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Brasil x EUA, na agricultura

por Rui Daher publicado 21/11/2014 14h58
É difícil encontrar grau de comparação entre as atividades nos dois países
Tomaz Silva / Agência Brasil
Horta comunitária

Moradores de comunidade pacificada no Rio em projeto de agricultura sustentável em hortas comunitárias

Volto ao tema exposto no livro O Mundo Rural no Brasil do Século 21, que interrompi para preparar ligeiro refogado à beira do fogão. A caracterização de agricultura familiar serve para habilitar milhões de propriedades em programas governamentais de apoio, incentivo e financiamento a taxas favorecidas.

A classificação não é totalmente correta. Lá coexistem iniciativas individuais, arrendamentos, formas associativas não familiares. Alguns pesquisadores fundamentalistas clamam maior segmentação. Trabalheira que pouco importa. Classificações sempre trazem algum grau de imperfeição.

Quem se lançar em Andanças Capitais constatará que, prioritariamente, ali vivem e trabalham famílias de agricultores em aglutinados e comunidades socialmente integradas. Basta o visitante mostrar boa fé, deixar pra trás a arrogância urbana, e logo será convidado para a missa da santa do lugar, churrasco e chimarrão, bode com baião-de-dois, ou futebol no campinho local.

Áreas com tais características formaram-se em processos autônomos – arrendamentos, aquisições de parcelas, repartição geracional de terras. Pouco foi conduzido pelo governo. Em média, 70 hectares de chão, os extremos variando conforme o valor agregado do que é cultivado.

É importante compreendê-las diferentes do que, no século passado, apelidou-se “agricultura de subsistência”. Antes, exclusivamente, para consumo próprio, hoje em dia também para o mercado.

Voltemos, então, ao artigo da pesquisadora da Embrapa Maria Thereza Macedo Pedroso, em O Mundo Rural no Brasil do Século 21, que compara as experiências em agricultura familiar nos Estados Unidos, União Europeia e Brasil.

Apesar de reconhecer trajetórias históricas e econômicas diversas, sem nelas se aprofundar, acredita que o estágio tecnológico atual da agricultura brasileira permite igualar tendências e repetir as experiências dos dois blocos concorrentes, para concluir que os segmentos agrários que não atingirem esse padrão estarão em cova rasa econômica.

Verdade. Pero no mucho.

Nos EUA, a maturação tecnológica da agropecuária remonta a meados do século 19, com economia industrializada em amplo crescimento, e apenas surto rápido de constrangimento pós-crise de 1929.

O episódio negativo seguinte, no início da década de 1970, função do petróleo, em nada alterou a hegemonia norte-americana, e o mais recente, em 2007/08, globalização consolidada, pouco interferiu no rural do país. Em nenhum desses períodos o governo deixou de subsidiar e financiar a atividade agropecuária, defendida com unhas e dentes por poderosos lobbies.

Mas e as mudanças estruturais importantes que ocorreram no setor rural dos EUA? Pesadas quedas de população e número de estabelecimentos rurais, duplicação do tamanho médio das áreas, diminuição do trabalho familiar, concentração fundiária?

Bem, estamos falando de uma tendência global, sem dúvida estrutural, validada pela lucratividade obtida com avanços tecnológicos, preços altos das commodities e financeirização da atividade rural, fenômenos ainda não generalizados entre países emergentes e pobres.

Lembremo-nos que tais mudanças concentram-se nas culturas de milho, algodão, arroz, soja e trigo, típicas do mercado de commodities.

Tanto isso é verdade que a mudança de perfil nas propriedades norte-americanas ocorre de forma bimodal, com expansão dos extremos em detrimento dos produtores médios: “Em parte, a sobrevivência e expansão das pequenas propriedades podem refletir oportunidades de atividades agrícolas, assim como escolhas de estilos de vida de pessoas que preferem combinar um estilo de vida rural modesto com a produção agrícola ou animal” (MACDONALD et al., 2013, cf. tradução da autora).

Como faz a pesquisadora no livro, relativizo comparações com a agropecuária europeia, dividida entre feudos secularmente subsidiados.

Embora o artigo insista nas semelhanças dos processos, entre EUA e Brasil, percebo, mais uma vez, a agropecuária “vista assim do alto”, em paradigmas verdadeiros para o segmento de grandes produtores brasileiros de commodities, forçando “a lupa” para trazer a agricultura familiar para esse perfil.

O Censo Agropecuário 2006, do IBGE, mostra que o buraco é mais embaixo.

Em 36 anos, o número de estabelecimentos agropecuários cresceu 6% ao ano; a área total 21% ao ano; a propriedade média passou de 60 para 68 hectares.

Nem em poderio econômico ou em profundidade das crises é possível ver qualquer semelhança nos processos norte-americano e brasileiro. Com um adendo: até os primeiros anos do século atual, a nossa agricultura se desenvolveu como atividade menor da economia, e só não quebrou por força dos preços no comércio internacional.

Baseado na coluna de 07/11, “Agricultura familiar não é o mesmo que assentamento sem terra”, estimado leitor questiona como manter a sustentação de famílias em assentamentos, comunidades quilombolas e aldeias indígenas. Olhando-os como proletários. Não acreditam? Façam Andanças Capitais e voltem aqui na próxima semana. Se eu não mudar de ideia.