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Economia

João Sicsú

De Harvard para as ruas

por João Sicsú publicado 13/12/2011 09h37, última modificação 13/12/2011 09h37
Considerando insuficientes as aulas de economia, e lembrando dos fracassos dos mestres ao influenciar políticas, estudantes aderiram ao 'Occupy'

Dia 2 de novembro. O dia dos mortos. No curso introdutório de economia (rotulado “economia 10”) da Universidade de Harvard, os alunos ressuscitaram. Entregaram uma carta ao renomado professor Gregory Mankiw informando que estavam se retirando da sua sala de aula em protesto contra o conteúdo do curso que o economista está lecionando. Escreveram:

“Hoje, estamos saindo de sua aula, Economia 10, a fim de expressar o nosso descontentamento com o viés dado a este curso de introdução à economia. Estamos profundamente preocupados com a maneira que esse viés afeta os estudantes, a Universidade e a sociedade, em geral.”

Valeria ter noticiado este evento no Brasil? Sim, vale a pena! Greg Mankiw é bastante conhecido e muito admirado pelos economistas conservadores brasileiros. Tem livros traduzidos para o português e vastamente adotados nos cursos de graduação de economia do Brasil. E muitos de seus artigos acadêmicos são utilizados nos cursos de mestrado e doutorado.  Ademais, de 2003 a 2005, foi presidente do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George W. Bush. Hoje, é assessor do pré-candidato republicano Mitt Romney à Casa Branca em 2012.

Mankiw se considera um economista novo-keynesiano. Mas, para o leitor que tem a sorte de não conhecer os mínimos detalhes (que beiram a loucura) da vida acadêmica de economia, tal rótulo não quer dizer que Mankiw seja um seguidor do inglês John Maynard Keynes. Pasmem: quer dizer exatamente o oposto.

De volta à carta. Em seguida o texto dos estudantes explicita o viés mencionado: “não há justificativa para a apresentação de teorias econômicas de Adam Smith como sendo mais essenciais ou básicas do que, por exemplo, a teoria keynesiana”.

Segundo os estudantes, o curso teria a tendência de valorizar a teoria da “mão invisível” do mercado, a ideia fundamental do pensamento smithiano, em detrimento das visões que valorizariam o papel do Estado, a concepção keynesiana, como promotor do equilíbrio e do bem estar. Aparentemente, os alunos têm razão, cursos de introdução à economia devem apresentar uma visão ampla da teoria, mostrando que existem diversas possibilidades de leitura da realidade econômica. Embora jovens, os alunos sabem as consequências de cursos tendenciosos:

“Graduados de Harvard jogam um papel importante nas instituições financeiras e na definição de políticas públicas em todo o mundo. Se Harvard não equipar seus alunos com uma compreensão ampla e crítica da economia, é provável que suas ações prejudiquem o sistema financeiro global. A prova disso são os últimos cinco anos de turbulência econômica.”

Melhor ainda: os alunos não se retiraram da sala de aula para lanchar no McDonald´s. Foram para as ruas.

“Estamos saindo hoje para nos juntar a uma ampla marcha em Boston para protestar contra a mercantilização do ensino superior que é parte do movimento global ‘Occupy’. Já que a natureza viesada do curso Economia 10 simboliza e contribui para a crescente desigualdade econômica nos Estados Unidos, nós estamos saindo da aula de hoje tanto para protestar contra a sua discussão inadequada da teoria econômica básica, como para emprestar o nosso apoio a um movimento que está mudando o discurso americano sobre injustiça econômica.”

Mankiw, depois de um mês do ocorrido, se pronunciou em sua coluna do New York Times de 3 dezembro. No artigo, argumenta, como esperado, em defesa do seu curso e da sua trajetória profissional. Não vale a pena comentar. Apenas, vale mencionar dois fragmentos de seu texto. E a conclusão fica para o leitor...

“A administração da universidade, que tinha ouvido falar sobre o planejamento do protesto, enviou vários policiais, como medida de precaução, para sentar na minha classe no dia [da manifestação]. Felizmente, eles não foram necessários.”

“... minha (...) reação foi de tristeza ao percebr como mal informados parecem estar os manifestantes de Harvard. Tal como acontece com grande parte do movimento ‘Occupy’ por todo o país, suas queixas me parecem ser um apanhado de platitudes anti-establishment sem uma análise realística ou claras prescrições de política.”

Para acessar a carta dos estudantes de Harvard:

http://hpronline.org/harvard/an-open-letter-to-greg-mankiw/

Para acessar a resposta de Gregory Mankiw:

http://www.nytimes.com/2011/12/04/business/know-what-youre-protesting-economic-view.html