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Como a agropecuária vai lidar com as transformações do capitalismo?

por Rui Daher publicado 18/09/2015 06h25
É preciso saber como conciliar a emergência de classes subalternas, a financeirização, o trabalho e a proteção ao meio ambiente
AFP
Agricultura na China

Área de agricultura em Chongqing, na China: o setor emprega 300 milhões de chineses

Quando em maio de 2013 aceitei o convite para manter coluna semanal sobre o agronegócio neste site de CartaCapital, prometi conversar ora vendo o setor “assim do alto” ora “com uma lupa”. É o que tenho feito, embora perceba comentários trocando as bolas.

Podem incomodar. Muito. Mas a maioria traz informações, reflexões e ajuda a reformular posições. Os demais permitem lembrar palavrões geriátricos, hoje em desuso.

Sempre alguém contestará seu estilo de escrita, como se cromossomo de Eça de Queiroz fosse. Não percebe que temas áridos são mais agradáveis se levados na forma de crônicas. Na coluna anterior, soberba moça categorizou: “texto fraquíssimo”. Corri à farmácia em busca de vitaminas.

Expor a fragmentação do agronegócio como excepcional vantagem de um país com diversidade parece ser pouco entendido. Os vários segmentos têm carências e formas de apoio específicas. O primordial, creiam, os portugueses já nos deram: extensão e posição territoriais.

Para mim, o tema mais importante a ser discutido hoje em dia, e visto de altos estratosféricos, é como a cadeia originada na agropecuária irá seguir as transformações do atual estágio do capitalismo e seus novos vetores.

Pouco a ver com as mudanças ocorridas a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Estas, consolidadas e envelhecidas, viveram ambiente de hegemonia gestado ainda nos séculos 19 e 20.

A atual mostra necessidade de conhecer e projetar novas interações e modificações nas esferas de produção e distribuição das atividades rural e agroindustrial.

A emergência de classes sociais subalternas em países pobres nas duas últimas décadas, que excitaram a demanda, e o desarranjo nas economias hegemônicas causado pela desregulamentada financeirização, são processos irreversíveis quando o assunto é produção de alimentos, fibras e energia renovável.

Difícil será coaduná-los com preservação do trabalho de homens e mulheres, recursos naturais e meio ambiente. Ponto.

Que não se espere milagres espontâneos, como responsabilidade sobre consumo de luxo e lixo. O ser capitalista é assim. Quer cada vez mais. Quem leu o livro de Thomas Piketty e acompanha as preocupações do papa Francisco sabe da crescente concentração de riqueza no planeta.

Tanto que contingentes enormes de pessoas com deficiências nutricionais pouco podem com inovações tecnológicas de baixo custo, na contramão de interesses dos maiores fabricantes de agroquímicos.

Ao Brasil falta inteligência e boa vontade prospectivas. Saber o que tem e o que não deve ceder para o futuro. Por assim pensar, Mangabeira Unger acaba de pedir demissão como ministro da secretaria de Assuntos Estratégicos.

O século 21 exibe reordenação de hegemonias, predominância do setor de serviços, financeirização da economia. Resulta precarização do setor produtivo e do trabalho.

Nada disso pode ser visto apenas em curto prazo ou na simplificação do que fazer, em 2050. Teremos até lá os tais 9 bilhões de bocas a alimentar? Talvez, sim. Se a devastação do planeta, por guerras, epidemias, consumo desenfreado, concentração de renda, não contrariarem as preces dos papas Francisco e José Graziano da Silva.

Blasfemei? Por que Francisco e Zé Graziano?

Bem, o que se pode esperar do papa Francisco se não lamentar e pedir que parem os massacres na Síria? Ou que EUA e Cuba se aproximem e termine o embargo? Ou, ainda, que casais gays tenham direito às leis e permissões gerais da sociedade?

O consumismo individualista é praga de um sistema de meritocracia que pouco tem a ver com a Bíblia.

O mesmo acontece com o papa Zé. Como agrônomo, conhece a fundo as questões agrárias e de segurança alimentar. Bem, Andanças Capitais mostram-me nem todos agrônomos assim.

Nomeado ministro, em 2003, no governo Lula, instituiu o programa Fome Zero, que levou ao Bolsa Família, com consequências conhecidas por todos, inclusive dos que acham que transformou o Brasil num país de vagabundos e acomodados.

Logo de cara, levou um baita pau das folhas e telas cotidianas, e dos ruralistas que não perceberam o quanto isso poderia encher-lhes os bolsos, mesmo que ajudando a quem poucos ligam.

Graziano picou a mula e até hoje (acaba de ser reeleito) é diretor-geral da FAO, o organismo da ONU responsável por alimentação e agricultura. Como Francisco, Zé precisa acreditar que a humanidade deu certo e é possível tornar o planeta mais justo. Tem uma fé imensa.

Acreditou nos Objetivos do Milênio, quando 191 países se reuniram, em setembro de 2000, para acabar com a fome até 2015. Na época, 1,2 milhão de pessoas viviam na pobreza extrema, com um dólar per capita por dia. Também acreditou nas diversas Rodadas Doha, piqueniques em cidades aprazíveis que continuarão a acontecer.

Agora, incansável, diz que ainda existem 800 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. Propõe nova etapa, com erradicação da fome até 2030. Pela redução que houve nos últimos 15 anos, se nada mais impactante for feito, chegaremos a 2030 ainda com 650 milhões de pessoas nessa situação.

E olha que a economia dos países emergentes foi responsável por grande parte dessa redução, e que seus mares hoje não estão para peixes tão grandes.

Se a economia mundial melhorar, pode ser que alguma franja de bondade sobre para os famintos. Caso contrário, os 800 milhões de hoje aumentarão, assim como voltarão à miséria os 40 milhões de zumbis que o Brasil colocou no estreito limiar da classe média.

Se não mudar de ideia, volto ao assunto.