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André Esteves, BTG Pactual

Com os pés na economia real

por André Siqueira — publicado 31/10/2011 18h28, última modificação 31/10/2011 18h30
Para André Esteves, do BTG Pactual, a crise internacional é resultado da falta de alinhamento dos interesses dos bancos com o de seus clientes
André Esteves

André Esteves, do BTG Pactual, vê o Brasil num novo patamar na economia mundial. Foto: Trippolli

É difícil imaginar uma grande operação societária na história recente do capitalismo brasileiro que não tenha recebido o toque de André Esteves, dono do BTG Pactual. Eleito um dos líderes mais admirados no Brasil, o banqueiro articulou operações que alteraram setores inteiros, como a fusão da Oi com a Brasil Telecom, da TAM com a Lan Chile ou o acordo da Cosan com a Shell. No ano passado, adquiriu por 450 milhões de reais o controle do PanAmericano, que Silvio Santos decidiu vender após um rumoroso caso de fraude. Foi ele também quem articulou para Abilio Diniz o plano, por ora em banho-maria, de unir o Pão de Açúcar à subsidiária brasileira do Carrefour.

Carioca de sorriso franco, Esteves surpreende quem o conhece apenas pela fama de banqueiro agressivo na concretização de transações, em geral, surpreendentes. Nesta entrevista a CartaCapital, ele faz uma análise do papel dos bancos em um momento de crise internacional e empresta apoio à política econômica do governo Dilma, que, a seu ver, dá sequência a um processo de “mudança de patamar” do Brasil no cenário mundial. Confira a íntegra da conversa:

CartaCapital: Embora não atue no varejo, o BTG Pactual conquistou uma visibilidade sem paralelo entre os bancos de mesmo porte. Isso é bom para os negócios?

André Esteves: Nós não estamos no business de ser famosos, esse é outro ramo. Esse aqui é o de servir bem, cuidar do capital, ter uma responsabilidade fiduciária, que é das mais importantes. As pessoas delegam seus ativos financeiros à nossa administração. Acho que não combina tanto com ser famoso, não.

CC: O fato de atuar em tantos setores da economia os afasta, de alguma maneira, da atividade bancária tradicional?

AE: No fundo, esse é o modelo que vem da criação dos bancos de investimento, e no qual acredito. Temos a capacidade de suportar nossos clientes com empréstimos, com advisory (aconselhamento) e também com capital permanente. Além de manter sempre os seus interesses alinhados com os dos clientes. Boa parte dessa crise que nós vemos em Wal Street tem a ver com desalinhamento de interesses. Acho que nosso modelo, independentemente do tamanho ou da escala, perpetua o seu alinhamento de interesses com os seus clientes. Essa é a tese. Então, eu me sinto banqueiro, sim.

CC: O que vemos pelo mundo, então, é um desvirtuamento do banco de investimentos?

AE: Em todas as operações que fazemos, nós botamos nosso capital, mas também o de clientes, para apoiar outros clientes no seu crescimento. Banco de investimento sem investimento é uma distorção do que foi a gênese dessa nossa indústria. Nosso papel social é colocar lubrificante na engrenagem do setor produtivo. Numa economia como a brasileira, que está se transformando, que está crescendo, que está se reinventando para o lado positivo, o motor precisa de performance e lubrificante, que é aquilo que a gente provê, facilitando o crescimento das companhias. Seja emprestar dinheiro para a companhia, investir ou coinvestir, seja dar o nosso melhor aconselhamento sobre a dinâmica setorial, sobre o mundo, sobre os próximos passos estratégicos.

CC: A sensação que se tem é a de que a economia financeira ganhou um espaço muito maior que o da economia real.

AE: Só existe o setor financeiro porque existe o setor real, e não o contrário. Eu nunca deixei de ter essa convicção. Por mais que nós sejamos importantes, você sempre tem que ter a noção do seu papel dentro da economia mais genericamente, e o nosso papel é apoiar o setor produtivo, e não o contrário.

CC: Nesta edição da pesquisa As Mais Admiradas, de CartaCapital, temos três executivos do setor bancário (além de Esteves, Roberto Setubal, do Itaú Unibanco, e Fabio Barbosa, ex-Santander) entre os líderes mais votados. Num país em que tanto se criticam juros altos, por que os banqueiros estão tão bem cotados?

