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Economia

Opinião

Como um país vai de queridinho do planeta a uma estrutura podre?

por Rui Daher publicado 13/11/2015 04h59
Qualquer transformação no ciclo atual do capitalismo virá de movimentos autônomos originados no seio da sociedade inovadora
Marcos Santos / USP Online
A agropecuária está num contexto econômico favorecido pela sua essencialidade na manutenção da vida; mas os estragos feitos, estão feitos

A agropecuária está num contexto econômico favorecido pela sua essencialidade na manutenção da vida; mas os estragos feitos, estão feitos

Mesmo depois de um ano de pesada argumentação jornalística, acadêmica, política, jurídica, econômica, empresarial e, também, – louvado seja o Senhor - dos inadmissíveis narradores televisivos criminais, os leitores terão conseguido entender, com clareza, como um determinado país pode ser, durante quase 10 anos, o queridinho do planeta e, imediatamente, virar o ânus do mundo, inserido numa estrutura podre, decadente e sem futuro?

Não, não, se for para me acossarem com o tal Fla-Flu, caio fora. Isso vivemos desde 2003, num processo cansativo e inconcluso de culpabilidade e fulanização.

Apenas faço a pergunta. A quem entendeu, parabenizo. Como aqui os comentários estão racionados, deixo meu endereço de e-mail no box ao lado para continuarmos com o extinto “Facebook Caboclo”.

Dois artigos memoráveis do professor Delfim Netto, publicados nesta CartaCapital, “O capitalismo não é uma coisa” e “O erro essencial”, poderão ajudar na reflexão.

Aos desavisados pode parecer mais do mesmo. Não é. O professor não procura verdades apenas em planilhas econométricas. Usa a história e a dialética:

“O homem é um animal terrivelmente complicado. Enquanto ele priorizar a sua liberdade de escolha; enquanto for, souber e sentir que é diferente do ‘outro’; enquanto nem mesmo a mais longa privação da sua liberdade for capaz de incorporar no seu DNA um comportamento comunitário instintivo (...), continuará a sê-lo”. E reconhece: “A história mostra que a tendência ao abuso e, com o tempo, ao abuso absoluto parece tão inevitável quanto o aumento da entropia no mundo físico”.

Alguém não concorda? E continua. Afirma que o tempo trouxe soluções que amenizaram os abusos:

“A ampliação da democracia que empodera crescentemente os cidadãos pelo sufrágio universal foi a forma ‘civilizada’ que os homens inventaram para substituir (...) a minoria bem organizada em períodos bem definidos com eleições secretas, livres e abertas”.

Vai mais longe e coopta Karl Marx. Crê que se hoje o filósofo alemão ressuscitasse, “se entusiasmaria com a fantástica metamorfose do seu capitalismo ‘inovador e revolucionário’ sob a pressão organizada do cidadão-trabalhador empoderado pelo sufrágio cada vez mais universal”, embora o alemão continuasse a achar o capitalismo do século 21 “injusto e profundamente imoral”.

Alguém não concorda? Em 18/09/2015, aqui publiquei, “Como a agropecuária vai lidar com as transformações do capitalismo”?

Usando da dialética do professor Delfim Netto, não acredito que esse seja um caso específico da agropecuária, até porque ela está inserida num contexto econômico favorecido pela sua essencialidade na manutenção da vida.

Os estragos feitos, estão feitos. Permanecerão. Com menor intensidade. Não pelos efeitos da generalização do sufrágio universal, que isso, a exemplo do que se vive hoje no Brasil, golpes de Estado são ágeis em negar a vontade popular de forma fácil e coonestada pelo acordo secular de elites.

O professor está correto quando pensa assim até quando considera o ciclo capitalista ainda não reificado pelo desregulado sistema financeiro internacional. Até o momento em que os Estados não estavam subordinados à acumulação de capital rentista.

Aí sim, indústria, comércio e serviços permitiam aparelhos de distribuição mais igualitários. Sindicatos, ONGs, movimentos sociais, formas assistencialistas de apoio àqueles na base da pirâmide, tinham algum valor.

Não têm mais. Acabou. Finito. Quem fez, como por exemplo alguns países europeus fizeram, enquanto o capitalismo foi o que Delfim Netto ainda o supõe ser, se deram bem. Hoje em dia, não mais. China, Índia e outros emergentes, de uma forma ou outra, estão e estarão todos dominados se não houver uma mudança radical no sistema, hoje disforme e concentrador.

Podemos desconsiderar a concentração de renda e riqueza patrimonial nos EUA e demais países hegemônicos? Doravante, o poder terá, fatalmente, que entrar no jogo desse novo ciclo, talvez o mais cruel desde o feudalismo. Ou acionar seus arsenais.

A desigualdade só tem feito crescer. Quando o 1% da população do planeta deteve 50% da riqueza mundial? Os pobres se endividam para consumir produtos de maior valor agregado e ter acesso às inovações tecnológicas do novo milênio. O que é renda e o que é patrimônio?

Outro professor, Belluzzo, nesta mesma CartaCapital, vai às estatísticas e informa: “as últimas quatro décadas foram tempos de vacas magras para o emprego e vacas gordas para os lucros”.

De que valeu, então, o sufrágio universal que faria Karl Marx, ressuscitado, sambar sobre o Manifesto Comunista?

A reversão disso não se fará pelos Estados, já quebrados e subalternos aos conglomerados industriais, aos banqueiros e seus acólitos do mercado financeiro. Nem pelo distorcido comércio internacional.

Qualquer transformação no ciclo atual do capitalismo virá de movimentos autônomos originados no seio da sociedade inovadora.

Volto ao assunto, se não mudar de ideia.