Você está aqui: Página Inicial / Economia / Censo agropecuário, Marina e Friboi

Economia

Agronegócio

Censo agropecuário, Marina e Friboi

por Rui Daher publicado 05/09/2014 10h21, última modificação 05/09/2014 10h34
Colunista fala do censo agropecuário do IBGE, das relações de Marina Silva com o agronegócio e comenta a recusa de CartaCapital a novos anúncios da Friboi
Mary Leal/ Agência Brasília
Plantacao-e-colheita-de-Morango-no-Distrito-Federal-foto-Mary-Leal-Agencia-Brasilia201408210003.jpg

Plantação de morango no Distrito Federal, um dos maiores produtores da fruta no Brasil

Nas duas últimas colunas comentei o processo de internacionalização do agronegócio brasileiro montado sobre base primária equivocadamente acusada de não agregar valor e, talvez por isso, subalterna, quando se trata de assegurar instrumentos para ganhos futuros de produtividade e competitividade.

Penso: se assim é quando vista do alto, como ela fica quando flagrada pela lupa?

Lembrei, então, a presença de bacteriazinhas que raleiam o apoio educacional e técnico levados a 80% do pessoal ocupado na lavoura, segundo Censo Agropecuário, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com dados recolhidos em 2006.

Atento leitor, que trabalha no IBGE, comentou que indefinições internas deverão postergar a execução de um novo Censo. Uma pena.

Não que se possa esperar grande melhora nos índices de oito anos atrás. Se elas aconteceram, e acredito que sim, deveram-se muito mais às mudanças no perfil da sociedade rural, tanto pela sucessão geracional nas famílias e evasão de alunos para escolas urbanas, como também pelo interesse comercial dos fabricantes de insumos em divulgar novos produtos.

A realidade fica ainda mais triste, perto da criminalidade administrativa, quando se vê essas anomalias se espalhando pelas gestões de órgãos oficiais importantes, como IBGE, Embrapa, MAPA, INCRA, FUNAI, no plano federal, e IAC (Instituto Agronômico de Campinas), CATI (Coordenaria de Assistência Técnica Integral), EMATER (Extensão Rural), no plano estadual. Menos ainda se deve esperar das prefeituras de municípios.

Repito e aumento o tom: creio que o patrimônio cultural criado por essas instituições, em décadas de trabalho de pesquisa, inovação, conhecimento e estatística, tem peso similar à economia gerada pela agropecuária.

Sem consultá-los é impossível conhecer a atividade, sua história e desdobramentos futuros. É na garupa desse cavalo encilhado pelo descuido oficial que o agronegócio, nacional ou internacionalizado, monta na hora do fazer.

Apenas lamento que o faça pensando somente no umbigo de seus interesses comerciais.

Marina Silva e o agronegócio

Qual Marina? É disso que se trata.

A candidata do PSB, hoje líder nas pesquisas eleitorais para presidência da República, desde que concorreu ao mesmo posto em 2010, carrega significativo potencial de votos. Nada de novo nisso. Tivesse sua Rede legalizada não teria adotado um partido que nega boa parte de suas posições.

Minutos depois da ação da providência divina, como por ela proposto sobre o acidente aéreo que tirou a vida de Eduardo Campos e mais seis pessoas, escrevi estar assegurado um 2° turno, e tucanos em voo para longe do Planalto.

Aquele agronegócio que se faz croquete na areia dos conceitos vindos da bancada ruralista, de Caiados a Cajados, resistirá aos pesadelos outrora trazidos por uma senhora que, no governo ou fora dele, negava e contestava licenças ambientais, execrava a reforma do Código Florestal, sempre esteve a favor da posse de terras por indígenas e quilombolas, por onde passava acusava-os de reis de motosserra e, naquilo que mais irrita essa turba, a extensão da legislação trabalhista ao campesinato (ops!)?

Ou será que, para esse agronegócio, Marina pintará o rosto de que Dorival Caymmi tanto gostava e dizia ser só seu, quando beleza pura?

Creio que vivo o genial compositor baiano acabaria de mal com ela.

Mas, marqueteiros e economistas neoliberais sabem bem: envolver-se numa túnica de Gandhi e dar um passo pra trás em antigas convicções basta para esconder uma carranca que nunca se evitou expor.

Nem tão espertos ou esotéricos assim

A última edição impressa desta CartaCapital, em nota de Mino Carta, informa que a JBS Friboi, depois de ver publicada matéria sobre ilícitos da empresa, solicitou espaço na revista para a publicação de três anúncios.

O pedido foi recusado, o que não me espanta. Como não me espanta saber que grande parte do empresariado nacional acredita tudo poder comprar com moedas farisaicas.

Espanta-me, sim, a burrice de quem fez a proposta, esperando vê-la aceita.