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Como fica a educação na zona rural?

por Rui Daher publicado 04/04/2014 12h21
A escola deveria ser um bem essencial para os brasileiros que continuam vivendo no campo

Que não se imagine todos que habitam zonas rurais praticando atividades agropecuárias. O forte êxodo para as áreas urbanas não foi apenas físico, mas também por desejos e aptidões funcionais. Primeiro, o corpo; depois, o pensamento.

Tanto o trabalho caseiro de mulheres em costura, tricô, artesanato e no agronegócio fabricando queijos e geleias, ou em chácaras, sítios e condomínios prestando serviços domésticos, como de jovens descendentes de agricultores, que abrem pequenas oficinas de motos, modernos cavalos e mulas de neossertanejos, mostram que morar em zona rural cada vez menos significa plantar na terra ou roçar o pasto.

Entre 1970 e 2006, ano base para os dados do último Censo Agropecuário, o número de pessoas que se declararam ocupadas em atividades agropecuárias recuou 7%. Nas regiões Sul e Sudeste, a queda foi mais grossa e atingiu 25%, num período em que a população brasileira quase dobrou.

Trata-se de movimento estrutural, que não pode ser jogado inteiramente nas costas de Estado, iniciativa privada, feudos e feitores. A tecnologia traz a competitividade e esta faz o comércio.

No entanto, para alcançar o atual estágio da agropecuária, não teria sido necessário excluir com tanta força (muitas vezes física) homens e mulheres do campo, os campesinos, na acepção da Confederação Nacional da Agropecuária do Brasil (CNA), termo comunista, mas de precisão inconteste para mim.

Rumemos para outro censo, o demográfico, do mesmo IBGE. Em 2010, residiam em áreas rurais cerca de 30 milhões de pessoas, 16% da população.

Dos 5.565 municípios apontados para recenseamento, 70% deles não passavam de 20 mil moradores. Entre eles, 2.200 pequenininhos mesmo, pois com menos de 8.000 residentes. Somente a partir daí, os aglomerados ganham perfis explicitamente urbanos.

Vale dizer, por mais técnica que possa ser a definição do IBGE, grande parte da mescla urbano-rural navega em área cinzenta.

É fácil entender que os municípios com menor número de residentes estão em regiões menos desenvolvidas, onde os deslocamentos para o meio urbano, à procura de trabalho nos setores de serviços e industrial, são menos intensos e possíveis. Prova disso é que metade dos residentes em áreas rurais está na região Nordeste.

Lá permanecendo, essa população, se não ocupada por modelo excelente de agricultura familiar, a ser repassado para assentamentos e comunidades indígenas e quilombolas, viverá dos “bicos” citados no início do texto ou, pior, justificará os estigmas preconceituosos que recebem.

Peguemos, agora, o caderno de caligrafia e o estojo com materiais escolares e visitemos o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, autarquia vinculada ao ministério da Educação.

Tomando por base os ensinos infantil, fundamental e médio, em 2013, perto de 40 milhões de crianças e jovens se matricularam em escolas públicas municipais e estaduais, sendo 34 milhões (86%) em áreas urbanas e 5,7 milhões (14%) em zonas rurais.

Pois bem, segundo dados do INEP, em uma década, mais de 30 mil escolas rurais foram fechadas no Brasil, em decisões que seguiram critérios puramente administrativos, sobretudo, baseados em relações de custo-benefício.

Claro está que no campo muita coisa é mais difícil e custosa. Acesso, transporte, chuva, cobra, carrapicho, instalações precárias, professores indisponíveis ou que cabulam as aulas. Similares na educação ao alegado por médicos na saúde.

O próprio MEC reconhece que em 90% das escolas falta internet, em 15% energia, 10% água potável e 14% esgoto. Há que se entender que o custo do ensino em escolas rurais será necessariamente mais alto do que nos aglomerados urbanos melhor infraestruturados.

Poder-se-ia pensar: se é pra ser assim melhor não ter. Bobagem. Melhor esperar gritando do que interromper o processo educacional.

No quadro aqui exposto, escola é um bem essencial. Ou pelo menos deveria ser.

Sabiam disso o baiano Anísio Teixeira (1900-1971), que dá nome ao INEP, e achava fundamental preparar professores; e o pernambucano Paulo Freire (1921-1997), que via a aprendizagem em constante interação dialética com a realidade.

Fechar escolas rurais, então tá.

Como não lamentar a persistência de tais lacunas básicas trocadas pelo prazer de preencher meu álbum de figurinhas numa Copa realizada no país onde nasci?

Só que “agora é cinza tudo acabado e nada mais” (Marçal e Bide, 1933)