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Crescimento moderado

por Delfim Netto publicado 19/06/2011 10h54
É preciso olhar o que está acontecendo no resto do mundo com as economias mais poderosas neste pós-crise para entender por que o Brasil já não cresce como estamos acostumados

Nestes últimos quatro ou cinco meses, o desenvolvimento da economia brasileira mostrou que o Banco Central está mais antenado com o entendimento moderno da política monetária do que seus críticos. A contenção da taxa de inflação tem, seguramente, um conteúdo estacional – ela talvez volte a se elevar – mas é uma boa indicação de que a continuidade dessa política pode nos levar de volta ao centro da meta no fim de 2012. Não precisamos mais de muita pressa, como estava sendo “exigido” pela crítica.

O PIB vai crescer próximo de 4,5% este ano, o que já é uma redução do ritmo de crescimento normal de nossa economia. Não tem nada a ver com os 7,5% (que são apenas efeito de um truque estatístico), porque o Brasil não cresceu mais que 5%, se considerarmos a recessão que nos atingiu no meio do caminho da saída- da crise. O fato é que temos um desenvolvimento ainda razoável, comparado com os níveis de crescimento da maioria das nações do globo e uma inflação até o fim do ano parecida com 6%, com alguma possibilidade de reduzi-la ao longo de 2012.

É preciso olhar o que está acontecendo no resto do mundo com as economias mais poderosas neste pós-crise para entender por que o Brasil já não cresce como estamos acostumados. Uma parte substancial da queda no crescimento vem de fora, devido ao enfraquecimento da economia mundial. Nos Estados Unidos, já se teme a síndrome de uma “década perdida”, como a que viveu a economia japonesa até o ano passado.

A pressão inflacionária interna provém do setor de serviços, em razão das próprias características da demanda da mão de obra nesse mercado e da melhora na formação de pessoal. De nada adianta estranhar os níveis da remuneração, porque isso é parte de um processo civilizatório irreversível, a partir, principalmente, do sucesso das políticas sociais do governo Lula.

Há uma nova emergência, as pessoas estão mudando de condição, conseguindo melhorar a remuneração do trabalho. Não é apenas porque há uma escassez de mão de obra, mas porque mulheres e homens estão ascendendo no processo social. Imagino que ainda existe quem acredite que as tensões daí derivadas (altamente benéficas) podem ser contidas com a elevação das taxas de juro, o que é um enorme equívoco. Não é por esse caminho.

O que vai acontecer (e já está acontecendo de forma moderada no atual governo) é uma redução de demanda, como resultado das medidas macroprudenciais, mas sem produzir os efeitos indesejáveis que ocorrem quando se faz o combate à inflação apenas com elevações da taxa de juros. Não acredito que vamos correr os riscos de uma recessão, levados por equívocos na condução da política econômica. Qual a probabilidade de termos algum trimestre recessivo este ano? É claro que isso não vai acontecer, não existe essa possibilidade.

Daqui até o fim de 2011, o que vejo é uma situação de desenvolvimento moderado. Os controles de crédito terão algum efeito, mas sem redução expressiva nos níveis de consumo, de modo a terminar o ano com um PIB 4% maior, até mesmo com uma taxa de crescimento aproximando-se de 4,3% ou 4,5%, que era a minha perspectiva desde o início. Não vejo por que rever essas estimativas, apesar das avaliações do início desta semana de parte de ilustres economistas e analistas mais pessimistas por conta da queda do ritmo de crescimento da produção em setores da indústria no mês de abril.

A taxa de inflação deve se amainar nos próximos meses, mas terá alguma recuperação antes de convergir para a meta de 2012. Não dá para imaginar que vamos navegar num mar de tranquilidade em matéria de inflação no ano que vem, porque o setor de serviços vai ter de conviver com o choque da elevação do salário mínimo em 14%. Devíamos ter nos preparado para dividir em duas vezes a correção: uma boa parte das pressões que estão aí deriva do fato de não termos estudado melhor essa questão. Parece que esquecemos que o salário mínimo é unidade de conta. Quase tudo se ajusta pela variação do salário mínimo, principalmente nos serviços, desde os mais irregulares (pagos por hora, por exemplo) até os produtos médicos, obras de engenharia e todos os outros que se reajustam automaticamente.

Esses problemas nos preços provavelmente vão exigir do governo novas medidas de contenção do crédito, com restrições ainda maiores que as adotadas este ano. Isso sinaliza que não teremos nenhuma segurança de um crescimento econômico em 2012 superior ou pelo menos igual ao de 2011.

Não é uma perspectiva agradável, principalmente se levarmos em conta que as questões não resolvidas de indexação  devem produzir mais pressões sobre os preços, exigindo do governo ações dramáticas de contenção, desacelerando o crescimento.