AE: Acho que são dois componentes. No fundo, a dificuldade de provar para o público a importância dos bancos, a qualidade dos bancos e o papel que eles desempenham talvez tenha definido um standard out para os banqueiros. Aqueles que se saíram bem, de uma certa maneira, são admirados. O segundo aspecto é a própria qualidade das empresas. Os bancos no Brasil são bem administrados, e isso tem uma correlação direta com um passado não muito distante, que foi muito desafiador. Quem cresceu e se provou nesse ambiente dos últimos quinze anos é porque tem realmente qualidades admiráveis. É um setor que também tem uma exposição dentro da sociedade, e no momento em que o Brasil cresce esse destaque aumenta. Mas nós somos informais, pé no chão total, aqui não tem ninguém afetado.

CC: A notoriedade alcançada pelo banco explica o fato de a maioria dos grandes negócios realizados no Brasil contar com a participação de vocês?

AE: A gente construiu uma qualidade interna e um brand que tem apoiado os clientes com muita qualidade, agilidade e ousadia. Quanto à natureza do nosso negócio, em geral são operações muito relevantes para os nossos clientes. Em muitos casos, são as operações mais importantes da vida dos nossos clientes. Um IPO, por exemplo, uma grande fusão, uma grande aquisição são muitas vezes as operações mais relevante daquela história corporativa, daquela história empresarial, por mais competentes que sejam os clientes. Acho que tudo o que a gente tem produzido tem criado uma marca de valor adicionado e, na hora de uma operação de peso, por mais competente que seja o empresário, é muito importante ele pegar alguém de fora, com tanto recursos, que pode apoiá-lo de diversas maneiras. É aí que nós temos nos inserido. É uma combinação de compromisso com longo prazo, de poder apoiar com capital, seja crédito, seja investimento, nosso conhecimento e link com o setor externo, nosso entendimento profundo de Brasil e de mercados emergentes. Uma combinação de fatores levou a essa posição de hoje, que nos orgulha bastante e traz bastante responsabilidade.

CC: Quais as operações foram mais relevantes na trajetória do BTG Pactual?

AE: É difícil destacar qual negócio é mais importante. A maioria dessas transações são landmarks tanto para as companhias quanto para seus controladores e presidentes. Todas absorvem bastante do nosso tempo, da nossa atenção, da nossa energia. Tem transações que são landmarks para o Brasil. As transações da TAM com a Lan, da Oi com a Portugal Telecom, foram alianças que mudaram setores. Há outras que foram desafiadoras e ousadas, como o Panamericano (adquirido pelo BTG Pactual em 2010). E também a Cosan com a Shell, só para citar algumas que são landmarks por elas mesmas, independentemente da gente.

CC: O BTG tem feito parcerias, que envolvem inclusive trocas de participações, com fundos e bancos da Ásia. Evitar os centros financeiros tradicionais, como Estados Unidos e Europa, faz parte da estratégia?

AE: O Brasil mudou de patamar e a nossa consciência tem de mudar de patamar junto com o Brasil. A própria posição do BTG Pactual, vis a vis os bancos internacionais, espelha isso. Hoje o empresário, seja internacional ou brasileiro, buscando um bom aconselhamento nos procura. Por quê? Temos mais de mil pessoas aqui, qualificadas, comprometidas, que vão estar aqui daqui a vários anos, que têm compromisso com aquele ciclo empresarial por inteiro, como ninguém no nosso ramo de negócio tem. Não há mais o preconceito dessa relação Sul-Sul ou preconceito de ser brasileiro, e o primeiro passo é a gente mesmo acabar com esse preconceito. A gente fez uma série de movimentos de conexão com a Ásia. No nosso aumento de capital, os dois maiores investidores institucionais são o JIC e o CIC, que são o fundo soberano de Cingapura e o fundo soberano da China. São nossos sócios, não são parceiros. Compramos um lote de ações no Citic, que é o maior banco de investimentos chinês. Vamos botar 100 milhões de dólares. Nós fomos investidores core na abertura de capital do maior banco de investimento chinês. Isso é fantástico para o Brasil. Muito provavelmente, eles serão também na nossa abertura de capital quando ela vier a acontecer, um dia, no futuro. Essa relação Brasil-China, que a gente poderia falar América Latina-Ásia, está aí, é uma realidade. Não precisa passar por Londres ou Nova York. Nós simplesmente podemos exercer esse papel e vamos exercer. Temos escritório em Hong Kong, com mais de dez pessoas nossas, brasileiras.

