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Crise financeira: aprendemos a lição?

por Rui Daher publicado 17/01/2014 10h28, última modificação 17/01/2014 10h37
Pouco valeu a trombada global causada pela crença de que os mercados não precisam de regulamentação, sobretudo o financeiro
Bfishadow/Flickr
Nasdaq

Noto que pouco valeu a trombada global causada pela crença de que os mercados não precisam de regulamentação, sobretudo o financeiro

Na capa da última edição da revista Globo Rural você lerá: “Tendências 2014, agronegócio decola”; no Valor Econômico, “VBP - Valor Bruto da Produção Agropecuária deverá crescer 7,5%, em 2014, acima dos R$ 430 bilhões obtidos em 2013”. Mais uma vez as exportações do agro seguraram a balança comercial. Enfim, por onde você passar será esta a imagem da atividade. Inclusive aqui, exposta em colunas passadas.

O óbvio agropecuário me permite deixar de lado os temas rurais e continuar na levada da última coluna.

Noto que pouco valeu a trombada global causada pela crença de que os mercados não precisam de regulamentação, sobretudo o financeiro. Olimpicamente se autorregulariam e, caso estripulia houvesse, caberia aos bondosos Estados entrarem com a grana da salvação.

Cinco ou seis anos de padecimento no planeta, na pior crise econômica desde 1929, não foram suficientes para que alguns desistissem dessa aposta.

Ao caricaturar a forma partidarizada como o debate é feito no Brasil, nem todos perceberam que este “autor” (sentindo-se um criminoso) tratava justamente do tema que se imaginou relativizado.

Confesso que não pensei em desconstruir o embate PT-PSDB, embora não fosse má ideia. Mas, solenemente, viajo e ando para tais contendores, a anos-luz de entregarem aquilo que falta ao Brasil.

Nesta Federação de Corporações, o toque, a pegada econômica, passa por subterrâneos que nem imaginamos. A maior parte de nós, eu incluso, é remédio para uso tópico, como são os cremes hidratantes. O buraco é bem mais embaixo, escondido em um acordo de elites secular, que tende a se perenizar.

Talvez nos reste apenas o auxílio de inconfidentes espiões estrangeiros para conhecer o que temos no trato digestivo do País.

Ou devemos desacreditar quando matéria da BBC fala em algo como 600 bilhões de dólares de brasileiros depositados em paraísos fiscais? Pertencem ao Estado?

Devemos ignorar o investigado no livro de Amaury Ribeiro Jr, “A Privataria Tucana” (Geração Editorial, 2011)? Também as peripécias de Gilmar Mendes e Daniel Dantas, descritas no recém-lançado “Operação Banqueiro” (Geração Editorial, 2014), do jornalista da Folha de São Paulo, Rubens Valente, e tão bem esmiuçadas na edição impressa de CartaCapital?

Isso se alguém ainda não percebeu que, assim como no mensalão, em todas as nossas eleições houve um polo receptor e outro doador, muito próximo do que chamamos livre (e “dadeira”, lembrando Dorival Caymmi) iniciativa.

Mas todas as loas vão para o setor privado e os chutes para o traseiro do Estado.

Em artigo para a Folha, o filósofo Vladimir Safatle reconhece a necessidade de metamorfosear o Estado, mas pergunta: “Que instituição tem a força de quebrar os interesses individuais no campo da economia a fim de impedir o desenvolvimento da desigualdade”?

Vou mais longe, até a Universidade de Sussex, no Reino Unido. Lá, a economista Mariana Mazzucato, nascida na Itália e naturalizada americana, professora de Ciência e Tecnologia, tida como uma das mais importantes pensadoras da inovação, mostra como o setor privado somente decide investir depois que o Estado realiza os investimentos de alto risco.

Seu livro “The Entrepreneurial State: Debunking Public vs Private Sector Myths” (Demos, London, UK, 2011), pode ser encomendado na Amazon.

E não é isso que estamos a ver nesta Federação? Desconfiança? Então tá. Atávica, talvez.

Não foi exatamente isso que pontuei ao mostrar como ficou o setor de fertilizantes depois da privatização. Outros mais poderiam ser citados. Algumas empresas privadas, de tão ineficientes, ficariam melhor se estatizadas. Um exemplo? A dobradinha aérea.

Mais do que uma contraposição econômica, em países de maior igualdade social, Estado e iniciativa privada se complementam. No Brasil, onde se recomenda juros altos e desemprego para combater a inflação, desvalorizar as ações estatais serve politicamente para perpetuar nossas pobreza e má distribuição de renda.

Como fosse um passe-livre para contradições e interesses de classes servissem a um só senhor.

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