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"Brasil ficou para trás no setor de biocombustíveis"

por Deutsche Welle publicado 12/04/2015 06h47, última modificação 13/04/2015 04h17
Especialista diz que EUA, UE e China lideram corrida para ver quem vai estabelecer o padrão de produção de etanol a partir da celulose
Orgadem/Flickr
Biocombustível

Plantação de pinhão manso para produção de biodiesel em Queimados, RJ

Por Fernando Caulyt

Após se tornar o líder no consumo e produção de biocombustíveis, o Brasil perdeu a hegemonia para EUA (em 2003) e União Europeia (2011). O retorno à ponta, porém, será difícil, afirma Sergio Salles-Filho, organizador do livro "Futuros do Bioetanol: O Brasil na Liderança", lançado pela Unicamp.

Segundo ele, o Brasil terá que investir mais na tecnologia de segunda geração dos biocombustíveis – produção de etanol por meio de celulose – e implementar políticas mais concretas para o setor. "O Brasil investe nessa tecnologia, porém menos que EUA, União Europeia e China", afirma o engenheiro agrônomo. "Existe uma corrida hoje para ver quem vai estabelecer o padrão de produção de álcool a partir da celulose, mas o Brasil está para trás."

Deutsche Welle: Após ser líder no consumo de biocombustíveis, o Brasil perdeu a liderança em consumo para os EUA (2003) e União Europeia (2011). Por quê?

Sergio Salles-Filho: O Brasil tinha uma liderança muito mais pelo fato de que a indústria de açúcar e álcool era secular e o país deu início antes dos outros países ao uso sistemático do etanol como combustível para automóveis. Ou seja, desse uso sistemático gerou-se uma política de usar o etanol e, assim, a produção foi aumentada. Era uma liderança frágil, porque era o único país que produzia etanol por meio de cana de açúcar. Os demais países não faziam isso. Como era estava só, o Brasil era líder dele mesmo.

DW: E o que os outros países, como os EUA, fizeram para crescer no setor?

SSF: Como boa parte da tecnologia é aberta, a perda da liderança ocorreu de forma rápida. Os EUA focaram muito no etanol de milho. Em menos de cinco anos, dobraram a produção para 50 bilhões de litros. Hoje são quase 60 bilhões. Foi um salto extraordinário porque houve uma política de Estado dizendo que iriam colocar etanol na gasolina.

DW: É possível o Brasil voltar à liderança mundial no setor?

SSF: Acho, pessoalmente, isso muito difícil de acontecer, mas não é impossível. Por uma razão: o volume de investimento em novas tecnologias que vem sendo realizado por países desenvolvidos é muito maior do que o do Brasil. As técnicas tradicionais de produção, seja do etanol ou do biodiesel, não têm segredo. Já novas tecnologias, principalmente a partir de celulose, podem mudar a situação no futuro. O Brasil investe nessa tecnologia, porém menos que EUA, União Europeia e China. Existe uma corrida hoje para ver quem vai estabelecer o padrão de produção de álcool a partir da celulose, mas o país está para trás. Ele terá que ampliar os investimentos caso queira retomar a liderança.

DW: O que exatamente precisa ser feito?

SSF: É preciso que seja criada uma política para substituir o combustível fóssil, ou seja, ir retirando gradativamente a gasolina do posto e colocando mais etanol à disposição. Mas, em vez disso, o governo federal tomou claramente uma opção pela produção de petróleo. Ele continua investindo em biocombustíveis, mas não dá para comparar, já que são volumes de dinheiro bem diferentes.

DW: Faltam políticas para o setor?

SSF: Falta uma política clara do governo federal em relação aos biocombustíveis. Elas chegam a existir, mas não são concretas como, por exemplo, determinar que, em dez anos, o Brasil terá que ter uma frota de 80% rodando com etanol. O que existe é uma política dúbia, em que o governo aposta ao mesmo tempo no petróleo e nos biocombustíveis. Não há problemas nisso, mas, a longo prazo, é criada uma sinalização confusa para os atores públicos e privados que estão envolvidos no setor.

DW: Com o barril de petróleo mais barato, vale a pena ainda investir em biocombustíveis?

SSF: O preço do barril de petróleo, que caiu de forma muito intensa, altera completamente qualquer estudo prospectivo sobre o futuro dos biocombustíveis. Isso porque eles existem por uma pressão ambiental, por serem mais adequados ambientalmente e uma alternativa aos derivados do petróleo.

Mas a de decisão sobre investimentos não pode depender tanto do momento. Não se pode estruturar uma indústria de biocombustíveis, incluindo aí a cadeia produtiva, de transporte, distribuição e consumo, e ficar dependendo de uma oscilação do preço do petróleo.

DW: Quais são os principais impulsos atualmente ao investimento em biocombustíveis?

SSF: A principal razão para a expansão hoje dos biocombustíveis são as regulações ambientais – como a redução da emissão de carbono – e isso coloca força na produção. Se não fosse a regulamentação ambiental em Europa, EUA e Brasil, além de outros países, de redução de emissão de carbono e substituição de combustíveis fósseis por renováveis, o futuro dos biocombustíveis estaria comprometido.

DW: Como você vê o futuro dos biocombustíveis?

SSF: A tendência é a produção de bioetanol a partir de celulose – como fibra, palha e bagaço da própria cana –, mas ela está no início. A vantagem é que se pode extrair o etanol a partir de qualquer biomassa vegetal com celulose. E, assim, vários países têm a chance de entrar no negócio, já que, se um país não consegue produzir cana de açúcar por causa do clima, é possível produzir essa matéria-prima mais indiferenciada.

Hoje existem no mundo cerca de seis a oito plantas em escala industrial para produzir bioetanol com base em celulose, com capacidades muito baixas. As duas maiores – que têm capacidade de produzir 90 milhões de litros por ano e se localizam nos EUA – não conseguem chegar nesse teto por problemas técnicos.

Só em comparação, os EUA produzem quase 60 bilhões de litros por ano de etanol de milho. O Brasil – com a terceira maior planta e capacidade de 80 milhões de litros por ano – começou a produzir no ano passado e está fazendo ajustes para que a operação chegue ao volume de produção que é esperado.

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