CC: Outras empresas brasileiras, como a Embraer, têm encontrado dificuldades para fazer suas operações na China engrenarem.

AE: A natureza dos negócios é diferente. A gente intermedia investimentos, e tem muitos investimentos acontecendo. Montar uma operação industrial na China é um desafio muito grande e vai continuar a ser por muito tempo, não só para brasileiros mas para ingleses, americanos, franceses. Intermediar as relações é um tema que está em voga e estamos muito satisfeitos com as nossas parcerias.

CC: A atual crise financeira internacional se originou nos países desenvolvidos. Isso influenciou a decisão de se aproximar dos mercados emergentes?

AE: O mundo emergente vem se reprecificando em relação ao mundo desenvolvido, em vários aspectos. A renda per capita está aumentando, a força financeira está aumentando, a qualidade da educação está aumentando. A crise veio só para fechar mais rápido esse gap. O que diz um escritor que é meu amigo, o Tom Friedman, é verdade mesmo: o mundo está se tornando flat. No aspecto produtivo, financeiro, de credibilidade. No fundo, tinha-se uma dúvida de quem seriam os ganhadores da globalização. Os grandes vencedores são os países emergentes, que conseguiram arbitrar o custo da mão de obra, o que de certa maneira se traduz em melhor condição de vida para seus trabalhadores. Você começou a criar grandes consensos políticos nos mercados emergentes. Uma coisa muito relevante para trazer desenvolvimento sustentável de longo prazo. Não significa que não tenha disputa partidária, mas convergência importante sobre as macrovariáveis.

CC: É esse consenso que se vê também no Brasil?

AE: O que foi o gatilho desse desenvolvimento recente brasileiro é a consolidação da estabilidade macroeconômica com o atingimento de consenso político. É essa transição smooth. Você tem as eleições, que são competitivas, acabadas as eleições começa um governo que não muda tudo do governo passado. É a imposição de políticas de Estado sobre as políticas de governo. Nós brasileiros tivemos a felicidade de termos uma sequência de presidente Fernando Henrique, presidente Lula e agora presidente Dilma. Gente muito responsável, muito centrada, com amor para fazer a coisa certa para o Brasil. Hoje, não existe dúvida de que manter a inflação baixa é uma conquista da sociedade, principalmente a população de baixa renda, que você precisa manter um certo equilíbrio fiscal, que o setor privado promove o crescimento da economia, que ter um mercado de capitais desenvolvido e pujante ajuda a economia a crescer, que nós devemos estar abertos aos investimentos externos, e por outro lado que as nossas empresas também podem crescer lá para fora. São consensos que parecem meio óbvios, meio simples, mas que são importantes.

CC: O Banco Central tem sido criticado, sobretudo pelos economistas mais ortodoxos, pela estratégia recente de reduzir a taxa básica de juros. O senhor enxerga alguma mudança de rumo na política econômica?

AE: Dá para entender (a decisão do BC). Os mercados futuros, que são muito líquidos e operados por investidores do mundo inteiro, sinalizam quedas ainda maiores para a frente, frente à gravidade da crise internacional.

CC: Há quem diga até que o BC abandonou o regime de metas de inflação.

AE: Não é isso o que o mundo está dizendo. O BC de Israel caiu as taxas de juros e é tocado pelo Stanley Fischer, que era a principal mente econômica do período mais ortodoxo do FMI. Então acho que o mundo está indo numa outra direção. É que aqui nós temos um passado inflacionário que é tão ameaçador que, corretamente, a sociedade é muito defensiva em relação a isso. Mas eu diria que a ameaça global recessiva é muito maior do que a ameaça inflacionária nesse momento. Há muito exagero. Se você for centroavante da seleção brasileira vai perder gol sempre. Presidente do BC ser criticado faz parte do job description.