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Como o dólar alto afeta a economia

por Deutsche Welle publicado 09/03/2015 04h04
A valorização da moeda norte-americana pode pesar no bolso do consumidor, mas, ao mesmo tempo, beneficiar indústria nacional
Tânia Rêgo / ABr

A escalada do dólar comercial, que cruzou nesta quarta-feira 4, pela primeira vez desde agosto de 2004, a barreira dos 3 reais, pode gerar efeitos positivos e negativos na economia brasileira.

Para a indústria nacional, pode significar um aumento das exportações – e ajudar o Brasil a equilibrar a balança comercial. Em fevereiro, o País teve déficit de 2,8 bilhões de dólares, o maior para o mês desde 1980.

Se a atividade industrial aumentar, gera-se mais empregos: produtos importados mais caros podem dar força a itens nacionais. Porém, as indústrias podem ter dificuldades para importar insumos e, se tiverem dívida em dólar, vão pagar mais caro para saldá-las.

Ao mesmo tempo, a alta do dólar pode pesar no bolso do consumidor, com o aumento da pressão inflacionária e o encarecimento de viagens ao exterior e alguns produtos.

Afetados devem ser, sobretudo, itens importados – como carros e bebidas – ou que têm insumos comprados no exterior. Exemplos são pães e biscoitos, já que grande parte da farinha de trigo usada no Brasil é importada de Argentina e EUA.

"No atual cenário de instabilidade, todos perdem, já que nossos maiores exportadores veem o preço de seus produtos caírem em proporções maiores que a alta do dólar", afirma José Kobori, professor de finanças do Ibmec/DF. "E essa alteração no câmbio influencia negativamente uma inflação já galopante, prolongando ainda mais uma política monetária contracionista."

O mercado financeiro foi tomado nesta semana por uma onda de compras, com investidores recorrendo à segurança da divisa americana diante da escalada da queda de braço entre governo e Congresso sobre o ajuste fiscal.

Além disso, há temores sobre a nota do grau de investimento do país – representantes da agência de classificação de risco Standard and Poor's (S&P) já estão no Brasil para começar as avaliações. Em meio às incertezas, é o dólar que sente com mais força a aversão ao risco.

A economista Cecília Melo Fernandes explica que, no curto prazo, a alta do dólar deve gerar impacto no cenário econômico brasileiro principalmente por meio de pressões inflacionárias, que já se encontra num cenário crítico.

"Os preços livres e as commodities estão se desacelerando, e isso alivia um pouco o efeito do câmbio na inflação no curto prazo. Porém, se essa trajetória se interromper, haverá a necessidade de implementar uma política monetária ainda mais austera", afirma Fernandes. "E isso vai gerar impacto nos investimentos, no desempenho econômico, que já está fraco, e consequentemente nos empregos no médio e longo prazos."

A subida do dólar é influenciada por fatores internos e externos. No Brasil preocupam, além do impasse sobre o ajuste fiscal, a desaceleração da economia; a inflação acima da meta do governo federal; e até um possível racionamento de água e energia.

No exterior há preocupações com a crise na Grécia e a possível elevação da taxa básica de juros nos EUA, o que geraria uma redução de fluxo de capitais no Brasil. Como os títulos da dívida americana ficarão mais atrativos, há uma antecipação do mercado aos sinais do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e da economia americana, como a taxa de emprego favorável.

No Brasil, o último Boletim Focus, divulgado na segunda-feira, reflete o pessimismo do mercado financeiro. No documento, analistas estimam que o PIB terá retração de 0,58% em 2015 e que a inflação subirá a 7,1%, acima da meta estabelecida pelo governo, de 6,5%.

"O dólar tem respaldo no cenário externo e na atuação do Banco Central. Houve um reflexo da sinalização do BC de uma menor intensidade na renovação dos contratos de swap cambiais que vencem em abril", afirma Fernandes. "Essa sinalização reforçou as expectativas de que haverá uma menor intervenção, de forma gradual, no mercado daqui para frente."

O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou em janeiro que o governo federal não continuaria a valorizar o câmbio de forma artificial. Com a desvalorização do real, disse Levy, o governo federal pretende que os produtos brasileiros melhorem sua competitividade no exterior. A atuação do Banco Central no mercado está, assim, limitada a 100 milhões de dólares por dia.

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