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Comportamento de manada

por Paulo Yokota — publicado 04/04/2014 05h42
A difícil combinação entre a emoção e a racionalidade sempre terá que ser observada, e o tempo costuma ser um bom conselheiro

Nós, brasileiros, costumamos ser muito emotivos e nossas decisões nem sempre são ponderadas pela racionalidade. Este comportamento, no entanto, está tendendo a elevar-se no resto do mundo, com a disseminação da superficialidade. Muitas decisões chegam a independer das vontades dos operadores, como no mercado de capitais, no qual os computadores são programados para reagirem instantaneamente, com a maior velocidade, quando determinadas condições acabam ocorrendo.

Acontece que nestas programações só se consideram alguns fatores simplificados, quando a realidade é muito mais complexa envolvendo uma infinidade de influencias que dificilmente podem ser captadas por modelos simplificados, onde os dados que se acreditam mais relevantes estão incluídos.

No chamado mercado, muitos preferem errar com outros, pois suas responsabilidades acabam sendo diluídas com os que estão atuando de forma similar. É comum um grupo empresarial, como um brasileiro específico, que contava com ousados dirigentes que tinham seus projetos somente no papel, com perspectivas brilhantes apresentadas por estudos considerados tecnicamente bons. Acabaram induzindo experientes instituições financeiras a aportarem volumosos recursos, apesar dos seus competentes comitês de crédito.

Todos sabem que o futuro é opaco e apresenta riscos decorrentes de novos fatores que podem intervir numa evolução, e o passado nem sempre autoriza projeções, mesmo que se ressalve a existência de um intervalo de confiança para elas. Na medida em que se venda que tais projetos contam com o apoio das autoridades e estão dentro das diretrizes perseguidas pelo governo, acabam seduzindo até grupos que deveriam ser especialistas em avaliação de riscos.

É comum que se consiga formar um grupo que tenha interesses definidos e arrastem outros mais incautos. Como se uma economia fosse a bola da vez, tanto para o cenário positivo como para o negativo, sem que se examinem a fundo as condições reais nas quais estão inseridos. Também alguns setores, como o imobiliário, costumam gerar um comportamento estranho onde proliferam projetos para a construção de grandes apartamentos, de alto custo, para os quais não existem suficientes compradores finais. Ou que se torne uma espécie de consenso que agora seria a oportunidade de pequenos apartamentos de um ou dois quartos.

Ainda que haja uma desconfiança sobre tendências exageradas, muitos operadores costumam sair antecipadamente dos seus riscos quando notam qualquer indício de inflexão nas tendências, deixando os amadores com os pepinos. Principalmente quando os custos financeiros tendem a se elevar.

Estes comportamentos emocionais são frequentes também em outras atividades. Na culinária, por exemplo, uma entra em moda, passando do tradicional e de qualidade consagrada, para outras consideradas inovadoras, que apresentam aspectos criativos, mas acabam contendo muitos exageros.

Atualmente a culinária japonesa é considerada saudável. Mas existem exageros de criatividade de pseudos profissionais que não possuem os conhecimentos básicos e conseguem dar formas elegantes que aparentam serem japonesas, mas acabam iludindo muitos clientes. Principalmente os que se movem mais pelo desejo de serem vistos em ambientes da moda.

A dificuldade é separar a inovação segura, que considera a química da combinação de bons ingredientes, ainda que novos, com a simples apresentação que nem sempre é adequada, pois os elementos utilizados não combinam adequadamente. Mas a liberdade deve sempre existir para permitir a evolução, pois com o tempo os consumidores perceberão que algumas são simples modas que foram criadas artificialmente.

Este tipo de percepção ocorre nos mais variados setores da atividade humana, como na música popular, que faz parte importante da cultura. Na fase inicial, mesmo a chamada Bossa Nova soava como algo estranho, mas com o tempo foi se verificando que havia uma riqueza nesta nova leitura que acabou influenciando o mundo todo, pois se fundamentava nas tradições populares recebendo novos subsídios da música clássica.

A difícil combinação entre a emoção e a racionalidade sempre terá que ser observada, e o tempo costuma ser um bom conselheiro, ainda que alguns danos possam chegar a ser considerados lamentáveis.

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