aqui: Página Inicial / Economia / Debates acalorados

Economia

Diálogos Capitais

Debates acalorados

por Bruno Huberman — publicado 08/12/2010 13h20, última modificação 08/12/2010 13h21
Presidente da Telebrás luta pelo Plano de Banda Larga para democratizar o acesso à informação. Palestrantes defendem construção de hidrelétricas para ampliar poderio energético do País

Presidente da Telebrás luta pelo Plano Nacional de Banda Larga para democratizar o acesso à informação. Palestrantes defendem construção de hidrelétricas para ampliar poderio energético do País

As duas últimas mesas do seminário “2011-2014: O Brasil e os desafios do novo ciclo de desenvolvimento”, promovido pela revista CartaCapital em mais uma edição dos Diálogos Capitais, foram os mais acalorados de todo o evento. A primeira, sobre “a execução do Plano Nacional de Banda Larga e seus entraves”, contou com a presença do presidente da Telebrás, Rogério Santanna, do presidente do Grupo Telefônica Brasil, Antonio Carlos Valente, do presidente da TelComp, João Moura, e do professor da UFABC, Sérgio Amadeu. A segunda foi sobre a “geração de energia: urgências e alternativas” e teve a presença do presidente da CPFL, Wilson Ferreira Jr., do ex-presidente do BNDES, Demian Fiocca, do também ex-presidente do BNDES e professor da UFRJ, Carlos Lessa, e do presidente da Petrobras Biocombustível, Miguel Rosetto.

A execução do Plano Nacional de Banda Larga e seus entraves

Para Rogério Santanna, as empresas privadas que atualmente comandam o mercado de banda larga no Brasil são contra a intervenção da Telebrás no setor, o que acarretaria uma queda brusca do valor do serviço por conta do preço que será oferecido pela estatal. “As empresas privadas não querem a introdução do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) para não criar concorrência. Apenas querem que a Telebrás atue nos lugares onde não tem concorrência. Só querem que a gente trabalhe na carne de pescoço. É como se nós, na assembléia das galinhas, convidássemos as raposas para decidir.”

No Brasil, segundo Santanna, apenas pouco mais de 200 cidades apresentam concorrência e em outras mil há monopólio. Nos outros milhares de municípios, o serviço de banda larga não é oferecido. “Nós vamos enfrentar muitos processos judiciais até o plano ser implementado”, completa. O presidente da Telebrás anunciou que o PNBL oferecerá internet banda larga de 512 Kbps “de qualidade. Não aquelas velocidades nominais oferecidas pelas empresas privadas que nunca atingem o nível que deveria. A Telefônica teve uma pane no Speedy, a sua internet de banda larga, por falta de investimento e ninguém falou nada. A Anatel teve que intervir e proibir que eles parassem de comercializar o produto até que houvesse uma adequação.”

A apresentação do presidente da Telefônica evitou entrar em confronto com as idéias trazidas por Santanna. Valente preferiu traçar um perfil da empresa e descreveu os números de banda larga oferecidos: 4 bilhões de reais investidos em dez anos, 3 milhões de clientes e 779 municípios atendidos (apenas em São Paulo). O presidente da TelComp, um associação que defende o interesse das prestadoras de serviços de telecomunicação, confrontou as idéias de Santanna. Para Moura, “O poder de compra do Estado é fundamental para o setor de telecomunicação, mas a chegada da Telebrás preocupa, pois teria que ter respaldo do mercado. É importante baixar o preço, mas derrubar de maneira insustentável vai afastar futuros investidores. O preço deve cair pela própria concorrência.”

Por fim, o professor Sérgio Amadeu defendeu o PNBL para os cidadãos terem maior acesso à informação, inclusive à educação, como em cursos on-line oferecidos pelo governo federal. No entanto, para utilizá-los é necessária uma “banda larga universalizada, com a qualidade do serviço assegurada, uma boa conectividade (acima de 2Mbps) e um preço acessível, pois o atual é excludente.” Amadeu ainda chamou atenção o que está acontecendo com o WikiLeaks, site que vazou documentos secretos da diplomacia americana. A hospedeira do site, a Amazon, cancelou o serviço oferecido à organização, o que tirou o site algumas horas do ar. “Isso é um atentado à liberdade de expressão”, concluiu.

Geração de energia: urgências e alternativas

A última mesa do seminário começou com a apresentação do presidente da CPFL Energia, empresa de geração e distribuição de energia, sobre a situação “tranquila” no setor de energia que o Brasil terá nos próximos anos caso os projetos encaminhados, como a hidrelétrica de Belo Monte, sejam realizados. Em seguida, Carlos Lessa defendeu veementemente a construção de hidrelétricas no País: “em um país com o potencial energético como o nosso, o discurso ambientalista é atrofiado e está castrando a oportunidade única dada por Deus. É um absurdo produzir apenas 4 mil megawatts em Belo Monte enquanto poderiam ser 10 mil por conta de um terreno com 300 índios araras barbudos que usam alpargatas. Eu não estou tão confortável com nossa expectativa energética.”

Para o Brasil tornar-se o que chamou de “Noruega tropical”, Lessa chamou atenção para o enorme potencial energético oferecido pelo pré-sal. “Fico feliz com o discurso do Lula de que o petróleo vai impulsionar o desenvolvimento do País, que nós não vamos exportar o petróleo cru e que o pré-sal vai resolver o problema da dívida pública. Contudo, há o perigo de nos tornamos o ‘Iraque do Atlântico Sul’", afirmou. “Se eu fosse o ministro da Fazenda, dava um jeito de desvalorizar a Petrobras e comprava tudo o que o Fernando Henrique vendeu para Nova York”, completou.

Demian Fiocca foi na linha de Lessa, mas menos contundente: “não dá para fazer uma agenda ambiental e não ter nada em troca. Não é possível mudar a matriz de energia e atrasar toda a agenda de sua produção, porque são obras necessárias. Nós temos também que fazer as energias eólicas e solar, mas é imprescindível a produção hidrelétrica de energia.” Já Rosetto tratou do potencial do pré-sal, mas defendeu que nos próximos anos “o Brasil tem que virar vanguarda civilizatória mundial na energia renovável. Temos que perceber a importância e qualidade desse posicionamento estratégico.”

registrado em: