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Economia

Opinião

Brasil é líder no agronegócio, e isso é bom

por Rui Daher publicado 25/09/2015 06h24
Houve tempo para fazer do Brasil um país exportador industrial, mas não modelo. Essa é a realidade
Daniela Barcellos / Palácio Piratini
Vaca

Vaca no parque de exposições Assis Brasil, na 38º Expointer. O agronegócio é a cara do Brasil

Na terça-feira 22, participei do 63º Fórum de Debates Brasilianas.org, organizado pelo jornalista Luís Nassif, com o tema “O Agronegócio e o Comércio Mundial”, dividido em quatro painéis: Política e Contribuição à Balança Comercial, Logística, Financiamento, Novas Tecnologias.

Indicado para o primeiro, falei o que penso sobre tal contribuição: “é o que temos para hoje”, forma de amenizar a dor de analistas que se autoflagelam por sermos primordialmente exportadores de bens primários.

Tivessem tratado disso antes. Tempo houve, modelo não. As formas como ocorreram os processos de industrialização e adequação da economia aos ciclos capitalistas que se sucederam abriram espaço para percepção dos fatores rurais positivos do País, até então vistos como vocação jeca-tatu.

Sim, não deveríamos ter parado aí, mas se o não feito está aí, seria inteligente negligenciar amplo espaço territorial, climas subtropical e temperado, recursos hídricos e força de trabalho rural, para continuar importando alimentos, a esperar inovações tecnológicas inconclusas ou compradas fora?

Empurrada por significativos incentivos do Estado nas décadas de 1960 e 1970, foi-se superando os ciclos monocultores e tornando a agropecuária, de valor agregado horizontal, e o agronegócio, de adição verticalizada, uma vitrine nacional.

É claro que houve percalços no caminho. Estruturais, conjunturais, internos, externos. Plantava-se num plano econômico e colhia-se em outro. Faltaram financiamentos, garantias de preços e seguros. Muitas vezes Chicago e Nova York nos puseram de joelhos.

Séries históricas mostram longo período de baixo crescimento ou mesmo estagnação. Difícil resistir aos subsídios e barreiras dos EUA e Europa, inação em infraestrutura pró-competitividade, câmbio flutuante contado em milhas marítimas e, no mercado interno, ausência de demanda por falta de poder aquisitivo da população.

Também, se balança é, supõe-se dois pratos. Há mais de 20 anos mantemos um olho fechado para o prato da dependência de importações. O setor de fertilizantes, privatizado para investir em produção nacional, limitou-se a um arremedo de controle da oferta e nada investiu. Hoje em dia, 75% da demanda é suprida com importações que pesam na balança comercial e no bolso dos agricultores.

O fato de o agronegócio, nos últimos anos, ter sido o sustentáculo da balança comercial, no entanto, não justifica triunfalismos ou negar as injúrias feitas às preservação ambiental e biodiversidade. Crescimento via aumento da produtividade e não expansão da área plantada não vem da consciência, mas do bolso de quem sabe o quanto custa abrir áreas de plantio.

A crítica de que temos a produção agropecuária voltada para commodities ignora a dinâmica do mercado. Vende-se o que o cliente pede. O comércio internacional nos pergunta se temos soja, milho, açúcar, algodão, carnes, suco de laranja, frutas do Velho Chico.

Fazer o quê? Dizer que não? Sentar-se nos estoques? Nosso mais recente período de crescimento teve forte base na exportação do agronegócio.

Poderia ter sido ainda melhor, mais tivéssemos investido para eliminar entraves logísticos e reformular a matriz de transportes, combater o protecionismo, e não passar ao largo de tecnologias nutricionais e fitossanitárias, aqui produzidas, efetivas, de baixo custo e potencial exportável.

No momento, temos as economia e política do País em frangalhos. O agronegócio conseguirá segurar a barra da balança comercial? Se não ele, quem mais?

O mais recente Intercâmbio Comercial do Agronegócio (Ministério da Agricultura) mostra que, entre 2004 e 2013, as exportações no planeta foram de 7 trilhões de dólares para 15,4 trilhões trilhões de dólares. Aumento de 120%, em 10 anos. Nada mal.

Os produtos agropecuários foram de 486 bilhões de dólares para 1,15 trilhão de dólares, 137% a mais. Uma participação que se mantém entre 6 e 7%, há décadas. Com uma vantagem, porém. Sejam céus de brigadeiro ou de soldados rasos, será sempre essencial, o que não é certeza para chuteiras de futebol e capinhas de iPhone.

Sustentação garantida pela disposição nos países pobres e emergentes de manter a segurança alimentar e o esgotamento dos fatores de produção interna nos principais países exportadores.

O Brasil, em dez anos, saiu de 5,8% para 7,6% na participação sobre as exportações agrícolas, um aumento de 30%. No resto, ralentamos o 1,5% de sempre.

Em 2004, a agropecuária representou 29% de nossas exportações; dez anos depois, 36%; até agosto deste ano, perto de 45%.

Tal qual o papa Francisco, o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, e a Velhinha de Taubaté, eu acredito na liderança do Brasil como produtor e exportador do agronegócio.

A partir de 2006, enquanto os países desenvolvidos traquinavam com seus brinquedinhos financeiros, acabando por se machucarem, a participação de nossas exportações agropecuárias para esses países caiu de 47% para 33%, enquanto para os demais países emergentes subiu de 50% para 64%.   

Como o momento, num misto de autoflagelo e regozijo, exige que se fale de crise em 2015, 2016, 2017, só para chegar a 2018, pódio muito peleado, vamos lá.

Tudo abaixo, certo? Exportações e importações. Pena. As duas asseguram crescimento, emprego e renda. Ainda mais se as primeiras são maiores e o saldo é positivo.

De janeiro a agosto de 2015, o agronegócio exportou 60 bilhões de dólares, 12% a menos do que em 2014. No período, entretanto, a participação cresceu de 44% para 47%. No outro prato da balança, a queda foi de 11 bilhões de dólares para 9 bilhões de dólares. O saldo caiu de 56 bilhões de dólares para 51 bilhões de dólares. Bom ainda, né?

O perfil pouco mudou: complexo soja (38%); carnes (16%); produtos florestais (11%); complexo sucroalcooleiro (9%); café (7%). Deu 81%. Sem isto ...

Ordem dos destinos: Ásia e Oriente Médio (53%); União Europeia (21%); Nafta (8,5%); África (6,5%); Mercosul (4,5%). 93,5% estão aí.

Queda devida às cotações das commodities agrícolas (22% em um ano). O consumo, porém, se manteve. Mais baratos os produtos, poderá até aumentar.

Mas, sem triunfalismo, por favor. Sempre dependeremos dos humores em Chicago e Nova York. Se muito eles piorarem daqui para a frente, o 7 a 1 tomado da Alemanha poderá se repetir.